Breve texto
Jorge Pereira Filho
"O que é roubar um banco comparado a fundá-lo"
Bertold Brecht
Era um dia como outro qualquer na vida de Kátia, como de tantas Marias, Fátimas, Joanas na periferia de São Paulo. O mesmo despertar insosso, o mesmo café amargo, banho, roupas e compromissos. Saiu de casa cedo - voltaria antes do escurecer. Não que voltasse cedo, mas horário de verão nos ilude que trabalhamos menos. Em casa, ficaram seus três filhos - a de 10 anos tomava conta dos outros dois, menores. Como em tantas outra famílias. Mas naquele dia algo aconteceu - Kátia recebeu um telefonema no trabalho. Algo aconteceu em sua casa. Sua filha, de 4 anos, havia enforcado o irmãozinho (1 ano e 8 meses). (...)
A polícia investiga o crime e o delegado do 74º DP já tem um suspeito. Ele disse que a filha, de 4 anos, não pode ser responsabilizada pela morte. Mas a mãe, sim, por "abandono de incapaz". Kátia diz que não tinha dinheiro para pagar uma babá - berçário?, existe berçário público em São Paulo? Deixava a filha de 10 anos cuidando da casa e dos outros. Para o Estado, a morte do bebê agrava o crime da mãe que, agora, pode perder a guarda das outras duas crianças.
Números:
- apenas 13% das crianças de 0 a 3 anos no Brasil estão matriculadas em berçários ou escolinhas (Ministério da Educação)
- em 2006, a União (governo federal, Estados e municípios) investiu 1,96% do seu orçamento em Educação; com o pagamento de juros e amortizações a bancos e investidores, gastou um pouco mais: 40% de todo o orçamento (Auditoria Cidadã)













Do específico para o todo
Pertinente relação entre a sofrida realidade pessoal de muitas mães brasileiras e a falta de visão e planejamento da administração pública na área da educação.