1964 por Guarnieri
Livro Crônicas 1964, uma compilação que apresenta para um novo público uma parte pouco conhecida da obra de um dos maiores nomes do teatro, cinema e televisão do país
Aldo Gama
da Redação
Em janeiro de 2006, mesmo abatido por problemas de saúde, Guarnieri concordou em receber Worney para conversar sobre o período em que escrevera as crônicas. No livro, Worney reproduz os principais temas abordados, sendo que alguns são reproduzidos a seguir:
O processo de produção das crônicas
“Era uma loucura! Eu escrevia todo dia, em cinco minutos, e um rapaz vinha retirar o texto para levar para a redação; por isso tive pouco contato com o Otávio, o ilustrador da coluna, mas a gente se divertia.”
A criação das personagens
“Criar as personagens era um sentimento de solidariedade com a vida, com as crianças e sua condição de sobrevivência. Na verdade, eu trabalhei sempre com eles no teatro, com outros nomes, mas com o mesmo universo, eram crônicas da vida operária.”
O espírito político da época
“Nesse período, a consciência da garotada era muito grande. O espírito era: ‘queremos fazer a revolução’, mas como fazer é que era complicado, não era tão simples. O pessoal camponês era meio apartadão, com a influência das Ligas Camponesas. Já o movimento estudantil era nossa casa, o pessoal tinha uma energia muito grande, eram muito ardorosos.”
Trechos das crônicas
“Cedinho, passou o Zé, pastinha debaixo do braço, a caminho da metalúrgica, cruzando com dois barbas ralas que acabavam de deixar o bar, o mesmo bar, de todos os dias. Zé fechou a cara e apertou o passo. O mais alto cantarolava uma canção medieval francesa, enquanto o outro, mais baixo, misturava versos de Rimbaud com citações bíblicas. Trôpegos, quase que esbarram em Zé. O mais alto fez uma mesura e o mais baixo, atirando-se de joelhos, bradou heróico:
- Proletários do mundo inteiro, uni-vos!
A resposta de Zé foi censurável, mas, na situação, perfeitamente aceitável. E eles calaram e meditaram e reconheceram que a coisa estava preta, pois Zé estava parado de punhos cerrados, esperando reação. E não reagiram e dormiram até de tardezinha e voltaram para o bar, o mesmo bar, com o mesmo tédio e os mesmos problemas de existência para falar um pouquinho mais sobre a revolução.”
No Ritmo Manso, página 77, publicada no dia 8 de fevereiro de 1964.
“Aí é que alguém notou que pela fresta da porta entrava água. Aos borbotões, um aguaceiro, um dilúvio, Orós! E toca a pegar cano pra pôr na porta, rodo. Água vai, água vem, e pronto. A catástrofe. O porão totalmente inundado cuspia água para a sala. E foi subindo, subindo. A poltrona verde já meio imersa. Os homens, calças arregaçadas procurando salvar pertences. O portãozinho arrebentado pela força da enxurrada. Na rua, os moleques gritavam e nadavam. Afinal, não era coisa incomum. Divertido o jeito de Roberto trepado no murinho, molhado, calças rebocadas e Julietinha, no dia de um noivado tardio, cabelos escorridos, pingando, vestido novo encharcado. E riam, apesar de tudo. E, mesmo ali, Roberto pôs o anel no dedo de Julieta e marcaram casamento para o outro ano, em março, depois das chuvas, e ficaram quietinhos para não despertar o prefeito.”
O Noivado, página 100, publicada no dia 19 de fevereiro de 1964.
“E, lentamente, insinuante comentou tudo o que sabia a seu respeito: família, parentes, vida particular... Por sorte era homem de princípios e nada fizera que pudesse indispô-lo com a moral vigente. Por fim, ela começou a falar dos negócios. Sabia tudo. Terrivelmente bem informada. E sorrindo, revelou saber cifra por cifra sua conta bancária e o andamento dos demais negócios. E diante de um homem perplexo ela falou sobre a concorrência pública que ele vencera de modo não muito aceitável, razoável negociata que envolvia gente de gabarito. E sempre sorrindo Joana o abraçou, levou-lhe o copo aos lábios, e fê-lo beber contra a vontade.”
Joana da Caridade, página 133, publicada no dia 3 de março de 1964.
“Ficaram alguns instantes em silêncio. O pai voltou ao assunto:
- E a polícia espancou vocês?
- Como é fácil de constatar, meu pai...
- Mas escuta aqui, de que lado você estava?
- Ora, pai, tá me achando com cara de gorila?
- Não, não... Mas é que nunca se sabe, não é?
- Essa me ofendeu!
- Deixa disso... Se você parasse um pouco mais em casa a gente poderia conversar um pouco mais...
- Olhe que está me dando vontade mesmo...
- Vocês precisam garantir a palavra do homem, de qualquer jeito!
- Boa, velho... Claro que vamos conseguir...
- Agora fica quieto e fecha os olhos que sua mãe vem aí... Não houve nada, ouviu? Um carro esbarrou em você no Largo de São Francisco. Nada de grave, tá?
- Tá, companheiro. - Fechou os olhos e conseguiu dormir.
Um Pai, página 202, última crônica publicada, no dia 1º de abril de 1964, dia do golpe.












