A arte como luta política
Encontro reúne 700 pessoas no Pará para debater a produção artística em acampamentos e assentamentos
19/11/2008
Patrícia Benvenuti,
da Redação
Mostrar o camponês como um produtor de cultura, e não apenas como mero espectador. Esse foi um dos objetivos da Semana de Cultura Brasileira e da Reforma Agrária, realizada entre 10 e 16 de novembro no Centro Cultural Tancredo Neves (Centur), em Belém, no Pará. O encontro, promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) reuniu cerca de 700 participantes de vários Estados que discutiram o acesso à cultura e a produção artística nos acampamentos e assentamentos da reforma agrária.
Na avaliação de Maria Raimunda César, da coordenação do MST no Pará, a semana conseguiu pautar um diálogo com a sociedade que vai além da valorização do trabalhador no campo, reconhecendo o camponês como um sujeito que também produz cultura, conhecimentos e saberes. "Não é comum ver trabalhadores sem terra ocupando o centro da cidade e discutindo cultura. Para a sociedade, é mais concebível a gente estar reivindicando do que reunido para socializar cultura e conhecimento. Aos poucos, vamos conseguindo romper essa barreira que afasta os sujeitos do campo do mundo do conhecimento".
Além da importância de divulgar a produção cultural dos camponeses, Maria Raimunda destaca a relevância de realizar uma semana de cultura em Belém, considerada a capital da Amazônia. A região, na avaliação da coordenadora, vem sofrendo com o avanço de grupos interessados em lucrar em cima cultura dos povos locais, transformando os costumes e tradições em mercadoria. "Há uma diferença muito sutil entre o processo de comercialização da cultura e a valorização desses sujeitos produtores de cultura”, explica. De acordo com ela, “o mercado e os meios de comunicação transformam o carimbó e o lundu, nossas danças e a nossa alimentação em um grande espetáculo para inglês ver, para turista ver”, avalia a militante.
Imaginário popular
Segundo o professor de História da Arte da Universidade de São Paulo (USP), Francisco Alambert, a arte e a cultura devem ser encaradas como luta política, pois são instrumentos necessários para vencer a ideologia incutida pela indústria cultural durante séculos. De acordo com ele, a história já mostrou a importância da produção artística e cultural para as conquistas socialistas, como a Revolução Soviética, em 1917, e na Revolução Chinesa, de 1949. “Os grandes processos revolucionários do século 20 entenderam que a luta revolucionária deve estar em todos os lugares ao mesmo tempo, inclusive no terreno das artes, da cultura e da produção simbólica”, avalia.
O professor, portanto, defende que a luta contra o latifúndio não deve estar separada da luta pelo controle da produção cultural, e alerta para a necessidade dos movimentos sociais disputarem o domínio do imaginário popular e o acesso aos bens simbólicos. Para isso, afirma, é necessário socializar os meios de produção cultural, para que sirvam aos interesses coletivos. "A arte só se produz coletivamente. O autor deve ser o produtor, e o produtor deve ser ator", sintetiza.
A Semana de Cultura contou com debates com militantes do MST, representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), do governo do Estado do Pará e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária(Incra), professores e jornalistas. Foram realizadas, ainda, oficinas sobre cinema, dança, rádio, jornal impresso, customização e máscaras, entre outros, além de noites culturais, com cantores, escritores, poetas e grupos de dança e de teatro e tributos especiais ao compositor Waldemar Henrique e ao músico João do Vale. (Leia mais na edição 299 do Brasil de Fato).