A conduta de risco de Tony Gilroy contra o agronegócio
O mesmo diretor de Advogado do Diabo disseca a relação entre transnacionais e escritórios de advocacia, responsáveis por limpar a "sujeira" deixada pela lógica bárbara do grande negócio
13/05/2008
Thiago Barison
O suspense indicado a sete oscars conta a história vivida por “Michael Clayton” (George Clooney), advogado de um grande escritório em Nova Iorque responsável pelos casos da fictícia – porém nem tanto – megacompanhia de herbicidas “United Northfield”. A trama é tecida em torno de um processo sofrido pela transnacional do agronegócio, responsável pelo envenenamento de 450 famílias de camponeses. Isso mesmo: as semelhanças com a realidade não são mera coincidência e isto faz de “Conduta de Risco” um filme que nos põe a refletir.
Nesta teia de relações, os advogados são chamados de “faxineiros”: os responsáveis por limpar a sujeira deixada pela lógica bárbara do grande negócio. Diante de lucros monstruosos, a vida e a natureza se mostram meros objetos. E todos envolvidos têm um preço, a ser pago por esse montante volumoso de lucros, proporcionalmente segundo o grau de envolvimento de cada sujeito dessa estrutura.
Ocorre que um advogado do caso muda de lado e sua conduta se torna um risco à boa ordem dos negócios. O suspense então prende a atenção do espectador precisamente porque o encadeamento das cenas aparece como algo terrível, porém possível neste mundo cão. Com efeito, o filme espelha uma realidade em que prevalece a mentira, que aliás é muitas vezes divulgada pelo próprio cinema. Eis aí a razão pela qual vale a pena assistir a obra de Tony Gilroy: num jogo de espelhos, entre as telas e as janelas, a verdade aparece nua e corrosiva como os herbicidas da transnacional.
Propaganda e ideologia
Contar apenas uma cena não vai estragar o espetáculo e pode nos dar uma idéia dos símbolos de que trata o diretor. Diz a bela propaganda da “United Northfield” passada nos telões do Time Square e em todas as televisões do mundo: “we find the seed... we shape the soil... we speed the harvest: we feed the planet.” [encontramos a semente… preparamos o solo… aceleramos a colheita: alimentamos o planeta.].
A reação é imediata: vem-nos à mente as igualmente apelativas peças publicitárias que hoje compõem o mosaico de mentiras coloridas da ideologia capitalista. No caso brasileiro, impossível não lembrar das recentes propagandas de Aracruz, Monsanto & Cia, ou então da Vale do Rio Doce, cujos cenários remontam a um Brasil diverso e próspero: aparecem índios, brancos, negros, jovens, idosos, todos bonitos (bem maquiados), bem alimentados, felizes e cantando as canções da MPB (na voz de artistas à soldo). Um espetáculo farsesco. Tudo isso logo após os movimentos populares se organizarem e botarem nas ruas um plebiscito questionando a privatização da Vale do Rido Doce. Diante de qualquer movimentação dos povos, o capital responde imediatamente com as poderosas armas da videologia.
Recordamos também a última eleição presidencial, em que mudam os atores e o cenário, mas a peça mantém o mesmo roteiro tragicômico. O espectador interage com sua inércia bem acomodada no sofá da sala e, ao final, dá um sorriso amarelo, sabendo que no fundo está sendo enganado. A modernidade perverteu a tragédia grega, retirando a filosofia da arena e introduzindo o culto da mercadoria.
Outras referências
Revelar essa relação íntima entre o mundo dos negócios e a barbárie vivida na Terra tem sido a tônica de bons filmes como Erin Brockovich – uma mulher de talento (indústria química), O Informante (indústria tabagista), O Jardineiro Fiel (indústria de medicamentos), Diamante de Sangue (indústria de jóias e pedras preciosas), Boa Noite e Boa Sorte (grande mídia), Senhor das Armas (indústria bélica), The Corporation (sociedades anônimas em geral), O Bom Pastor (serviços de inteligência dos EUA). A lista é imensa, pois não faltam subsídios para bons roteiristas nas muitas décadas de atuação nefasta do império das transnacionais.
E aqui Tony Gilroy não arriscou e foi buscar no meio jurídico elementos para seu enredo, aproveitando a inspiração obtida em visitas a grandes escritórios de advocacia quando escrevia O Advogado do Diabo (1997). De fato, ali ninguém é inocente e também no terreno do direito as transnacionais têm larga vantagem, comprando tudo e todos.
Um aspecto dessa linhagem de filmes, contudo, nos decepciona. Geralmente em tais filmes, (registre-se: exceções à regra do enlatado americano), são indivíduos, profissionais liberais, intelectuais, figurando como personagens principais, os únicos capazes de enfrentar o poder do capital quando descoberto em sua lógica suja. Para não dizer verdadeiros “heróis” (de cinema, é claro). Isso quando o filme não envereda para um ceticismo paralisante diante do “poder imenso das corporações” ou perante a “maldade intrínseca do ser humano”.
Talvez isso seja mesmo reflexo da falta de alternativas reais, da fraqueza das forças que hoje enfrentam o poder das transnacionais. A tragédia da realidade contemporânea impõe ao cinema crítico certos limites.
E precisamente por esse fato amargo somos forçados a reconhecer a perspicácia e o poder da abordagem presente em filmes americanos dessa linhagem. Os dramas e contradições individuais que levam os heróis a se voltar contra as engrenagens do capital, partindo de dentro delas, ou então a sinceridade corrosiva de personagens anti-heróis que encarnam a alta função de agentes do big business revelam toda a podridão moral e as mentiras utilizadas na constante auto-justificação dessa estrutura desumana. O público tenta se identificar com um ou se afastar do outro, enquanto assiste agoniado ao conflito posto em marcha.
Ao final, portanto, ficamos otimistas diante de trabalhos como o de Tony Gilroy que, no centro da indústria de dominação, com inteligência e ironia, destilam uma crítica ao capital nas entrelinhas de suspenses e tragédias pessoais. A conduta de risco do diretor nos dá bons subsídios para falarmos das mentiras e da verdade sobre o agronegócio.
Thiago
Barison é advogado e militante da Consulta Popular.
comentario anterior
algo mais devo adicionar ao cometario anterior. E claro que precisamos filtrar as informações da midia oficial. Em relação ao cinema é necessario tambem nao consumir qualquer produto, e ainda a qualquer preço. tem necesidade de escolher aqueles que podem ser interessantes como o filme "uma mente brilhante" ou "o diario de motociclista", ou aqueles filmes de michael moore, etc. lembro que na epoca dos finais dos anos 70 os viloes da historia eram os indios, e pistoleiro do velho oeste era o heroi o bomsinho; desta forma usando as peliculas tentaram esconder a realidade os verdadeiros genocidios no velho oeste contra os pieles roxos, os apaches, os sioux, etc. na epoca da guerra fria, os viloes eram os sovieticos, e de novo os bomsinhos sao os americanos que com alta sabiduria e com amor a democracia defendiam aos indefensor no centro america na asia, na africa na america do sul, claro estou falando dos filmes na realidade, estados unidos financiou genocidios en guatemala nicaragua, el salvador a favor de ditadores locais. foram eles que financieram diversos ditadores na asia, na africa e ainda fazem as mesmas coisas hoje. no darfur, miles de musulmanos sao masacrados pelo ditador local com apoio da cia e dos estados unidos. entao a realidade e oposta ao acontecimento no filme e isso que o mundo tem que entender.













A conduta de risco de Tony Gilroy contra o agronegócio
ainda nao vi o filme, porem concordo plenamente com o artigo em relação ao papel da midia hollywodiana na domesticação e dominação mundial. em todos os filmes aparecem comentarios nocivos, e denigrantes sobre que tais ou quais raças são mais exitosas. é usual aparecer na tela asiaticos e ou latinos (hispanofalantes,italianos, portuguess, brasileiros,etc) imediatamente quando um homen branco fala de bando de perdedores miseraveis etc. é assim que eles vem o mundo, a crueldade do assunto é que é esse mundo que assiste e paga pra ver esses filmes perversos, cheio de mentiras, do culto a beleza, culto ao individualismo. e assim alimenta a riquesa dos milhonarios, das empresas cinematograficas e ao mesmo poder central do imperio. com esse dinheiro que colhem de todas parte do mundo, fabricam melhores armas e criam as guerras bilhonarias para se apropiar das riquesas do resto do mundo Um dia quando o mundo deixe de consumir os produtos enlatados, o cinema domesticador, o cinema cheio de mensagems subliminares a favor de imperio, esse dia, começara a roer as bases do imperio.
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