Gilberto Freyre em exposição
Obra de um dos principais intérpretes do Brasil permanece até maio de 2008 no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo
Eduardo Sales de Lima
da Redação
Menino de Luto
Foi quase um, Brasil sem menino
o dos nossos avós e bisavós.
Aos oito anos o menino
dizia de cor os nomes
das capitais da Europa,
dos três inimigos da alma
somava, multiplicava,
diminuía, dividia.
Estudava Gramática
Latina, Retórica
e Francês. Só saía
de colarinho alto,
sobrecasaca escura,
chapéu duro, gravata
preta e em passo de enterro.
Só saía de luto
da própria, meninice.
(Gilberto Freyre)
Gilberto Freyre faleceu há 20 anos. Mas se tornaria imortal dentro da história intectual brasileira desde 1933, quando publica o clássico “Casa Grande e Senzala”. Para uns, criava o falso estereótipo sobre uma suposta harmonia entre todas as “raças” que constituíam o Brasil ao “suavizar” o regime escravocrata. Contribuiria, assim, para o chamado mito da “democracia étnica e social” no país.
No entanto, sua obra não se resume a “Casa Grande e Senzala”, seu livro mais conhecido. Ao utilizar uma linguagem marcada pela oralidade e coloquialidade e livre das amarras academicistas, ele expõs em outros trabalhos, e também neste, a história das relações íntimas dentro e fora das famílias brasileiras.
“Freyre tem várias contribuições e 'Casa Grande e Senzala' foi um dos marcos, não só na estética das classes sociais, mas dentro da própria família brasileira e nas relações da família fora da família”, explica a antropóloga Bernadete Castro de Oliveira. Ainda hoje, segundo a estudiosa, é possível verificar a influência do pensamento freyriano nas relações de poligamia disfarçada do brasileiro, o que provém de um período patriarcal que marcou fortemente nossa história.
Até 4 de maio, uma exposição sobre Gilberto Freyre ocupa o espaço dedicado às exposições temporárias no primeiro andar do Museu da Língua Portuguesa, no centro na capital paulista. Com materiais para o grande público, documentos pessoais e correspondências de personalidades como Cândido Portinari, Heitor Villa-Lobos, Carlos Drummond de Andrade, Florestan Fernandes e Cícero Dias.
“ Com os manuscritos, o público pode acompanhar o processo de criação de Freyre, assim como foi no caso da escritora Clarice Lispector (exposição anterior do Museu)", afirma Júlia Peregrino, curadora de ambas as exposições. Quadros do escritor, fotos e documentos originais, além de todas as primeiras edições dos 80 livros publicados por Freyre, estarão inseridos e ambientados nos cenários do local, subdividido em espaços que remetem ao interior de uma casa, com cozinha, sala, quarto, a vista da rua, entre outros.
“A 'residência' na exposição se inspira em 'Casa Grande e Senzala'. O visitante vai descobrindo na casa a própria obra do autor, e pode interagir com os objetos; o forno, as cadeiras, a mesa”, explica Júlia Peregrino. Para Bernadete Castro Oliveira, uma obra de tamanha representatividade deveria ser itinerante e não apenas permanecer durante quatro meses no Museu da Língua Portuguesa, na capital paulista.
Para Bernadete, a importância de Freyre se insere dentro de um quadro que não aparece a luta política organizada do brasileiro, “mas que mostra sua vida cotidiana, seus relacionamentos e conflitos”. A obra de Freyre inspirou o escritor Jorge Amado em seus romances, como “Tieta do Agreste”, apesar de ter uma olhar político diverso do sociólogo pernambucano.
Em “Casa Grande e Senzala”, são estudadas as características gerais da colonização portuguesa, visando a formação de uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica e híbrida em sua composição étnica e cultural. Além disso, o escritor destaca as predisposições do povo português como colonizador de áreas tropicais.
Três anos depois, em "Sobrados e Mucambos" (1936), ele relaciona a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano, e salienta as relações entre raça, classe e região; estuda os conflitos e conciliações entre o engenho e a praça, o sobrado e o mucambo (construção rústica). Já, em Açúcar (1939), por exemplo, o sociólogo pernambucano inova e utiliza a gastronomia como mote de análise do brasileiro, em especial do nordestino. Reúne receitas de bolos e doces guardadas por tradicionais famílias nordestinas. Demonstra a existência de uma arte do doce no país criada à sombra da escravidão na região nordeste.
Conflitos apaziguados
O jornalista Roberto Ventura, no livro “Folha Explica 'Casa Grande e Senzala', conta que a partir dessa obra, a idéia de uma história em que os conflitos se harmonizam passou a fazer parte do senso comum do brasileiro e da cultura política do país, tendo sido veiculada pelos sucessivos governos a partir dos anos 1940. Segundo ele, incorporado por grande parte da população, o mito da "democracia racial" se tornou um obstáculo para o enfrentamento das questões étnicas e sociais e uma barreira para as minorias, como os negros, os índios, as mulheres e os homossexuais, cujos movimentos lutam por identidades diferenciadas e reivindicações específicas.
“A mestiçagem é positiva, mas como demonstra em sua obra, do ponto de vista da luta de classes, traz o negro à sombra do branco e isso se insere dentro de uma estratégia de dominação”, afirma. Para ele, os escritos de Freyre podem ser utilizados como instrumento de controle social, porque “as elites se escondem atrás desse mito (da democracia racial e social)”.
Ventura lembra também que a vida política de Freyre fora controversa. Hostilizado pela elite pernambucana, ao propor à Cooperativa dos Usineiros de Pernambuco o estudo das condições de vida dos trabalhadores rurais, mais tarde, apoiava informalmente o golpe militar de 1964.
Mais informações:
Museu da Língua Portuguesa
Endereço: Praça da Luz, s/nº, Centro, São Paulo – SP
Telefone: (11) 3326-0775. E-mail: museu@museudalinguaportuguesa.org.br
Site: www.museudalinguaportuguesa.org.br
Horários
Bilheteria: de terça a domingo, das 10 às 17hs
Museu: de terça a domingo, das 10 às 18hs (aos sábados a visitação é gratuita)
Ingresso: R$ 4,00
leitura obrigatoria
A elite paulista, os novos ricos brasileiros deveriam ler Casa-Grande Senzala de Freyre. Como em geral nao gostam de ler poderiam contratar um empregado ou empregada para ler durante o final de semana. O pior analfabeto é aquele que nao ler!













Gilberto Freyre
Muito interessante e informativo o texto desenvolvido.