GOG e Buzo, suburbanos convictos pelas periferias do Brasil
Em entrevista ao Brasil de Fato, os rappers Alexandre Buzo e GOG falam sobre as suas trajetórias no movimento hip-hop
27/09/2007
Danilo Siqueira Dara
de São Paulo
Os guerreiros do hip-hop Alessandro Buzo e GOG falam de suas trajetórias e de seus projetos, na semana de lançamento de "Suburbano convicto - pelas periferias do Brasil" e "Guerreira", livros respectivamente organizado e escrito por Buzo. GOG estará em São Paulo e fará show no acampamento João Cândido, do MTST na Vila Calu.
A trajetória de vocês no hip-hop...
GOG
- O hip-hop no DF data dos anos 81-82. Faço parte da primeira geração. O fator mais marcante do hip-hop na minha vida é o poder de transformação do seu discurso, do seu método. Sou uma eterna construção: não sei de nada totalmente, aprendo todo dia um pouco, na tentativa de ser uma pessoa útil ao planeta.Buzo
- Entrei no hip-hop via quinto elemento (conhecimento). Depois do meu primeiro livro, fui a vários eventos e conheci os grupos e pessoas importantes no hip-hop, como o Nino Brown. Passei a ser colunista de sites. Nasceu o evento "Favela toma conta", me tornei colunista e depois repórter da revista Rap Brasil.
Como surgiu o "Favela toma conta", Buzo, e em que pé ele está?
B- Surgiu na rua onde moro. Vi uns 15 moleques jogando basquete no posto, a tabela era um aro de bicicleta. Disse: falta tudo aqui, quem sabe um evento ajuda a dar uma animada. Fiz os dois primeiros na rua de casa, e depois em outros três lugares no bairro do Itaim Paulista, extremo Leste de São Paulo. Arrumo sozinho quase tudo: atrações, estrutura, despesas. O evento aconteceu três vezes só este ano (2007). Dia 12 de outubro acontece a 14a edição, que será especial "dia das crianças", com distribuição de brinquedos. Tudo isso sem um apoio fixo, sem quase nada de grana.
Sobre a relação de vocês com a literatura.
G-
Minha mãe foi professora do ensino fundamental. Meu pai perambulou por várias profissões: borracheiro, porteiro, corretor de imóveis. O incentivo à leitura e à escrita foi um dado unânime na criação que eles me deram. Desde criança participava de ditados, muito caderno de caligrafia, e leitura. Isso é o que hoje me dá base. Tenho muita facilidade, posso dizer até uma cumplicidade com a leitura e a escrita.Conheci literatura desde pequeno. Minha mãe sempre estava lendo e comprava livros e gibis pra mim e meu irmão. Daí, passei a escrever em fanzines e jornais de bairro. Em 2000, lancei meu primeiro livro e não parei mais - foram quatro livros independentes.G - A teoria marxista é o solo em que piso. Sem ela não sei o que seria do GOG, dos seus argumentos, seus textos. Minha aproximação com o marxismo vem dos tempos de Faculdade. O materialismo dialético é algo que me fascina e que me mantém longe de muitas doutrinas que fazem da transitoriedade do homem na terra e da falta de respostas uma jogatina sem fim. Vejo claramente que a falta de leitura e historicidade de vários integrantes da esquerda é fator decisivo na tomada de decisões equivocadas, que conseqüentemente fortalecem a elite com argumentos falsos, mas superficialmente convincentes, de que o socialismo e toda a teoria marxista é coisa do passado. Hoje a grande questão é definir: o que é ser de esquerda? Minha resposta é dada nos meus textos e no meu modo de agir.
Por falar em faculdade, quase 100% das vagas em cadeias públicas não-especiais são para pretos e pobres? São a favor das cotas?
B
- Se rico fosse preso, ia faltar cadeia. Mas um rico preso desvia mais dinheiro que o valor que todos detentos juntos roubaram; desvio de verba, superfaturamento, e quem paga é o povo. Lalau desviou 169 milhões e está em prisão domiciliar, deixa ele morrer na cadeia. 169 milhões paga muita gente, compra liberdade.- Olha, falo disso e começo a me arrepiar todo, pois isto me dá a certeza de que eles (a elite racista e preconceituosa) estão ganhando o jogo, e de goleada. Pior: no Brasil, há mais de 500 anos. E o jogo ainda demora pra ser virado. Sou a favor de ações, políticas afirmativas, de tomada de decisões sérias, marcação de espaço e definição de quem é quem nesse jogo (luta de classes). Percebo que o pior inimigo é o que está próximo, aliado, mas fazendo o jogo do inimigo.
Como vocês pensam a relação do hip-hop e outros movimentos sociais?
G
- Não vejo outro caminho para o hip-hop e demais movimentos sociais que não seja o da interação, do diálogo, da utilização das redes de comunicação já montadas. - Penso que temos que correr juntos, todos falamos a mesma língua e lutamos por ideais iguais ou parecidos. Sou branco e me identifico 100% com o movimento negro, pois sou pobre e passo vários problemas de ordem financeira, descaso e preconceito. Não racial, mas é preconceito também. Minha mulher é negra e eu a amo. Nosso filho é mestiço. A luta não tem que ser racial, tem que ser de classe social, combater a elite que domina e massacra. Me identifico com os sem-terra, sem-teto, porque sou um também: moro numa casa de dois cômodos com córrego fedendo atrás, e tem gente que só vê minhas realizações e pensa que sou rico. Apenas tenho disposição em dobro, acredito nos meus projetos antes de todo mundo.G - Não tenho definição. É o que eu sinto e os outros percebem. Não adianta um discurso engajado, sem ações que o fortaleça. Sou um ser humano em construção, todo dia uma parede é erguida, outra derrubada, mas sem mexer nos meus pilares, que são pedras fundamentais do meu pensamento. Visitar e manter uma relação de parceria, respeito e solidariedade com o MST e com o MTST são para mim sinais claros de que a luta continua, de que não estou só, tenho parceiros e que a realidade pode ser transformada com postura, atitude, organização e determinação. Ouvir os acampados do João Cândido gritando o verso "Revolucionários do Brasil: fogo no pavio, fogo no pavio!", entoado como grito de ordem, de guerra por milhares de pessoas que realmente acreditam na transformação, foi algo que me deixou muito pensativo, feliz e cada vez mais concentrado na minha caminhada que sempre trabalhei para correr pelo certo.- Estar sempre atento. Eles possuem armas poderosas e não vão se entregar. Mas os passos a serem tomados pelo povo têm que ser apresentados com sapiência, senão vira banho de sangue.- Acredito em quem trabalha pelo coletivo e corre atrás sem esperar cair do céu. Do céu só cai chuva e infelizmente às vezes avião. Terra Prometida não existe. Mude a sua própria quebrada, sua rua, para melhor e estará fazendo sua parte. A revista Rap Brasil, por exemplo, é a única revista de rap com circulação nacional na banca. Temos que consumir nossos produtos, senão a editora tira a revista de circulação. Quem faz a revista ama o rap, mas a editora quer saber de números. Acho que tudo na vida temos que fazer bem feito, senão seremos mais um. Meu blog (www.suburbanoconvicto.blogger.com.br) é atualizado todo dia, e mantemos um conteúdo de qualidade. Isso faz a diferença - só assim mostraremos o que de melhor aparece nas periferias.
GOG, conta essa treta em defesa do Piauí, contra a Phillips e o movimento "Cansei".
G - O Movimento "Cansei" parece piada, mas na verdade é muito mal intencionado. Não pelos artistas que assinaram o "Manifesto", mas pelos seus idealizadores. Quem tem um pouco de conhecimento histórico sabe da semelhança entre esse movimento e as manifestações por um "Brasil melhor" que aconteceram nos anos 60, pouco antes do golpe de 64. Eles têm como estratégia desestabilizar o governo e a sociedade. Não se conformam em ter alguém de ascensão popular como chefe maior do país. Agora, o Sr. Paulo Zottolo vai ouvir! Já gravei "Direito de Resposta", terminamos o vídeo e estaremos em breve entregando nossa versão dos fatos ao governador do Piauí, Wellington Dias. Outra cópia será enviada ao presidente da Philips na América Latina. Isso não pode passar batido.
Buzo, fale do seminário "Cultura e pensamentos livres", que está organizando com o grupo Epidemia em São Paulo e no Ceará - inclusive o GOG vai participar.
B- A idéia central é promover debates (palestras), mesclando pessoas da periferia com acadêmicos, pessoas de outras classes sociais, para que um veja o outro e vice-versa. Trocar mesmo, não podemos nos fechar. Mas isso não quer dizer se vender, quer dizer mostrar o nosso talento e chamar quem pode somar. Se um cineasta pode ir fazer uma oficina na minha quebrada, isso me interessa. O seminário vai ser útil para misturar as classes.
B - Montei a Biblioteca Comunitária Suburbano Convicto há dois anos, e hoje ela funciona sozinha. Quanto aos cineclubes populares, acho fantástico: teatro e cinema tem que ter na periferia também. Hoje acreditamos que podemos fazer literatura, cinema, teatro, e vários lokos estão fazendo. Eu tô nesse bonde. Acho que para avançar, temos de chamar cada vez mais gente para se envolver, criar interesse, buscar parceiros financeiros, colocar projetos no papel e correr atrás. Pode ter certeza: a luta só acaba quando o ultimo de nós cair.- pelas periferias do Brasil"? - Faço parte do núcleo de literatura periférica da Ação Educativa. Quando, num dos encontros, Eleílson disse que a Ação apoiaria livros, sugeri a coletânea. Convidei algumas pessoas e outras apareceram naturalmente. Todos os passos do livro foram acompanhadas por todos, via e-mail coletivo. Vamos lançar dia 25 de setembro em São Paulo. - Quando recebi o convite, entendi como uma convocação. Aceitei logo e me confesso muito ansioso com o lançamento, as ações que vão ser tomadas e possibilidades de acesso às comunidades. Tenho certeza que o time é de primeira.
B - Lançar meu livro "Guerreira", dia 5 de outubro, pela Global Editora; terminar a correção do livro "Do conto à poesia", para lançar em 2008; finalizar outro que estou escrevendo: "Profissão MC". De vida, é comprar uma casa para minha família. - Em relação ao rap, na realidade, não somos um grupo, somos uma família formada por várias pessoas com proximidade de pensamentos. O DJ Tiago, Rapadura e o Lindomar 3L estão com seus discos sendo produzidos. E eu, GOG, estarei garimpando novos talentos para me acompanhar nos palcos da vida. Acabei de finalizar o clipe de "Cavalo sem dono selvagem", tentando mostrar e provar que muito pouca coisa mudou. A estratégia do sistema é outra. Mas a maldade é a mesma. E meu primeiro DVD, "Cartão-Postal-Bomba", está em fase final de edição.
Danilo Siqueira Dara é historiador e membro do coletivo de cultura do MTST.
Quem é?
Alessandro Buzo
Nascido na capital (SP), cresceu no Itaim Paulista e tem 35 anos. É escritor, arte-educador, agente cultural. Em 2002, publicou de forma independente seu primeiro livro, "O Trem - Baseado em Fatos Reais". Depois, o fanzine "Boletim do Kaos", semanal, gratuito (hoje na edição 148). Participou de coletâneas de "Literatura Marginal" da Caros Amigos e "Rastilho de Pólvora" da Cooperifa. Outros livros independentes: "O Trem - Contestando a Versão Oficial" e "Guerreira" (agora relançado pela Global). Colunista de sites (Enraizados, Rap Nacional e Real Hip Hop), é repórter da revista Rap Brasil e organiza o evento "Favela toma conta". Mais info: www.suburbanoconvicto.blogger.com.br
Quem é?
GOG
Genival Oliveira Gonçalves, GOG, é considerado um dos pilares do hip-hop nacional. Nascido e criado na periferia de Brasília, filho dos nordestinos Sebastiana e Genésio Gonçalves, desde os tempos do break (1982) sua originalidade poética, militância política e força rítmica resultaram numa potente família. Já lançou mais de oito discos, entre eles "CPI da Favela" (2000), "Tarja Preta" (2004) e "Aviso às gerações" (2007). Coordena o projeto Só Balanço, núcleo que comporta um selo, um estúdio e duas lojas no DF. Hoje, tem como parceiros mais próximos (independente de sua carreira com os DJ Tiago, Rapadura e Lindomar 3L), os rappers engajados Demis Preto Realista, Gato Preto, Crônica e o DJ Bira, que formam o grupo "A Família". Para o fim do ano, GOG prepara seu primeiro DVD, "Cartão-Postal-Bomba".
















Empreendimento nogueto
Gostei muito de ler e saber do desenvolvimento do trabalho ds poetas e decobridores do conhecimento! Que fortifica os desfavorecidos e que desenvolve ainda mas nosso compromisso de união de nosso POVO, que ainda luta as veses sem muito compromisso.