Ivan Vilela, mudar para continuar
Músico aposta na mistura de influências, seguindo a tendência antropofágica da música brasileira, como uma arma na luta pela tradição
Aldo Gama
da Redação
Do "caipira groove" às duplas sertanejas da televisão, passando pela entrada na universidade, o músico Ivan Vilela acompanha as andanças da viola, pelo Brasil e pelo mundo, sempre com o olhar do artista que quer a "legitimação do instrumento, que vai se tornar universal - o que não significa perder suas raízes".
Defensor da cultura popular, Ivan fala de sua experiência como intérprete, compositor, arranjador e pesquisador da música brasileira de raiz e de um de seus instrumentos mais tradicionais: a viola. Entre outras considerações, comenta sua aposta na mistura de influências, seguindo a tendência antropofágica da música brasileira, como uma arma na luta pela tradição.
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Quem é
Mineiro de Itajubá, Ivan Vilela é compositor, arranjador, intérprete e diretor musical. Responsável pela cadeira de Viola Caipira na unidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), Ivan também realiza um importante trabalho de pesquisa das manifestações culturais de Minas Gerais e do interior de São Paulo. Com passagem pelos grupos Trem de Corda e Anima, o músico é ainda diretor da Oficina de Viola Caipira de Campinas.
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Brasil de Fato - Como foi a turnê do disco Dez Cordas?
Ivan Vilela - Muito boa. Ela começou em setembro e foi até 31 de novembro, com o último show em Recife. Nesse tempo, passamos por São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília, entre outras cidades do país.
Como esse trabalho se diferencia dos anteriores?
Esse é um disco só de arranjos, sem nenhuma composição pessoal, no qual tentei passear por diversas tendências da música nacional e internacional, passando por modinhas do tempo do Império, lundus e até Beatles.
Essa mistura de fontes atraiu alguma crítica negativa?
Eu percebo alguma restrição, mas não por parte da crítica. Ela vem dos músicos puristas. Existe uma idéia de que a viola é um instrumento camponês e que não pode sair disso. Mas, historicamente, antes de um instrumento rural, ela foi um instrumento da corte.
Mesmo porque a viola é utilizada em várias regiões brasileiras e em outros gêneros musicais, que não apenas o caipira.
A viola no Brasil se espalhou, basicamente, pelo Sudeste/Centro-Oeste (sendo que o pouco existente no Paraná é fruto da imigração paulista e mineira) e também no Nordeste, onde a linguagem é completamente diferente da caipira - entendendo como caipira o eixo dos bandeirantes que percorre o Sudeste e Centro-Oeste do país. Além da principal influência ibérica que é o romance, e que todas têm em comum, a viola nordestina tem uma forte herança árabe. Já a viola pantaneira é a caipira modificada pelo tempo e pela distância.
Em sua opinião, por que uma música com raízes e riquezas culturais tão fortes não adquiriu, em termos de identidade nacional, o mesmo status que o samba?
Por uma razão muito clara: o samba acontece na capital do país - que era o Rio de Janeiro, até a década de 1960. As principais rádios estavam ali e sua radiodifusão foi muito forte. Também deve ser considerado que, a partir da década de 1920, o urbano passa a prevalecer sobre o rural.
Você já afirmou anteriormente que existe uma retomada do uso da viola em outros gêneros musicais, até em bandas de rock. Nos anos 60, por exemplo, os Mutantes a utilizaram na canção "Dois Mil e Um" (parceria de Rita Lee com Tom Zé). Essa é uma experiência cultural válida ou uma apropriação inconsequente?
É um ato de legitimação do instrumento, que vai se tornar universal - o que não significa perder suas raízes. Ele precisa mostrar sua versatilidade para diversos segmentos musicais. Com os Mutantes, eles estão resgatando elementos da música caipira, porque tocam muitas vezes em terça [o terceiro grau da escala diatônica], têm a formação de dueto das vozes e a condução da viola. Em 1966, por exemplo, o Zé do Rancho grava um disco de viola instrumental com músicas de outros gêneros.
O que é importante lembrar é que a viola é um instrumento idiomático. Ela se fez assim, sua maneira de tocar, em culturas rurais do Brasil. Então, para poder tocar o instrumento, temos que conhecer esse legado, seu idioma. Assim, quando toco Beatles, o estou fazendo em terça, utilizando elementos existentes no "ato de tocar viola".
A sua formação acadêmica faz com que você tenha um olhar diferenciado, uma contraposição da abordagem popular?
Não existe contraposição entre o erudito e o popular. Essas coisas andam juntas. Historicamente, a música erudita está o tempo todo bebendo na popular, e a tradição popular o tempo todo bebendo na erudita. Isso é um ciclo que vem acontecendo desde a Idade Média. Mas existe uma diferença no jeito de tocar, porque acabo incorporando elementos de outros segmentos musicais. Eu fiz um curso de música erudita, embora antes só tocasse música popular - que foi minha formação. Mas fiz esse curso para acrescentar algo que eu não tinha. E esses elementos estão presentes na minha música, quando faço arranjos, na maneira de interpretar... Mas não acho que seja uma contraposição. Há pouco tempo eu gravei um pagode caipira, do Pereira da Viola, tocando como pagodeiro.
Incorporar outros elementos seria, então, garantir a tradição?
Sim, é uma maneira. Quando surgiu o movimento "caipira groove", que é a viola turbinada da região da capital de São Paulo, com bandas de rock utilizando a viola e outros elementos da música caipira na música pop, eu reparei que na nossa orquestra de viola começaram a aparecer jovens que antes só tocavam rock. E como eu falei anteriormente, para tocar a viola é preciso conhecer o idioma dela. E eles foram tocar música caipira e se apaixonaram. Então, eu acho que todos os caminhos levam à valorização do instrumento. Conhecer esse idioma faz com que o violeiro seja alguém com um sentimento de raiz muito forte, independente de sua origem.
Você destaca fusões como experiências válidas. O mesmo raciocínio vale para as duplas sertanejas de sucesso na mídia?
Não, porque eles não guardam nenhum elemento da música tradicional, a não ser o fato de ser dupla. Eles não mantém o canto duetado o tempo todo - tem um que só entra no refrão -, utilizam o excesso de vibrato caprino, que é aquela voz tremida que veio dos mariachis, só que de uma maneira meio caricata, e não têm nenhum instrumento que remeta à música caipira.
Na sua opinião, porque a música de raiz, ao contrário dessas duplas, encontra tão pouco espaço?
Por duas razões: uma porque música boa conscientiza as pessoas, as eleva a um estado de apreciação estética. E outra porque é muito mais fácil para uma gravadora dessas negociar com essas duplas do que com o Chico Buarque, por exemplo. Até o começo dos anos 80, o artista gastava a vida para construir uma carreira. Hoje em dia um produtor faz a carreira de um artista (e a derruba também) em uma semana, um mês. Hoje, o produtor é mais importante que o artista dentro do showbizz.
A violeira Helena Meireles só teve espaço na mídia após ser "descoberta" pela revista estadunidense Guitar Player. Isso é reflexo da dificuldade de uma certa elite cultural de se enxergar em manifestações populares?
Isso mostra o tanto que a gente é colonizado. Eu sinto muito isso na academia, espaço em que é preciso o aval ou o referencial metodológico de fora. E a minha briga é essa, tentar criar uma metodologia prória, brasileira, um caminho nosso de fazer as coisas.
A Oficina de Viola, de Campinas, o Encontro Nacional de Violeiros, a Orquestra de Violeiros, a sua presença na universidade, esses são indícios de uma consciência da necessidade de preservar o instrumento? Cabe o uso do termo resistência cultural?
Eu acho que cabe. É importante essa atitute quando, hoje em dia, as pessoas trocam suas culturas por outras de consumo, fugazes. E a entrada da viola na academia é importantíssima, porque ela carrega boa parte da expressão popular que a cerca junto consigo. E você tem isso entrando pela porta da frente de um ambiente musical. Porque isso já aconteceu na literatura, nas Ciências Sociais e na universidade. Mas na música não havia entrado ainda, porque os cursos são muito europeus.
Quais são os próximos planos?
Continuo a fazer os shows enquanto preparo, ainda para esse semestre, um novo disco com os cantores Suzana Salles e o Lenine Santos, com quem já havia feito o Caipira (de 2004). Além disso, estou fazendo doutorado na área de memória na psicologia social, na USP, que está me tomando bastante tempo. Estou fazendo uma história social da música caipira, tentando entender um pouco do êxodo rural, a importância da música nesse processo a partir da memória das pessoas que foram para São Paulo e voltaram...
É possível avaliar sua carreira sem recorrer à lógica do mercado?
Eu gostaria de ser lembrado como alguém que fez poucos e bons discos. Também tento, dentro do possível, fazer discos que não fiquem datados. O Paisagens (disco de 1998), é um disco que continua vendendo e, acho, vai seguir assim. Não é um trabalho datado. Não está a serviço de nenhuma ideologia, mas da sensibilidade.
para o Ivan
Grande Ivan,
respostas concisas e agudas, como do seu feitio. Você vem a BH para o Encontro Nacional de Violeiros? Avise antes. Um abração,
Paulo.
Ivan Vilela
Parabens Ivan, por tudo que tem feito por nossa cultura, legal esta percepção de cultura viva que se reconstroi, agrega sem se descaracterizar abandonando suas raizes...Nossas Raizes.
Site do Ivan
Como não foi citado e está muito legal, eis:
http://www.ivanvilela.com.br
Vale uma visita, em especial a galeria de MP3 com músicas de vários discos.











entrevista Ivan Vilela
Parabéns Ivan pelo belo trabalho em prol da música popular brasileira. Gostaria, se possível, de seu endereço para futuro contato. Meu e-mail:dinogilioli@yahoo.com.br. Abraços e felicidades!