Nas batalhas das idéias
Editora Expressão Popular completa dez anos e homenageia o intelectual, professor e escritor Leandro Konder
03/09/2009
Nilton Viana
da Redação
Hoje o acesso à informação é feito de diversas formas, desde o livro eletrônico ao livro impresso, além, é claro, de outras dezenas mídias. Mas a importância do livro como instrumento pedagógico, formador e educacional é fundamental e nem sempre essa necessidade básica para o conhecimento é acessível à imensa maioria da população, principalmente em função dos altos preços.
Para mudar essa lógica, em 1999, surgiu a editora Expressão Popular. A idéia veio num momento em que o chamado pensamento único, o modelo neoliberal, imperava. Segundo Carlos Bellé, diretor e um dos fundadores da Expressão Popular, a editora é uma iniciativa de militantes sociais que acreditam ser necessário e possível transformar a realidade brasileira. Ele conta que, quando muitos abandonaram a “batalha das idéias, nós reafirmamos sua historicidade, buscando nos clássicos a base teórica da transformação social; quando muitos negaram os valores socialistas e humanistas, nós confirmamos que é possível modificar o modo de vida superando os limites burgueses da forma de viver; e, quando muitos afirmaram a primazia do mercado sobre a cultura, nós provamos que é possível negar o critério e a fórmula do lucro, possibilitando o acesso mais universalizado aos bens culturais”.
Durante os seus dez anos de existência, a editora foi construindo e consolidando relações com a militância brasileira, possibilitando o acesso ao livro e facilitando o estudo. Sempre buscou cumprir importante papel político junto à sociedade e aos militantes. E a forma encontrada é a de dar a palavra ou reafirmar a mensagem do que consta, mesmo que com limites, nos livros de seu catálogo ou que partilham sua produção por outras editoras e se somam aos mesmos “sonhos”. Além das responsabilidades administrativas que possibilitam o bom desenvolvimento da produção editorial, a editora tem o compromisso de socializar o conhecimento acumulado pela classe trabalhadora.
“Integramos mais de três centenas de colaboradores: indicação e análise de textos, cessão de direitos autorais, trabalhos de revisão, tradução, diagramação. Articulamos uma rede alternativa de distribuição dos livros em mais de duas centenas de locais pelo Brasil – trabalho militante e profissional – chegando assim aos movimentos sociais, às universidades, à sociedade amante dos livros, aos que acreditam que podemos viver numa sociedade diferente, com pleno desenvolvimento das potencialidades humanas”, diz Bellé. Segundo ele, essa soma de esforços recupera a tradição teórico-prática do marxismo, enobrece os trabalhos, alimenta os sonhos, modifica a práxis e dá novo sentido à luta.
Leia a seguir coletânea de textos da Expressão Popular, baseada em extratos das idéias e reflexões de grandes pensadores, que a identifica politicamente, aponta seu horizonte editorial, desafios e perspectivas.
O livro
O livro, como expressão popularizada dos registros do desenvolvimento da escrita, é parte do processo das inovações técnicas que permitiram o acesso à informação. Como materialização de ideias, está intimamente ligado às contingências políticas e econômicas de cada época histórica. Sendo o livro criação humana, revela as formas de comunicação e manifestações do desenvolvimento das nossas capacidades espirituais e materiais.
Papel editorial
Uma primeira tarefa da Expressão Popular é a de contribuir para desmascarar a ideologia de que “sempre foi assim – sempre será assim”, libertando a história da prisão do discurso que a nega. É do longo passado do homem – há seis mil anos criou a escrita – que a ação da memória é indispensável defesa da própria humanidade. Esta maneira de registrar a passagem pelo tempo compõe a tradição do saber. Compreender nossa sociedade como parte da história é compreender o processo pelo qual ela se tornou o que é e, dessa maneira, entender o movimento que conduz à possibilidade de superação da sociedade capitalista e da construção da emancipação humana. Se sempre houve opressão, sempre houve aqueles que contra ela lutaram.
Resistência
Alfredo Bosi (Dialética da colonização) afirma que a “cultura de resistência” se confunde com a “desobediência civil” porque vê a sociedade dos homens plenamente humanizados como um valor a atingir; porque é respeitosa dos valores que chamam para lutar pela igualdade e pela liberdade; porque resgata a lembrança que alimenta o sentimento do tempo e o desejo de sobreviver. O resultado estético da “cultura de resistência” é uma forma peculiar, estranha, que representa o avesso da convenção estabelecida. A luta é material e cultural ao mesmo tempo: logo, é política. O que nos interessa é perseguir o movimento das idéias na conexão com os horizontes de vida de seus emissores podendo reconhecer a diferença entre um “discurso orgânico” de um “discurso eclesiástico ou tradicional”, conforme a distinção de Antonio Gramsci.
Emancipação
Também cabe à Expressão Popular reafirmar o horizonte da emancipação humana, para além da emancipação política: “redução do homem, por um lado, a membro da sociedade civil, a indivíduo egoísta independente; por outro, a cidadão, a pessoa moral [...] só quando o homem individual retoma em si o cidadão abstrato e, como homem individual – na sua vida empírica, no seu trabalho individual, nas suas relações individuais –, se tornou ser genérico; só quando o homem reconheceu e organizou as suas forças próprias como forças sociais e, portanto, não separa mais de si a força social na figura da força política – é, só então, que está consumada a emancipação humana”. (Karl Marx, Para a questão judaica)
Rebeldia
Leandro Konder (A derrota da dialética) diz que “Inutilmente os espíritos mais conservadores procuram desqualificar os rebeldes, caracterizando-os como mesquinhos, ressentidos, imaturos ou irresponsáveis. [...] O ânimo rebelde tem estado presente na dignidade dos que se recusam a se deixar assimilar por hordas e manadas...”. Por isso, nas atividades da editora, queremos alimentar a rebeldia e contribuir para entender que “quanto mais contraditório se apresente o processo histórico, quanto mais complexas sejam as tarefas da transformação consciente da sociedade, tanto mais necessária se torna essa chama da rebeldia, para que o movimento não se mecanize, para que suas contradições não coagulem. O presente não engendra automaticamente o futuro através de uma dinâmica fatal ou espontânea: o futuro precisa lutar para nascer, para assumir uma feição determinada; precisa enfrentar criticamente o presente. E os rebeldes, que sentem na consciência o sopro vivo dessa luta, têm boas razões para rejeitar a admoestação dos conservadores e o discurso que os conclama a acolher uma versão mistificadora da ‘sensatez’; eles sabem que a acomodação a uma situação de opressão, de exploração e de miséria é certamente menos sensata do que a revolta contra os opressores, os exploradores e os aproveitadores da miséria”.
Difusão
Queremos, também, possibilitar a difusão da teoria política. Os textos que superaram a Economia Clássica, o Socialismo Utópico e a Filosofia Alemã frutificaram-se nas revoluções do século 20. Entretanto, durante o século 20, “o capitalismo, que controlava a produção, estendeu seu controle ao consumo, passou a investir enormemente na propaganda, passou a manipular o comportamento dos consumidores [...]. Para reagir eficazmente contra essa manipulação, os socialistas estão precisando se dedicar [...] à luta ideológica, àquilo que os italianos costumam chamar de 'a batalha das ideias'. As questões de política cultural estão assumindo, portanto, uma importância sem precedentes na história da humanidade. [...] Se não souberem se renovar de acordo com as exigências do momento, os revolucionários podem ser levados a desviar para atritos secundários e querelas suburbanas as preciosas energias que deveriam investir e concentrar nos combates realmente decisivos”. (Leandro Konder, O marxismo na batalha das idéias)
Tarefa
Albert Camus, militante da causa de libertação da Argélia, ao receber o Nobel de Literatura, afirmou: “A verdade é misteriosa, fugitiva, e precisamos conquistá-la sem cessar. A liberdade é perigosa, tão difícil de viver quanto exaltante. [...] Sem dúvida, cada geração acredita ser a predestinada a mudar o mundo. A minha sabe, sem nenhuma dúvida, que não poderá fazê-lo. Porém, sua tarefa é mais complexa: consiste em impedir que o mundo se desfaça, e lutou para impedir que o mundo se desfizesse”. Anos antes, Jack London profetizava: “Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma cosia mais valiosa e mais elevada que seu estômago, quando haverá maiores estímulos para levar os homens […]. Conservo minha crença na nobreza e na excelência da humanidade. Acredito que a doçura e o despojamento espiritual vão superar a gula grosseira dos dias de hoje. E, no fim de tudo, minha fé está na classe trabalhadora”. (Contos)
Estudo
Como editora, nos desafiamos em contribuir para a realização da tarefa histórica da nossa geração: descobrir os “mistérios da verdade” e conquistar a “perigosa liberdade”. O estudo confirma e nega; propõe e denuncia; apoia e combate; e fornece a possibilidade de viver dialeticamente os problemas. O estudo tem papel formador da personalidade – função humanizadora – e desenvolve em nós a cota da humanidade na medida em que nos torna mais compreensíveis e abertos para a natureza, para a sociedade e para o semelhante. O estudo também propicia desenvolver uma nova práxis (resolver os problemas básicos do povo – fim da exploração do homem pelo homem; desenvolver novas relações sociais fundamentadas em novos valores: trabalho, bem-querer, solidariedade, justiça social...). A atual conjuntura abre uma nova porta no tempo histórico e possibilita buscarmos a verdade misteriosa. Na nova práxis forjemos a liberdade perigosa.
Ensinamento
Em 1976, Ernesto Guevara deixou para sua família, antes de partir para a Bolívia, uma pequena carta. Nela afirma: “O pai de vocês tem sido um homem que atua e, certamente, leal a suas convicções. Cresçam como bons revolucionários. Estudem bastante para poder dominar as técnicas que permitem dominar a natureza. Sobretudo, sejam capazes de sentir profundamente qualquer injustiça praticada contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário.” (Paco Ignácio Taibo II, Ernesto Guevara, também conhecido como CHE).
Desafio
É uma tarefa da Expressão Popular reafirmar que é possível conquistar todos os “bens incompreensíveis”, como afirmou Antonio Candido (O direito à literatura). Hoje, comparando “com épocas passadas, chegamos ao máximo de racionalidade técnica e do domínio da natureza. [...] Isso permite imaginar a possibilidade de resolver grande número de problemas materiais do homem. [...] Se as possibilidades existem, a luta ganha maior cabimento e se torna mais esperançosa, apesar de tudo o que o nosso tempo apresenta de negativo. [...] São bens incompreensíveis não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas o que garantem a integridade espiritual. São incompreensíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura”.
Homenagem a Leandro Konder
Na comemoração de seus dez anos, a Expressão Popular presta homenagem a Leandro Konder. O filósofo, professor e escritor concedeu à editora os direitos para a publicação de A história das ideias socialistas no Brasil; A derrota da dialética, Introdução ao fascismo; Marxismo e alienação; e O marxismo na batalha das ideias.
“Ao comemorarmos 10 anos, homenageando Leandro Konder, queremos prestar nossa deferência à militância que possibilitou chegarmos até aqui. Ele dispensa biografia. A melhor forma de conhecê-lo é pela leitura de seus livros. Do título do quinto livro agora reeditado pela Expressão Popular, partilhamos nossa motivação – 10 anos na batalha das ideias, acredita o diretor Carlos Bellé. Para ele, a editora é um instrumento facilitador para que os livros difundam, facilitem e criem oportunidade para a necessária batalha das ideias para a construção do projeto político da emancipação humana. Como Leandro Konder, somos e seremos soldados da informação, da formação política, da batalha das ideias, acredita.
Confira: Expressão Popular