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O legado revolucionário de Caio Prado Jr.

by jpereira — last modified 2007-02-11 18:50

No centenário do historiador, especialistas discutem sua contribuição intelectual transformadora que reinventou o Brasil

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obra é fundamental"

"Caio Prado foi o primeiro a
nacionalizar o marxismo",
diz
Bernardo Ricupero

09/02/2007


Dafne Melo,
da redação


O título de um dos maiores intelectuais brasileiros não é o suficiente para defini-lo. Mais do que um acadêmico ou pensador, o historiador Caio Prado Jr primou pela coerência. Preso, perseguido ou marginalizado dentro da própria organização política que militava, esse paulistano comunista não se deixou seduzir por sua classe social de origem - a burguesia. Nas palavras do amigo Plínio de Arruda Sampaio, o historiador deixa um legado para a esquerda mais amplo do que sua densa obra que ainda gera debates e contribuições.


"Primeiro, deixa a lucidez, a capacidade que teve de ver e ler a realidade. Depois, deixa o legado da integridade: ele pagou todos os preços por suas idéias. A esquerda precisa disso, precisa ser lúcida e íntegra", reflete o advogado Plínio de Arruda Sampaio, amigo pessoal daquele que, juntamente com Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, fundou uma nova forma de interpretar o Brasil na década de 1930.


O diferencial de Caio Prado Jr - que completaria 100 anos no dia 11 de fevereiro - foi ter "nacionalizado" o marxismo, assinala Bernardo Ricupero, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP). Prado foi o primeiro a usar o método marxista do materialismo histórico para analisar a condição brasileira. "Ele não vê o marxismo como um conjunto de fórmulas prontas com uma validade pretensamente universal, mas o vê muito mais como uma abordagem. A partir dessa perspectiva, ele vai tentar entender a particularidade, a especificidade da experiência brasileira, numa referência claramente marxista", explica Ricupero.


LUCIDEZ

Anteriormente, diz Ricupero, o marxismo dominante no Brasil era o ligado às teses do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a que Caio Prado se filiou em 1931, sem nunca sair, até a sua morte em 1990. "Pode se dizer que eram praticamente a aplicação das chamadas teses da 3º Internacional Comunista sobre os países coloniais e semi-coloniais dependentes, para o Brasil". Ao serem simplesmente transpostas, argumentava Caio Prado, geravam uma leitura equivocada da realidade do país.


Inovadoras, as idéias do historiador repercutiram na sociedade e nos meios acadêmicos, mas não teve adesão da própria esquerda, incluindo o PCB, cuja visão etapista de que o país ainda tinha resíduos feudais em sua formação e, portanto, precisava passar por uma revolução burguesa para que só, então, a socialista pudesse ser feita foi hegemônica na esquerda brasileira até o Golpe Militar de 1964. Paulo Iumatti, pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, conta que no Partidão, o historiador sempre preservou uma postura de autonomia, buscando espaço pelas margens "Ele discordava radicalmente das teses do PCB, mas achava que não podia sair do partido para não enfraquecer. Nessa disputa, ele claramente não conseguiu fazer valer o ponto de vista dele", conta.


INTEGRIDADE

Depois do Golpe, a situação mudou. O triste desfecho de 1º de abril de 1964 fez grande parte da esquerda pôr em xeque as teses do PCB, sobretudo a aliança com o nacional-populismo de João Goulart . Plínio de Arruda Sampaio conta que Prado lidava com a questão de forma muito objetiva. "Isso está retratado em A Revolução Brasileira . Não há ressentimento pessoal, apenas diz: o erro é esse aqui. Ele sempre foi corretíssimo em sua lealdade aos comunistas, mas não cedia ao que ele considerava uma erro intelectual. E era de fato. Hoje, todos, de certa forma, dão razão a ele. Ou seja, não havia essa história de revolução burguesa por meio da aliança da classe operária com uma burguesia progressista. Ele dizia isso muito antes de 1964 e pagou todos os preços sem nunca renegar o partido", relembra.


Deste ônus por suas convicções estão quatro períodos na prisão por conta de sua militância no PCB: primeiro, de 1935 a 1937, durante a ditadura do Estado Novo; depois, em 1947, após se eleger deputado estadual pelo partido, posto na ilegalidade logo em seguida. Ainda em 1964, fica detido por uma semana no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).


Depois, em 1970, após voltar do exílio no Chile - onde também estava Plínio de Arruda Sampaio - fica um ano e meio detido, sob a acusação de incitar a luta armada em uma conferência concedida a estudantes. "Li o texto da conferência, ele absolutamente não pregou isso. Foi um pretexto para barrar a influência crescente dele no meio universitário", conta Sampaio.


INCONFORMISMO MORAL

Sempre presente na vida intelectual do país, Caio Prado Jr. também destacou-se como editor da Revista Brasiliense, criada ainda em 1955 e pertencente à editora de mesmo nome, do qual era o dono. Lá, diz Iumatti, o historiador constituiu um grupo muito importante, abrindo espaço para a produção universitária e de militantes, tornando a publicação uma referência.


Embora sempre presente no ambiente acadêmico, as conseqüências de suas escolhas políticas também se fizeram sentir nesse meio. Por duas vezes, foi impedido de lecionar na Universidade de São Paulo. Em 1956, defendeu tese de Livre Docência na Faculdade de Direito da USP - faculdade onde se graduou em 1928. "Ele é aprovado, mas não é escolhido como professor, já que a universidade naquele período é muito conservadora", avalia Bernardo Ricupero.


A segunda tentativa veio após convite de Sérgio Buarque de Holanda, para que ele assumisse seu lugar na cátedra de História do Brasil na USP. O concurso é então cancelado, seu título de livre-docência cassado e ainda é aposentado por decreto pela Ditadura. "Ele reconhecia os fatores e as causas dos acontecimentos, não se julgava vítima, mas um ator social. Tinha muita integridade moral, intelectual e política", conta Sampaio.

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Algumas obras de Caio Prado Jr.

- Evolução Política do Brasil (1933)

- Formação do Brasil Contemporâneo (1942)

- História Econômica no Brasil (1945)

- Dialética do Conhecimento (1952)

- Diretrizes para uma Política Econômica Brasileira (1954)

- Esboço de Fundamentos da Teoria Econômica (1957)

- Introdução à Lógica Dialética (Notas Introdutórias) (1959)

- O Mundo do Socialismo (1962)

- A Revolução Brasileira (1966)

- Estruturalismo de Lévi-Strauss - O Marxismo de Louis Althusser (1971)

- História e Desenvolvimento 1972

- A Questão Agrária no Brasil (1979)

Comentários - 6

Página 1

1 José Marcolino Silva - 23-02-2007 - 17:03:34h

Caio Prado: um brasileiro ímpar

Não me sinto em condições de qualificar quem foi Caio Prado,mas, um brasileiro do quilate desse COMUNISTA, se já era difícel de se encontar, avalie se atualmente,podemos encontrar alguém com esse valor moral e intelectual. Parabens a esse importante meio de comunicação,por enfocar em boa hora,os 100 anos desse GRANDE BRASILEIRO. Marcolino, Sanitaris, Pedagogo e Téc.em Patologia Clínica.Caruaru-PE.

2 Nestor Cozetti - 03-04-2007 - 19:33:20h

Caio Prado

Temos que ter cuidado quando, para conhecer-nos a nós mesmos como brasileiros, não ficar apenas em Casa Grande e Senzala, do Gilberto Freire, e Raízes do Brasil, do Sergio Buarque. História Econômica do Brasil e a Revolução Brasileira, ambos de Caio Prado, são mais objetivos e verdadeiros. Isto porque vê e analisa o país a partir de um ponto de vista crítico às elites dominantes/dominadoras na história. E favorável à insurgência dos dominados.

Parabéns a jornalista Dafne, por texo digno do contextualizado. Nestor Cozetti

4 Gabriele Lima - 01-03-2008 - 15:49:23h

Parabens !

Quero muito parabenizar Dafne Mello e dizer obrigada de certa forma pois estou fazendo um Trabalho para meu curso de ADM em Manaus-Amazonas na faculdade CIESA,O Trabalho foi passado pelo meu excelentissimo professor de Fundamentos das Ciencias Sociais, Marcio Salles. Sobre a Vida e Obra de Caio Prado Junior e ja procurei em tudoooo livros e na internet e só consegui um resumo qualificado para meu trabalho depois que li o seu resumo sobre ele... Parabens.

5 Carlos Magno Caetano - 25-04-2008 - 11:52:47h

Difusão de idéias

Caio Prado sabia da importancia da difusão das idéias defendidas por ele e por pessoas a ele ligadas. Talvez esse seja o motivo que o levou a fundar um editora, a Brasiliense, que sem dúvida é um ícone na história editorial brasileira e um dos mais importantes canais de difusão de idéias. Isso principalmente porque essa nova editora publicava livros em coleções, como a Primeiros Passos, que eram mais acessíveis a população em geral. De modo geral, sentimos falta de pessoas que pensem o país de forma tão abrangente, com vontade de resolver as diferenças sociais. Parabéns a Dafne Melo pelo levantamento da história desse brasileiro.

Carlos Magno Aluno do curso de Letras da UFMG.

6 ranildo de lima ferreira - 31-08-2008 - 19:37:20h

caio prado júnior

Estou começando meus estudos em ciências sociais e conhecia um pouco o historiador caio prado.Bem interessente esta idéia de o marxismo pura e simples no Brasil, não funcionou. Nossa reealidade é bem diferente. Vamos à leitura.