O reino encantado do sertão
Sinais pré-históricos e sincretismos religioso e cultural marcam a região do Cariri, que abrange quatro estados nordestinos
04/06/2009
Eduardo Sales de Lima
de São Paulo (SP)
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Os Kariri
Com clima mais ameno que o semi-árido que o cerca, a região do Cariri (que abrange cidades do sul do Ceará, de Pernambuco, do Piauí e da Paraíba) seduziu diversos grupos, desde indígenas até holandeses, vaqueiros e romeiros. Daí o sincretismo cultural e religioso pulverizado pela região. Um mistura que, mesmo séculos após o encontro dos colonizadores portugueses com os povos originários, teceu a criação de um dos principais mitos do nordeste, Padre Cícero Romão Batista.
Para o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Luiz Tadeu Feitosa, que elaborou seu doutorado sobre Patativa Assaré, outro ícone do Cariri, “a marca, não identitária, mas de formação de um discurso sobre o Cariri, é a comparação com um oásis, o contraste de um verde perene com a seca, que na região tudo dá”. Esse oásis, repleto de “pedras e pessoas encantadas”, como lembra Alemberg Quindins, diretor da Fundação Casa Grande, está em exposição no Sesc Ipiranga, em São Paulo, na “Mostra Cariri, ser tão cultura”, que estará em cartaz até 7 de junho.
As lendas de que o sertão vai virar mar, para os caririenses, têm ainda mais vigor. Segundo Alemberg, um dos organizadores da exposição, a Chapada do Araripe, planalto que se espalha pelos Estados do Ceará, de Pernambuco e do Piauí, e que está incluída no Cariri, era uma região lacustre formada por águas oceânicas. Ele explica que após um movimento de placas tectônicas, o lago foi baixando por conta da evaporação e, desse modo, ocorreu sua soterração. “Houve um aterramento desse lago, e os peixes ficaram na lama. Devido ao próprio nível de salinidade, não tinha como decompor microorganismos. Hoje é uma das principais reservas paleontológicas no planeta”, explica Quindins.
“Pedras encantadas”
Feitosa lembra que o fato dessa região conter zonas imensas de marcas arqueológicas e paleontológicas “entra no processo imaginativo das pessoas, e elas dão asas a isso”. Principalmente, segundo ele, na cidade de Santana do Cariri.
“As pedras locais exalam mistério. Por isso, o Cariri sempre foi uma região misteriosa que guardava nas pedras as lembranças de estórias de castelos encantados; falava-se que houve um reinado que se encantou”, ilustra Alemberg Quindins. Segundo ele, um dos motivos que criam tal mística é o fato de na região existir “até peixe dentro das pedras”.
Vieram os cordelistas e poetas populares que se apropriavam dessa mística, enveredando-se por entre os causos fantásticos e o próprio cotidiano do sertanejo. “A história de que um dia a região já foi mar mexeu e ainda mexe com os poetas do cordel”, afirma Feitosa. Amigo do poeta Patativa do Assaré, o professor da UFC lembra que ele lhe disse várias vezes que “a maior maravilha do sertão era a gente se sentar debaixo dos juazeiros para ouvir as histórias do Brasil e do mundo recitados em cordel, além dos contos fantásticos”, conclui. Nesse âmbito, ele defende a idéia de um legado de um dos povos originários da região, a oralidade na poesia, “marca que faculto à nação Kariri, que praticamente desapareceu, mas deixou marcas”.
Fé de lenda
Hoje em dia ainda são encontradas, em pequenas casas de oração dos descendentes do povo Kariri, imagens de santos da igreja católica, do padre Cícero, além de personagens do candomblé e das próprias entidades indígenas.
Padre Cícero é bem responsável por isso. “Ele não conseguiu controlar essa religiosidade ensejada em Roma, porque a criatividade popular é muito maior que isso”, explica Feitosa. Segundo ele, os estudos dão conta de que foi a força da cultura local que fez ele se adaptar àquela religiosidade popular que já existia por conta da inserção indígena. “Uma vez catequizados, os índios também misturaram elementos ritualísticos deles com os trazidos pelos portugueses”, explica Feitosa.
“Quando ele chega, começa a pegar os elementos da antropologia local e levar para o sermão. Na época em que se rezava em latim, de costas para o povo, quando se falava que o Apocalipse definia o fim dos tempos, ele se apropriava de uma lenda local e dizia que o sertão voltaria a ser mar. Tanto que essa lenda aflorou na Bahia, com Antônio Conselheiro, mas ele era um cearense, que veio de Quixeramobim [Ceará], do Cariri”, conta Alemberg.
Personagem-chave
O Cariri é considerado um entroncamento das migrações humanas, que buscavam, sobretudo, água. O povo indígena Kariri, segundo Alemberg, são os descendentes diretos dos primeiros habitantes pré-históricos da região, que deixaram inúmeras marcas nas pedras locais. Por sua vez, os indígenas tiveram os primeiros contatos com o explorador branco no século 17. Atraídos pelo bom clima e pela fertilidade das terra, criadores de gado provenientes da Bahia e Sergipe levaram a essa região seus rebanhos e construíram os primeiros currais. Era o ciclo do couro (final do século 17 e início do século 18). Os índios que não queriam ser vaqueiros iam para os talhados na chapada.
Trata-se, ainda, de uma região onde Afonso Sertão, capataz de Garcia D'ávila (grande criador de gado), tomava as terras indígenas para seu patrão. Esse é um dos pontos de partida do coronelismo na área.
Quase dois séculos após o ciclo do couro, Padre Cícero percebeu que “num mundo de feras, tinha que ser fera”, conta Tadeu Feitosa. Misticismo e a política de enfrentamento aos coronéis rodeavam sua figura. Ao mesmo tempo de ter transformado Juazeiro do Norte (CE) na maior cidade do Ceará, seu sítio se chamava o Horto, suas orações eram feitas num local chamado Santo Sepulcro, e o rio que passa no pé da Serra é o rio Jordão. “E o beato que andava com ele se chamava José. Por quê?”, compara Alemberg, fazendo referência aos elementos da vida de Jesus Cristo.
Seu posicionamento religioso peculiar, em que se apropriava das crendices do povo da região, de acordo com Feitosa, fez com que ele tivesse o apoio dos fiéis e, por conseguinte, abraçasse a causa política sem nenhum problema de consciência. Mas isso não impediu que ele lançasse mão dos mesmos meios que os coronéis usavam. “Se precisasse invadir, ele invadia, se tivesse que enxotar alguém, ele enxotava. Era latifundiário como os demais. Em nome da fé, comprava e vendia gado”, conta Feitosa.
Babel
Reflexo de toda miscelânea cultural, o “Cariri é considerada uma espécie de Babel”, segundo Feitosa. Isso porque, de acordo com ele, mistura o contemporâneo, tudo o que há de moderno, com a marca mais forte da ancestralidade nacional”. É possível testemunhar tal Babel que menciona Feitosa nas corriqueiras conversas na calçada, nas cantorias, nas declamações em feiras. “Isso acontece todo o dia”, lembra o professor da UFC.
Comentários - 4
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2 natalina da conceicao - 14-09-2009 - 11:02:06h
encantamento3 Antonio dos Santos de Oliveira Lima - 28-10-2009 - 18:23:27h
Castelos Encantados4 Antonio dos Santos de Oliveira Lima - 04-11-2009 - 07:58:37h
Conflito Agrário no Assentamento da Fazenda Lagoinha/CECENÁRIO: ASSENTAMENTO DA FAZENDA LAGOINHA– BELA CRUZ.
Depois de muita violência, desmando e falcatruas e improbidade administrativa, desvio de dinheiro, atos de vandalismo, agressão aos assentados, desrespeito aos direitos humanos, prevaricação, atos de pistolagem, depredação dos bens, expulsão de assentados, falsificação de documentos e enriquecimentos ilícitos e falso testemunho, começou o desentendimento dentro dos integrantes da quadrilha. Foi o feitiço que pegou no feiticeiro.
Vicente de Paula Oliveira, ex-presidente, disse, para a justiça, que havia desmando no assentamento, muitas irregularidades, que não tinha poder de decisão, era um “laranja” e sua função era de obedecer a ordens de Geraldo Cunha e Geraldo Sobrinho. Era orientado para mentir, mas a justiça queria provas com documentos e testemunhas, coisa que ele não tinha. Que não ia responder sozinho pelas irregularidades praticadas no assentamento. Disse que todas as ovelhas tinham morrido por causa de uma grande seca ocorrida na região. Mas, ao ouvir os assentados e outros criadores da localidade, este fato não foi confirmado. Disse ainda que todo o dinheiro das safras de castanha estava depositado em conta bancária. Mais uma vez foi desmentido, pois não existe dinheiro em conta bancária da associação. Vicente nunca prestou conta com os associados nem apresentou documentos que comprovassem a aplicação do dinheiro dos projetos dentro do assentamento.
Jose Milton de Menezes, “ex-presidente”, disse que uma parte das ovelhas tinha servido para churrasco feito por Geraldo Marques Sobrinho, Geraldo Cunha e seus familiares, que a outra parte foi vendida e o dinheiro estava com José Carlos. Que nunca tinha sido feito depósito do dinheiro da associação. Durante a sua administração, nunca prestou conta com os associados. O presidente José Itamar disse que as ovelhas tinham sido vendidas e o dinheiro estava no banco, mas não apresentou os comprovantes de depósito nem de venda das ovelhas. Disse ainda que havia muitos desmandos no assentamento e que não ia responder sozinho por estas irregularidades. Que ia entregar a diretoria. Entregou a relação dos nomes que ele diz serem os assentados, mas não citou o nome do atual tesoureiro Manoel Osmar de Freitas, pois afirmou que o mesmo não é assentado. Manoel Osmar de Freitas sempre falou mal deste grupo, mas, hoje, está junto com eles e agora foi excluído da lista dos assentados. Perguntado pelo projeto de energia elétrica trifásica, Itamar apresentou uma rede monofásica feita com recursos do Projeto São José. Como não foi aceito, ele mudou de conversa e disse que o dinheiro estava no banco. Flávio, outro assentado, integrante do grupo, que não mora no assentamento, mas está propagando que todo o dinheiro do assentamento é entregue a família de Geraldo Cunha. Márcio, filho de José Menezes, disse para a justiça, que assentado não manda e nem tem direito em nada dentro do assentamento. Mas, ele construiu uma casa com dinheiro do assentamento adquirido com a venda de ovelhas, castanhas de caju e outras rendas da propriedade, durante o período em que cuidava das ovelhas do assentamento, conforme testemunharam os assentados. O estatuto da associação teve o registro cancelado, pois não existe ata de aprovação e o único sócio que assinou foi José Menezes. Mais uma fraude comprovada pela justiça. Nenhum dos ex-presidentes e presidente soube explicar onde estava a cerca, o gado, a leucena, o poço e a área de cajueiro feitos com o dinheiro dos projetos. Também não souberam explicar porque as casas e o sistema de abastecimento não foram concluídos e nem apresentam documentos que comprovasse a aplicação dos recursos nem a prestação de contas. A casa sede da Antiga Fazenda de Gado, que foi comprada muito cara, foi demolida e o material retirado, mas ninguém se responsabiliza pelo ato criminoso que foi praticado. Geraldo Marques Sobrinho comprou uma moto com o dinheiro do PRONAF. Quem assinou o cheque foi Vicente e Wilamar. Vários assentados serviram de testemunha. Também, realizaram vários churrascos com dinheiro dos assentados. Os carros e motos de Geraldo Cunha e Geraldo Marques Sobrinho eram abastecidos com o dinheiro dos projetos do assentamento. A forrageira foi encontrada na casa de Denis Cunha para uso pessoal. A situação ficou mais difícil por que Geraldo Cunha e Geraldo Marques Sobrinho foram traídos pelos seus compassas que os entregaram para a justiça. Perderam a confiança em todos eles. Agora, a briga está entre os próprios integrantes dos praticantes das falcatruas. Nada mais pode ser informado aos companheiros, por falta de confiança, nem podem servir de testemunha de defesa perante a justiça. As mentiras não funcionaram como arma de defesa, pois, cada um contou uma história diferente para o mesmo caso. Também, não encontram mais quem queira serem suas testemunhas, porque o grupo de acusação apresenta testemunhas verdadeiras e documentos autênticos e seu principal instrumento de defesa é o uso da verdade.
1 Antonio dos Santos de Oliveira Lima - 06-06-2009 - 11:48:09h
O Reino Encantado do SertãoO calor humano do povo caririense, a sua religiosidade e o seu passado de glórias enaltece e orgulha todo povo cearence.
Antonio dos Santos de Oliveira Lima
Engenheiro Agrônomo
Radialista Amigo da Criança
Federação das Associações Comunitárias do Municpipio de Cruz
Cruz/CE
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