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Periferia Moderna

by jpereira last modified 2007-11-06 14:42

Semana de Arte Moderna da Periferia, em São Paulo, amplia debate sobre produção cultural para os rincões das cidades

Semana de Arte Moderna da Periferia, em São Paulo, amplia debate sobre produção cultural para os rincões das cidades

06/11/2007


Sérgio Vaz *


A periferia, apesar da dura realidade e abandono dos governantes em geral, está dominada pela poesia. Prova disso são os saraus que não param de acontecer nas quebradas de São Paulo. E por conta da poesia e dessa literatura que se alastra pelas ruas, as pessoas mais simples têm se interessado um pouco mais em ter uma vida cultural.

Um clássico exemplo é o sarau da Cooperifa, que na ausência de teatros, bibliotecas, livrarias, cinemas, museus e raríssimos espaços para acesso à cultura e arte, transformou um boteco na periferia da maior cidade do país em centro cultural.

No bar, há seis anos, todas às quartas-feiras uma média de 200 pessoas -com picos de até 400-,reúnem-se para ouvir e falar poesia. O sarau é freqüentado por toda comunidade e gente de várias quebradas, inclusive do centro.

Os saraus que acontecem na periferia têm se transformado num grande quilombo cultural. Muitos até os denominam de o movimento dos sem-palco.

O sarau da Cooperifa, por exemplo, é freqüentado por poetas, motoristas de táxi, donas-de-casa, desempregados, professores, crianças, jovens, adulto, idosos, jornalistas, mecânicos de auto, motoboy, advogados, estudantes, etc. Muitos deles tinham apenas a televisão como referência cultural.


E toda essa gente que nunca

havia tocado num livro ou sequer

ouvido uma poesia, foi seduzido

ali, na porta do bar, pela literatura.

Não é de embriagar?


E toda essa gente que nunca havia tocado num livro ou sequer ouvido uma poesia, foi seduzido ali, na porta do bar, pela literatura. Não é de embriagar?

E o que melhor é que boa parte desse povo lindo e inteligente, hoje, já estão segurando seus próprios livros editados nas mãos. A maioria tem seus escritos registrados em CDs e Antologias que se alastram pelos becos e vielas da grande metrópole paulistana.

Sem contar que através da oralidade muita gente tem se transformado em grandes intérpretes de poesias de autores consagrados. O livro sempre tratado como o pão do privilégio, chegou na periferia através da palavra. Literalmente no boca-à-boca.

Lógico que não se trata de uma literatura melhor que a produzida pelos acadêmicos, mas também não é menos importante. Muitos deles nos acusam de assassinar a gramática e seqüestrar a crase, por isso, é comum ver jovens poetas e escritores sendo enquadrados pelas canetas nervosas dos intelectuais como suspeitos de abusarem da palavra alheia.

Mas esconder e negar a educação durante quinhentos anos, também não é crime?




Menos vírgulas, mais acento,

mais ainda assim literatura.

O difícil foi acordar.

Aprender é um verbo que

se conjuga em grupo.



Menos vírgulas, mais acento, mais ainda assim literatura. O difícil foi acordar.

Aprender é um verbo que se conjuga em grupo.

Falando em aprendizado, nesses seis anos de atividades do sarau da Cooperifa, mais de 30 autores lançaram seus livros por lá.

Grupos de teatros como Manicômicos, Ação e arte, Cavalo de pau, Irmãos Carozzi, entre outros, encenaram ali, no chão duro, as suas peças. Pessoas com mais de cinqüenta anos que nunca havia ido a um teatro, assistiu ali, tomando rabo de galo, a sua primeira peça.

Vários documentários produzidos por jovens da região e de cineastas consagrados são freqüentemente exibidos ali também.

Exposições de fotos, artes plásticas,lançamentos de discos e DVDs, tudo que é, e está sendo produzido pela periferia está sendo consumido por ela.

Hoje em dia na periferia por onde quer que você olhe tem alguma coisa acontecendo, e para todos os gostos: Panelafro na Casa de Cultura do M´ boi Mirim, Cine becos e vielas, sarau do Binho, Favela toma conta, Quilombagem, Arte na periferia, Samba da vela, Poesia das ruas, Saraus nas escolas, Saraus no acampamento João Cândido (MTST), Biblioteca nas favelas, Um da sul, o rap, o reggae, etc. A gente no centro de tudo e nem se dava conta.

Estamos vivendo a nossa Primavera de Praga.



Inspirada na

Semana de Arte Moderna de 22,

a Cooperifa propõe com

a semana sacudir o marasmo

cultural que se instalou no país.



Baseado neste momento de luz, a Cooperifa e um grupo de artistas propõe, 85 anos depois, uma nova Semana de Artes, só que agora oriunda da periferia. Uma nova história, escrita e contada por quem realmente vive por ela e para ela. Uma nova versão da Semana, contada não de fora para dentro, mas de dentro para fora. Construída com as mesmas mãos calejadas que construíram a cidade de São Paulo. Uma Semana cultural criada e produzida com o mesmo suor desse povo que tanto luta por um Brasil melhor.

Inspirada na Semana de Arte Moderna de 22, a Cooperifa propõe com a semana sacudir o marasmo cultural que se instalou no país. Uma Semana inteira de artes para que a bússola do país, que aponta para o centro, também aponte para a periferia.

A idéia da Semana não é somente propor um outro tipo de linguagem, mas também um outro tipo de artista. Um artista mais humano e solidário e uma arte que preze pela estética, mas que também ofereça conteúdo.

Um artista formado pelo caráter da sua obra, não forjado em pranchetas de publicitários, onde a mesma música lançada nas rádios pela manhã, é a que vende xampu, carro, miojo e cerveja no final da tarde. E de quebra, jingle para campanhas políticas.

A Cooperifa ao produzir a Semana deseja com isso, estimular o interesse pela leitura, a criação poética, o gosto pelo teatro, cinema e aliar-se à escola e universidade para que a cultura seja um elemento primordial para a construção de seres humanos melhores e mais conscientes.

Moderno por aqui tem sido ousar e encarar novos desafios, e o medo ficou no período Barroco. (Leia mais na edição 244 do jornal Brasil de Fato)


* Sérgio Vaz é um poeta, 43 anos, fundador da Cooperifa (Cooperação Cultural da Periferia), idealizador da Semana de Arte Moderna da Periferia - www.colecionadordepedras.blogspot.com



mais

Posted by Helô at 2007-12-05 11:43

queria saber onde encontro mais informações sobre a Semana, porque, na Internet, são informações muito pontuais. Obrigada.

que

Posted by Jullye at 2008-06-06 20:02

demais!

Demais

Posted by Joãozinho at 2008-06-12 15:47

Ahhh tá né. bando de coisa.


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