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Um olhar sobre a tragédia latino-americana

by jpereira last modified 2007-09-17 10:04

Grupo Folias D’Arte celebra dez anos analisando a história recente da América Latina em peça baseada em trilogia trágica de Ésquilo

Grupo Folias D’Arte celebra dez anos analisando a história recente da América Latina em peça baseada em trilogia trágica de Ésquilo

14/09/2007

Igor Ojeda,
da redação

 

O enredo trata da formação do Estado grego. Dois mil e quinhentos anos mais tarde, no entanto, há quem enxergue uma relação com a constituição do continente latino-americano a partir da primeira metade do século passado – o grupo de teatro paulistano Folias D’arte é um dos exemplos. Para comemorar seus dez anos de existência, resolveu traçar esse paralelo a partir da encenação de Orestéia - o canto do bode, escrita por Reinaldo Maia a partir da trilogia trágica do dramaturgo grego Ésquilo (veja box nessa página). Assim, cada uma das peças remonta a um período de nosso processo histórico. A primeira, "Agamenon", refere-se ao populismo dos anos 1950 e 1960. A segunda, "Coéforas", às ditaduras das décadas de 1960 e 1970. Por fim, a terceira, "Êumenides", estabelece um vínculo com a redemocratização ocorrida a partir dos anos 1980.

Mas o espectador deve ficar atento. Pois a história recente do Brasil e da América Latina não está situada apenas na analogia com os acontecimentos-chaves das três partes de Orestéia. Os detalhes contam muito. As referências pipocam. Figurinos, músicas, áudios, frases. Tudo pode trazer à tona a realidade - tão específica - do continente e do país que habitamos. Afinal, vivemos também uma "grave tragédia", lamenta o diretor do espetáculo, Marco Antonio Rodrigues que, em entrevista ao Brasil de Fato, analisa os dez anos do Folias.

"O que é uma tragédia? É uma estrutura de impedimento coletivo. Existe um impedimento coletivo. Qual é o dos gregos, qual é o nosso? O que tinha no céu deles? O Olimpo, Zeus. O nosso está cheio de antenas parabólicas, satélites. São deuses também. São intransponíveis. Essa é a tragédia", diz.

Mas, para evitar que o espectador "se apunhale" frente aos dramas enfrentados pelos personagens de Ésquilo, e claro, face ao inevitável paralelo com nosso próprio e triste enredo latino-americano, um palhaço conduz a peça, quebrando, como não poderia deixar de ser, os muitos momentos de tensão da encenação, ao mesmo tempo em que nos nutre de um esperançoso ar de otimismo que deve tomar conta de qualquer "terra arrasada", onde as possibilidades de transformação se renovam.

Perfil

Formado em psicologia em Santos (SP), onde nasceu, o diretor Marco Antonio Rodrigues é um dos fundadores do grupo teatral paulistano Folias D'Arte e do teatro Galpão do Folias, no bairro de Santa Cecília, na capital paulista. É ganhador, como melhor diretor, dos prêmios Molière (1991), pelo trabalho Enq, o Gnomo, e Mambembe (1996), com Cantos Peregrinos e, em 1997, com O Assassinato do Anão do Caralho Grande.

 

Brasil de Fato - Como surgiu o grupo de teatro Folias D'Arte?

Marco Antonio Rodrigues - O Folias surgiu muito mais por uma contingência econômica do que ideológica. O modo de produção possível. Cooperativado, onde não há a figura do empresário, e sim uma estrutura horizontal onde, teoricamente, todas as pessoas são responsáveis por tudo aquilo que anima a vida, o cotidiano de uma companhia de teatro. É uma junção de pessoas que sempre entenderam a arte como uma forma de refletir sobre a relação do homem com o mundo, com o meio, entendendo que qualquer fato é político do ponto do vista urbano. Porque político significa justamente a relação e a convivência. Na verdade, a gente entende que não existe o indivíduo, existe o homem em relação. Então, a produção do grupo tem que se mover por uma questão que é o atávico do homem, e isso talvez seja um dos pressupostos ideológicos que se somam às condições de produção dentro das características do capitalismo terminal que temos. O Folias também surge num momento em que o dito teatro comercial de fato abriu mão de qualquer vocação iluminista. Ou seja, acompanhando todo o fenômeno de uma pretensa burguesia nacional que resolveu não ser produtora, mas rentista, abandonou qualquer perspectiva, como havia nas décadas de 1970 e 1980, de um tipo de produção que se preocupava em confrontar essa mesma pequena-burguesia ou burguesia. Então, sobrou um enorme espaço, ocupado por uma classe média absolutamente desassistida intelectualmente, para a ação desses grupos. Acho que o Folias entra nesse contexto histórico, de reconstituição de um espaço público de discussão de grandes questões, que ainda continuava e continua sedado pela ditadura econômico-midiática da TV Globo, que substituiu a ditadura militar com tanto sucesso.


Quais são as influências teatrais de vocês, que caminhos vocês tomam em relação à dramaturgia?

Como somos, a maioria, pequenos-burgueses, ou seja, temos uma formação erudita, o que a tentamos fazer é transitar entre arte erudita e arte popular, entender que, na verdade, o erudito é uma apropriação de conhecimento, que precisa ser socializado. Então, nesse momento, por exemplo, a gente faz a Orestéia, uma tragédia grega, a obra clássica mais importante do teatro. Tentamos nos apropriar da obra de uma maneira a não respeitá-la de modo que se torne intransponível para o nosso público e para a gente mesmo. Além disso, sofremos muitas influências, sem nos filiarmos exatamente a alguma delas. É lógico que, claramente, discutimos Brecht. Mas, também, Stanislavski, Grotowsky, Augusto Boal. Nós tentamos não receitar nada, porque o papel da arte é, como dizia o velho Brecht, criar contradição, porque assim o espectador pode compreender alguma coisa que está por trás de uma estrutura. Não cabe voltarmos à origem do teatro brasileiro, que é jesuítica. Como na América Latina inteira. E continua a ser isso, em geral. É usado como uma forma de catequese e de dominação. Hoje, as coisas são muito classificadas, rotuladas e as pessoas querem respostas. Mas eu não posso criar o seu desejo, você tem que ter o desejo, você tem que perseguir isso.


Você estava falando na formação erudita de vocês. Quais as dificuldades que vocês encontram para trabalhar com o popular?

Por exemplo, o Shakespeare é eminentemente popular. Só que ele é apropriado por uma classe, aí ele vira erudito. A única coisa que a gente faz é revelar o popular dele. Nós fizemos o Otelo. É a tragédia do ciúme ou é a tragédia da propriedade? Para nós, é da propriedade. Porque o ciúme é uma colocação erudita. É de uma estrutura patriarcal que cria a monogamia, por causa do direito de herança, de posse, de propriedade, e isso vai invadindo as relações mais sutis. Então, o que a gente faz é revelar essas questões, como elas se articulam, como elas foram separadas lá atrás. Porque, na verdade, o teatro, a dança, o circo, a música, estavam todos reunidos antes da Revolução Francesa. É a partir dela que isso começa a ser compartimentado. Quem inventa a literatura é a Revolução Francesa. Só você pode escrever, porque é escritor, e eu sou apenas um leitor? Todas essas classificações são falsas, simplesmente têm a ver com a questão da propriedade. Da manutenção do status quo. Então, você vai criando mitologias: há o escritor, e há os leitores. O que a gente reivindica é a possibilidade de reescrever a cena, como a gente quer que o público reescreva também. Mas, para isso, ele tem que se sentir autônomo. Senão, não vamos construir nada, e sim reproduzir modelos.


Vocês utilizam elementos do circo nos trabalhos de vocês. Por quê?

A base do teatro popular é o circo. E a base do nosso ator é um ator de circo. Esse ator que tem mil especialidades. E a gente descobriu, fazendo Orestéia, que o palhaço era talvez o que nos representaria melhor com relação à narrativa. Para, de cara, colocar para o povo: “olha, a gente está fazendo uma tragédia sim, mas isso não significa que você se apunhale”. O que é uma tragédia? É uma estrutura de impedimento coletivo. Existe um impedimento coletivo. Qual é o dos gregos, qual é o nosso? O que tinha no céu deles? O Olimpo, Zeus. O nosso está cheio de antenas parabólicas, satélites. São deuses também. São intransponíveis. Essa é a tragédia.


Por que a escolha de Orestéia para comemorar os dez anos do Folias?

A gente vive um momento histórico em que todas as utopias que estavam carregadas em cima da promessa do Lula e do PT foram destruídas. Também é um momento de ruptura, em que temos que reorganizar nossas esperanças. A Orestéia é uma obra que trata da formação da civilização grega. Então, para nós também, existe alguma coisa que pode ser formulada a partir do “zero”. Além disso, é uma obra importante porque a gente via vários paralelos nas peças que compõem a trilogia. A Clitemnestra, depois de dar o golpe junto com o amante, instala a ditadura, que é vencida aparentemente num processo democrático. Mas, foi democrático? Existiam alianças ali que eram oportunistas, e hoje isso também ocorre. O que é a nova democracia senão um rearranjo daquelas forças reacionárias e conservadoras que usaram as expectativas da população por democracia para articularem um outro tipo de golpe? Para nós, Orestéia dava conta exatamente daquilo.

SERVIÇO
Orestéia - o canto do bode

Dramaturgia: Reinaldo Maia

Direção: Marco Antonio Rodrigues

Local: Teatro Galpão do Folias, rua Ana Cintra, 213 Santa Cecília, São Paulo. Tel: (11) 3361-2223

Temporada: de quinta a sábado às 20h e domingos às 19h , até 28 de outubro de 2007

Duração: 190 min (10 min de intervalo)

Ingresso: quintas e sextas, R$ 10, sábados e domingos, R$ 30

Recomendado para maiores de 14 anos

 

 

teatro

Posted by filipe germano at 2007-09-17 18:36

A ideía é maravilhosamente original e aposto que o público vai adorar o espetáculo!!

Folias D'Arte

Posted by Paulo Rafael Pizarro at 2007-09-30 18:36

Muito boa a análise da nossa realidade, fiquei curioso em assistir, e gostarei mais ainda se tudo isso se traduzisse na prática, apesar de um texto fechado e espaço de encenação idem. Boa sorte. Paulo Rafael Pizarro

teatro,musica,arte.

Posted by benedito ismael alves cardoso at 2007-11-07 18:44

  • teatro,a musica,a arte como um todo,faz parte da vida,vinde a mim a arte o teatro a musica e todos serao abençoado pelo geito mais simples de manifestar-se o artista em cada ser vivente que habita o planeta terra,para o vosso conhecimento,a ida do homem a lua nao deixa de ser um grande expetaculo que a humanidade presenciou,assim como os avioes que cai mundo a fora sem manutençao matando todos abordos,nao deixa de ser um tremendo espetaculo absurdiano apreciado e transmitido pela televisao em tempo quase que real,porque nao sao todos os canais ainda digital no quintal dos EUA,do tio sam,mais muito em breve estaremos transmitin- do todas as catastrofis em tempo real na sua tv digital com cameras distribuidas por todos os aeroportos e morros do rio de janeiro e campo de futebol ate a copa de 2014 principalmente a da africa dos negros escravi- sados desde os primordios da humanidade.sem mais bons espetaculos nos aeroportos e favelas e copas do brasil baronil das amazonias devastadas e incendiadas de todo o planeta terra,e viva a guerra nos morros do rio antes e apos os panamericanos diario das revoluçoes armada contra as familias que moram nos barracos humildes e pobres da quela aldeia de dez milhoes de habitante,sendo que so um milhao tem o direito de viver diguina mente,o resto fica ao deus dara. abraço.

teatro,musica,arte.

Posted by benedito ismael alves cardoso at 2007-11-07 18:47

  • teatro,a musica,a arte como um todo,faz parte da vida,vinde a mim a arte o teatro a musica e todos serao abençoado pelo geito mais simples de manifestar-se o artista em cada ser vivente que habita o planeta terra,para o vosso conhecimento,a ida do homem a lua nao deixa de ser um grande expetaculo que a humanidade presenciou,assim como os avioes que cai mundo a fora sem manutençao matando todos abordos,nao deixa de ser um tremendo espetaculo absurdiano apreciado e transmitido pela televisao em tempo quase que real,porque nao sao todos os canais ainda digital no quintal dos EUA,do tio sam,mais muito em breve estaremos transmitin- do todas as catastrofis em tempo real na sua tv digital com cameras distribuidas por todos os aeroportos e morros do rio de janeiro e campo de futebol ate a copa de 2014 principalmente a da africa dos negros escravi- sados desde os primordios da humanidade.sem mais bons espetaculos nos aeroportos e favelas e copas do brasil baronil das amazonias devastadas e incendiadas de todo o planeta terra,e viva a guerra nos morros do rio antes e apos os panamericanos diario das revoluçoes armada contra as familias que moram nos barracos humildes e pobres da quela aldeia de dez milhoes de habitante,sendo que so um milhao tem o direito de viver diguina mente,o resto fica ao deus dara. abraço.

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