Diploma de jornalismo é perfumaria
Manifesto contra a hipocrisia
Wladymir Ungaretti,
Porto AlegreO diploma não está ameaçado porra nenhuma. Acabou. Não é por acaso que a Rede Globo garante que continuará prestigiando as escolas de “comunicologia” e que, por outro lado, irá abrir espaço a especialistas de outras áreas. O PRBS, também, promete que vai continuar valorizando os cursinhos da perfumaria. É só uma flexibilização. A ditadura midiática ganha “ares de diversidade”. A medida não altera porra nenhuma em termos da produção das atuais ”informações ficcionais”, dos releases das assessorias de imprensa. Associar “qualidade da informação” com diploma é deboche. Até mesmo na história recente de Zerolândia esta associação é piada. Uma redação com hegemonia de profissionais sem diploma era dirigida pelo Lauro Schirmer. Dava para ler. Uma redação hegemonizada pelos com diploma e direção de Marcelo Rech vai para história do lixo.
Ninguém diz nada sobre a conjuntura em que o diploma foi criado. Assim, como ninguém diz nada sobre a conjuntura atual, a do fim do diploma. É preciso, no entanto, assinalar a característica básica dos dois momentos: ditadura militar e ditadura midiática. Absoluta falta de democracia. Ditabrandas. O MST pode dizer algumas coisas interessantes sobre o tema. Na militar, as redações eram “controladas” por intelectuais de esquerda. A ditadura precisava de “profissionais” com outro perfil. No começo foi quase impossível. A meninada (com o diploma) mandava “bala” contra a ditadura. E os “velhos” jornalistas prestigiavam. No mínimo faziam vistas grossas. Na atualidade, o fim do diploma “flexibiliza” e reforça os cursinhos técnicos de comunicologia. Uma adequação ao Deus Mercado. A grande novidade - e a mídia corporativa precisa - será a formação de showrnalistas especializados na transmissão de infográficos online. Ou de “especialistas” em segurar microfone. Isso tudo é uma grande piada.
Está aberta, no entanto, a possibilidade de implodirmos com os cursos de “comunicologia”, pela esquerda. Está aberta a possibilidade de formação de JORNALISTAS marginais, subversivos e da periferia. Estes cursos populares darão prioridade à formação do caráter. Não esquecendo, é claro, que a esquerda sabonete é um zero à esquerda. Uma idéia anarquista. Em 20 anos de Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS) nunca tive um aluno negro que não fosse africano. Não tive em aula um estudante de JORNALISMO morador da Lomba do Pinheiro (periferia de Porto Alegre). Estamos de olho na possibilidade de construção de ESCOLAS DE JORNALISMO na periferia. Currículo de AgiProp (agitação e propaganda). Contra o sistema. Luta de classes existe, sim. O “showrnalismo” que a mídia corporativa faz ficará “melhor”. Zerolândia ficará melhor “qualificada”. Especialistas (não diplomados) poderão brilhar.
Comecei na profissão com Marcos Faerman (Marcão), trabalhei com Pilla Vares, João Aveline e José Onofre; tive aulas de marxismo e de jornalismo com Marco Aurélio Garcia, criador do primeiro Caderno de Cultura de ZH; também tive algumas lições de jornalismo com Jefferson de Barros. JORNALISTAS eram intelectuais e de esquerda. O diploma que predominava era o de advogado. Nenhum jornalista da República de Livramento (Bicudo e outros) tem diploma. Acho que o Trindade e o Vieira também não. Boa parte da redação da Folha da Manhã, da Caldas Junior, não tinha diploma. O decreto que cria a habilitação em Relações Públicas, dentro dos cursos de “comunicologia”, foi assinado pelo Jarbas Passarinho e o Delfim Neto. Não consegui o registro por ter passado uma temporada na cadeia. Fui obrigado a fazer a faculdade. Tenho o tal do diploma. Sou professor por um descuido do sistema.
Os atuais cursinhos técnicos de “comunicologia” continuarão formando o pessoal que é treinado para escrever 30 linhas. (ponto) Bons de telefone. (ponto) Ou então com qualificação para buscar release na Secretária de Segurança Pública. (ponto). Para os que possuem o DNA da profissão o diploma é um detalhe. E quando não existia Internet o cara “cascateava” e não tinha como denunciar. A informação ficava restrita ao meio profissional. Agora, o cara “cascateia” e um blogueiro (não showrnalista) denuncia e é processado. A rede de conivências corporativas é silenciosa. Só faz estardalhaço na defesa da “liberdade de imprensa”, deles. Os atuais “showrnalistas”, todos diplomados, são e continuarão sendo cartógrafos do sistema. Mapeadores serviçais das elites. Nenhum dos 30 melhores alunos que tive em 20 anos de Fabico trabalhou em Zerolândia, poucos andaram (passagens rapidíssimas) por outros veículos da mídia corporativa e todos, literalmente todos, exercem a profissão comprometidos com a vida. Acho que dei minha contribuição na formação destes JORNALISTAS. Para todos eles o diploma foi um detalhe. Uma imposição burocrática e autoritária. Quase sempre de professores que não deram certo na profissão. Ou de acadêmicos que nunca passaram nas proximidades de uma redação.
O que vai acontecer? Não sei. A todos os piratas, hackers e anaquistas e loucos, de um modo geral, desejo sucesso na multiplicação dos espaços de liberdade. A clandestinidade exige atenção, humildade, intuição e pode ser o caminho para o exercício do JORNALISMO com o velho sentido da profissão. Propomos a multiplicação de panfletos eletrônicos. A realização de bacanais. De orgias eletrônicas panfletárias contra o sistema. Pela realização dos prazeres criminosos e ilegais. Abandonamos a idéia dos piquetes. O melhor é vandalizar. Não significa porra nenhuma protestar. Queremos atos de desfiguramento. Não aceitamos os estúpidos desperdícios como, por exemplo, a imensa quantidade de papel gasto em jornais de merda. Lutamos pela destruição dos símbolos dos impérios da “comunicologia”. Zerolância é criminosa. Aliena. O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Nunca esteve. Acabou. (ponto) Fotografem a miséria conversando com os miseráveis. Aprendendo com eles. Pela ação dos marginais, dos que estão à margem, avançamos contra a barbárie.
Jornalistas, como agentes da subversão, nunca se inscrevem para concorrer a prêmios. E muito menos ainda para o Prêmio Ari-Gó. Não são os “showrnalistas” que são premiados, mas as empresas para quais vendem a alma. É tudo matéria 500. É parte da política de relações públicas. A Esso criou o Repórter Esso para combater a campanha do Petróleo é Nosso. E o “camarada” Lula poderá ser presidente do Banco Mundial.
Viva Hélio Oticica e os parangolés!!! Queremos tudo Zensentido. Glauber Rocha não tinha diploma de porra nenhuma. E, assim, ameaçava a burguesia. Como dizia o velho guerreiro Chacrinha: “quem não se comunica se trumbica”.
Mil desculpas
se às vezes
perco o ímpeto
radical
Da raiz
PALAVRAS como estiletes
CORTANTES.
* Wladymir Ungaretti é jornalista e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Comentários - 20
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2 Marcelo Rodrigues - 23-06-2009 - 20:18:44h
Também sou contra o diploma...3 Pablo - 23-06-2009 - 22:51:28h
mas gostei muitoparece que pela primeira vez alguém falou a verdade sobre o assunto. Mas é isso mesmo,
a análise tem que partir das grandes corporações e seus vedetes, essa liberdade de expressão é na verdade
liberdade de opressão!
valeu Ungareti!
4 Heitor - 24-06-2009 - 02:29:31h
Pois é!5 Mariano Senna da Costa - 24-06-2009 - 08:03:08h
Ave Wladymir...6 João Carlos da S. Feital - 24-06-2009 - 10:56:22h
Diploma de Jornalismo7 Azarias - 24-06-2009 - 15:50:12h
Papo de Jornalista...8 Azarias - 24-06-2009 - 15:55:51h
Diploma de Jornalismo?9 luis fernando - 26-06-2009 - 12:44:45h
diplomawww.sinapseoculta.blogspot.com
10 Zé Luís - 26-06-2009 - 13:46:25h
Seu texto está corretissímo11 Marcos - 28-06-2009 - 16:54:55h
Não obrigatoriedade de diploma de jornalista.- A não obrigatoriedade do diploma beneficia autodidatas e jornalistas marginais, mas igualmente "jornalistas" que fazem o jogo sujo do poder, já que ocupam aquele lugar típico dos que têm má formação intelectual, espécie de "inocentes úteis" que divulgam aos quatro cantos todos os tipos de preconceitos e estigmas, especialmente quando este tipo de jornalista aborda "movimentos sociais", grevistas e irreverentes.
- Trabalhadores (neste caso, jornalistas) pugnarem pela desqualificação do trabalho, barateamento de si mesmos, estão a dar tiros no próprio pé, já que por uma questão de antagonismo social, seria o caso de pôr inputs no trabalho, não no capital. Vide atual estado de fragmentação dos trabalhadores enquanto o capital atinge níveis de acumulação elevadíssimos.
- O Judiciário está fazendo a vez de Poder Legislativo, quando se trata de uma instituição não eletiva, que muito lembra uma corte de direitos hereditários.
Ninguém gostaria de entregar um filho para ser operado por um médico sem formação, o que pode significar sem diploma. Sei que o caso do jornalismo é um pouco diferente. Agora,tem-se de exigir de alguma forma, e talvez isso implique sim em diploma, que o jornalista tenha formação, estudo, etc. E ainda que se possa argumentar que o sistema universitário brasileiro tenha se tornado um colegião de formação de papagaios lacaios do poder ou de meros feitores do sistema de produção, estudar profundamente é sempre importante, o que tantas vezes significa cursar universidade. Se alguém se torna socialista, marxista, anarquista, ou sei lá o quê, já que demoraria para explicar essas coisas, é porque deve chegar a isso, e um dos principais caminhos (senão o principal) é o estudo, a curiosidade nutrida sistematicamente. É viver, na prática, claro, mas olhando para a vida com olhar teórico numa via de mão dupla; do empírico para o teórico, do teórico para o empírico. O anti-intelectualismo, embora possa não parecer numa primeira olhada, pode ser extremamente conservador e lacaio do poder. E, sobretudo, tomemos sempre cuidado, pois anjos tortos adoram ouvir nossas preces. Digo, o que às vezes aparece como emancipação pode nos ser nova prisão. Uma boa saída poderia ser os trabalhadores criarem suas próprias universidades ao invés de desqualificar o ato de cursar uma. A burguesia foi revolucionária e mudou o mundo porque, além de contestar, substituía...
1 Victor Pinto Viana - 23-06-2009 - 19:52:53h
Estou repassando ( creditando a autoria e fonte )Muito bom seu texto, gostei muito de tudo que o Sr. falou estou postando em meu blog, com a fonte e seu nome é claro!
http://victorvianabuzioscuringa.blogspot.com/ è o link do meu blog