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Diploma de jornalismo é perfumaria

by cristiano last modified 2009-06-23 13:23
Contributors: Wladymir Ungaretti

Manifesto contra a hipocrisia


23/06/2009

     

Wladymir Ungaretti,

Porto Alegre

        O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Acabou. Não é por acaso que a Rede Globo garante que continuará prestigiando as escolas de “comunicologia” e que, por outro lado, irá abrir espaço a especialistas de outras áreas. O PRBS, também, promete que vai continuar valorizando os cursinhos da perfumaria. É só uma flexibilização. A ditadura midiática ganha “ares de diversidade”. A medida não altera porra nenhuma em termos da produção das atuais ”informações ficcionais”, dos releases das assessorias de imprensa. Associar “qualidade da informação” com diploma é deboche. Até mesmo na história recente de Zerolândia esta associação é piada. Uma redação com hegemonia de profissionais sem diploma era dirigida pelo Lauro Schirmer. Dava para ler. Uma redação hegemonizada pelos com diploma e direção de Marcelo Rech vai para história do lixo.

       Ninguém diz nada sobre a conjuntura em que o diploma foi criado. Assim, como ninguém diz nada sobre a conjuntura atual, a do fim do diploma. É preciso, no entanto, assinalar a característica básica dos dois momentos: ditadura militar e ditadura midiática. Absoluta falta de democracia. Ditabrandas. O MST pode dizer algumas coisas interessantes sobre o tema. Na militar, as redações eram “controladas” por intelectuais de esquerda. A ditadura precisava de “profissionais” com outro perfil. No começo foi quase impossível. A meninada (com o diploma) mandava “bala” contra a ditadura. E os “velhos” jornalistas prestigiavam. No mínimo faziam vistas grossas. Na atualidade, o fim do diploma “flexibiliza” e reforça os cursinhos técnicos de comunicologia. Uma adequação ao Deus Mercado. A grande novidade - e a mídia corporativa precisa - será a formação de showrnalistas especializados na transmissão de infográficos online. Ou de “especialistas” em segurar microfone. Isso tudo é uma grande piada.

       Está aberta, no entanto, a possibilidade de implodirmos com os cursos de “comunicologia”, pela esquerda. Está aberta a possibilidade de formação de JORNALISTAS marginais, subversivos e da periferia. Estes cursos populares darão prioridade à formação do caráter. Não esquecendo, é claro, que a esquerda sabonete é um zero à esquerda. Uma idéia anarquista. Em 20 anos de Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS) nunca tive um aluno negro que não fosse africano. Não tive em aula um estudante de JORNALISMO morador da Lomba do Pinheiro (periferia de Porto Alegre). Estamos de olho na possibilidade de construção de ESCOLAS DE JORNALISMO na periferia. Currículo de AgiProp (agitação e propaganda). Contra o sistema. Luta de classes existe, sim. O “showrnalismo” que a mídia corporativa faz ficará “melhor”. Zerolândia ficará melhor “qualificada”. Especialistas (não diplomados) poderão brilhar.

       Comecei na profissão com Marcos Faerman (Marcão), trabalhei com Pilla Vares, João Aveline e José Onofre; tive aulas de marxismo e de jornalismo com Marco Aurélio Garcia, criador do primeiro Caderno de Cultura de ZH; também tive algumas lições de jornalismo com Jefferson de Barros. JORNALISTAS eram intelectuais e de esquerda. O diploma que predominava era o de advogado. Nenhum jornalista da República de Livramento (Bicudo e outros) tem diploma. Acho que o Trindade e o Vieira também não. Boa parte da redação da Folha da Manhã, da Caldas Junior, não tinha diploma. O decreto que cria a habilitação em Relações Públicas, dentro dos cursos de “comunicologia”, foi assinado pelo Jarbas Passarinho e o Delfim Neto. Não consegui o registro por ter passado uma temporada na cadeia. Fui obrigado a fazer a faculdade. Tenho o tal do diploma. Sou professor por um descuido do sistema.

       Os atuais cursinhos técnicos de “comunicologia” continuarão formando o pessoal que é treinado para escrever 30 linhas. (ponto) Bons de telefone. (ponto) Ou então com qualificação para buscar release na Secretária de Segurança Pública. (ponto). Para os que possuem o DNA da profissão o diploma é um detalhe. E quando não existia Internet o cara “cascateava” e não tinha como denunciar. A informação ficava restrita ao meio profissional. Agora, o cara “cascateia” e um blogueiro (não showrnalista) denuncia e é processado. A rede de conivências corporativas é silenciosa. Só faz estardalhaço na defesa da “liberdade de imprensa”, deles. Os atuais “showrnalistas”, todos diplomados, são e continuarão sendo cartógrafos do sistema. Mapeadores serviçais das elites. Nenhum dos 30 melhores alunos que tive em 20 anos de Fabico trabalhou em Zerolândia, poucos andaram (passagens rapidíssimas) por outros veículos da mídia corporativa e todos, literalmente todos, exercem a profissão comprometidos com a vida. Acho que dei minha contribuição na formação destes JORNALISTAS. Para todos eles o diploma foi um detalhe. Uma imposição burocrática e autoritária. Quase sempre de professores que não deram certo na profissão. Ou de acadêmicos que nunca passaram nas proximidades de uma redação.

       O que vai acontecer? Não sei. A todos os piratas, hackers e anaquistas e loucos, de um modo geral, desejo sucesso na multiplicação dos espaços de liberdade. A clandestinidade exige atenção, humildade, intuição e pode ser o caminho para o exercício do JORNALISMO com o velho sentido da profissão. Propomos a multiplicação de panfletos eletrônicos. A realização de bacanais. De orgias eletrônicas panfletárias contra o sistema. Pela realização dos prazeres criminosos e ilegais. Abandonamos a idéia dos piquetes. O melhor é vandalizar. Não significa porra nenhuma protestar. Queremos atos de desfiguramento. Não aceitamos os estúpidos desperdícios como, por exemplo, a imensa quantidade de papel gasto em jornais de merda. Lutamos pela destruição dos símbolos dos impérios da “comunicologia”. Zerolância é criminosa. Aliena. O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Nunca esteve. Acabou. (ponto) Fotografem a miséria conversando com os miseráveis. Aprendendo com eles. Pela ação dos marginais, dos que estão à margem, avançamos contra a barbárie.

       Jornalistas, como agentes da subversão, nunca se inscrevem para concorrer a prêmios. E muito menos ainda para o Prêmio Ari-Gó. Não são os “showrnalistas” que são premiados, mas as empresas para quais vendem  a alma. É tudo matéria 500. É parte da política de relações públicas. A Esso criou o Repórter Esso para combater a campanha do Petróleo é Nosso. E o “camarada” Lula poderá ser presidente do Banco Mundial.

        Viva Hélio Oticica e os parangolés!!!  Queremos tudo Zensentido. Glauber Rocha não tinha diploma de porra nenhuma. E, assim, ameaçava a burguesia. Como dizia o velho guerreiro Chacrinha: “quem não se comunica se trumbica”.

                        Mil desculpas

                        se às vezes

                                perco o ímpeto

                        radical

                                       Da raiz

         PALAVRAS como estiletes

                                    CORTANTES.

* Wladymir Ungaretti é jornalista e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Comentários - 20

Página 1
...  

1 Victor Pinto Viana - 23-06-2009 - 19:52:53h

Estou repassando ( creditando a autoria e fonte )


Muito bom seu texto, gostei muito de tudo que o Sr. falou estou postando em meu blog, com a fonte e seu nome é claro!

http://victorvianabuzioscuringa.blogspot.com/ è o link do meu blog

2 Marcelo Rodrigues - 23-06-2009 - 20:18:44h

Também sou contra o diploma...
mas acho que o professor bebeu perfume antes de escrever esse texto. Que maluquice!

3 Pablo - 23-06-2009 - 22:51:28h

mas gostei muito
Não entendi muita das gírias, mas gostei muito!!!
parece que pela primeira vez alguém falou a verdade sobre o assunto. Mas é isso mesmo,
a análise tem que partir das grandes corporações e seus vedetes, essa liberdade de expressão é na verdade
liberdade de opressão!

valeu Ungareti!

4 Heitor - 24-06-2009 - 02:29:31h

Pois é!
Achei seu texto muito interessante professor, e isso nos leva também a repensar que tipo de profissionais a universidade hoje em dia forma. A universidade pública hoje, se faz em sua grande maioria por estudantes de classe média, que por sinal acabam por vezes reproduzindo uma política pequeno burguesa no ãmbito universitário. Eu me pergunto, onde estão os antigos marxistas e revolucionários, hoje professores e acomodados??? Professor, acho que seu artigo é uma arte, uma esperança dentro do meio universitário, ainda mais em tempos como este, meio sombrios!!

5 Mariano Senna da Costa - 24-06-2009 - 08:03:08h

Ave Wladymir...
Ungaretti, eh so impressao minha ou estais assumindo a lideranca de uma TAZ da imprensa tupiniquim? Ja passou da hora, ne? "ZH eh criminosa"! Se precisar de um auxiliar, office boy, ou mesmo um "sota capataz" eh so dizer... estou a disposicao...

6 João Carlos da S. Feital - 24-06-2009 - 10:56:22h

Diploma de Jornalismo
Primeiramente,achei muito interessante a maneira como o texto está escrito, outra coisa é a sinceridade em relação ao tema , principalmente em se tratando de um jornalista opinando. Bem , ainda assim , acho o tema polemico e acredito que tenham outros interesses envolvidos, que nem eu, e n talvez nem o professor Ungaretti tenha conhecimento.Por outro lado, acho interessante que temas como este eoutros somente ganhem projeção quando chegam ao STF. Grato pela oportunidade. João Carlos / Rio de Janeiro

7 Azarias - 24-06-2009 - 15:50:12h

Papo de Jornalista...
Pelos estiletes cortantes, pareces primo-irmão de Gilberto Felisberto Vasconcelos (Caros Amigos).

8 Azarias - 24-06-2009 - 15:55:51h

Diploma de Jornalismo?
Estes estiletes cortantes, pareces primo-irmão de Gilberto Felisberto Vasconcelos (Caros-Amigos).

9 luis fernando - 26-06-2009 - 12:44:45h

diploma
sensacional texto amigo
www.sinapseoculta.blogspot.com

10 Zé Luís - 26-06-2009 - 13:46:25h

Seu texto está corretissímo
Porém esqueceu de citar, que o maior hipócrita de todos nessa história é vc mesmo =D

11 Marcos - 28-06-2009 - 16:54:55h

Não obrigatoriedade de diploma de jornalista.
Algumas questões merecem compor este debate:
- A não obrigatoriedade do diploma beneficia autodidatas e jornalistas marginais, mas igualmente "jornalistas" que fazem o jogo sujo do poder, já que ocupam aquele lugar típico dos que têm má formação intelectual, espécie de "inocentes úteis" que divulgam aos quatro cantos todos os tipos de preconceitos e estigmas, especialmente quando este tipo de jornalista aborda "movimentos sociais", grevistas e irreverentes.
- Trabalhadores (neste caso, jornalistas) pugnarem pela desqualificação do trabalho, barateamento de si mesmos, estão a dar tiros no próprio pé, já que por uma questão de antagonismo social, seria o caso de pôr inputs no trabalho, não no capital. Vide atual estado de fragmentação dos trabalhadores enquanto o capital atinge níveis de acumulação elevadíssimos.
- O Judiciário está fazendo a vez de Poder Legislativo, quando se trata de uma instituição não eletiva, que muito lembra uma corte de direitos hereditários.
Ninguém gostaria de entregar um filho para ser operado por um médico sem formação, o que pode significar sem diploma. Sei que o caso do jornalismo é um pouco diferente. Agora,tem-se de exigir de alguma forma, e talvez isso implique sim em diploma, que o jornalista tenha formação, estudo, etc. E ainda que se possa argumentar que o sistema universitário brasileiro tenha se tornado um colegião de formação de papagaios lacaios do poder ou de meros feitores do sistema de produção, estudar profundamente é sempre importante, o que tantas vezes significa cursar universidade. Se alguém se torna socialista, marxista, anarquista, ou sei lá o quê, já que demoraria para explicar essas coisas, é porque deve chegar a isso, e um dos principais caminhos (senão o principal) é o estudo, a curiosidade nutrida sistematicamente. É viver, na prática, claro, mas olhando para a vida com olhar teórico numa via de mão dupla; do empírico para o teórico, do teórico para o empírico. O anti-intelectualismo, embora possa não parecer numa primeira olhada, pode ser extremamente conservador e lacaio do poder. E, sobretudo, tomemos sempre cuidado, pois anjos tortos adoram ouvir nossas preces. Digo, o que às vezes aparece como emancipação pode nos ser nova prisão. Uma boa saída poderia ser os trabalhadores criarem suas próprias universidades ao invés de desqualificar o ato de cursar uma. A burguesia foi revolucionária e mudou o mundo porque, além de contestar, substituía...

12 marlon - 29-06-2009 - 16:45:37h

diploma de jornalista
O texto é muito bonitinho, estilo anos 60, mas peca pelo tom confuso e pela nostalgia de uma época que não há mais. Cai na real, jornalista e professor, essa utopia sua não existe e se você radicalizou e porque não sabe defender seu ponto de vista, que na verdade é A FAVOR do diploma. Está na cara! Só você não entendeu, está se auto-flagelando.

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