“Continente precisa de novo ciclo de lutas”
Para o jornalista e escritor uruguaio Raúl Zibechi, a América Latina deve se preparar para conter as investidas do Império para desestabilizar experiências à esquerda
20/01/2010
Dafne Melo
da Redação
Em 2009, o continente latino-americano viu um golpe de Estado em Honduras e assistiu um de seus países, a Colômbia, entregar sete bases militares aos Estados Unidos. Mas também viu uma vitória eleitoral acachapante de Evo Morales na Bolívia e um certo fortalecimento da articulação de espaços continentais de integração, como a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) e a União das Nações Sul-americanas (Unasul).
Para o ano que vem, um dos temas mais sensíveis da conjuntura latino-americana será certamente as relações entre Colômbia e Venezuela que, não por acaso, estão sob o comando dos presidentes mais radicalizados: Hugo Chávez, idealizador do projeto da Alba, de um lado, e Álvaro Uribe, maior aliado do Imperialismo estadunidense na região, do outro.
Para o jornalista e escritor uruguaio Raúl Zibechi, editor do jornal Brecha, dificilmente se verá uma guerra no sentido clássico – exército contra exército –, mas sim uma tentativa, por parte dos Estados Unidos, de desestabilizar, aos poucos, o governo Chávez, e, de quebra, o projeto bolivariano. “Ou seja, uma guerra de baixa intensidade para sangrar a Venezuela aos poucos, ameaçar sua estabilidade politica e econômica para criar as bases de una fratura social ainda maior”, analisa Zibechi. Segundo ele, toda essa estratégia conta com a cumplicidade colombiana, que tenta amenizar a presença estadunidense usando como justificativa as “tradicionais” desculpas: combate ao narcotráfico e à guerrilha.
A julgar pelo papel dos Estados Unidos em Honduras, o projeto bolivariano parece ser mesmo o alvo. Ainda que tenha feito todo um jogo de cena, não resta dúvidas de que o golpe de 28 de junho contou com apoio do Departamento de Estado. “Os Estados Unidos não podem se suicidar. Sua hegemonia mundial e regional está em declive, há uma evidente deterioração dessa hegemonia. Para evitar isso, para tornar lenta a inevitável queda, acredito que eles têm que ganhar força no seu quintal, impedir que existam países que possam vir a escapar de seu controle”, avalia. Leia, a seguir, a entrevista com o militante uruguaio.
Brasil de Fato – Nos últimos meses, houve um golpe de Estado em Honduras, relatos de tentativas de golpes na Nicarágua, Guatemala e Paraguai, além da oficialização do acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos. Há uma contra ofensiva da direita na América Latina?
Raúl Zibechi – Há um claro avanço da direita em toda a região. A direita se sente animada ao ver que Barack Obama não mudou o fundamental na atitude dos EUA em relação à América Latina. Por outro lado, há um esgotamento dos governos progressistas na região. Na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, ninguém espera mudanças de fundo pela via eleitoral neste momento. Minha impressão é que nesses países a direita avança, porque tem crescido no aspecto econômico e social: avanço do agronegócio, nos meios de comunicação monopolistas, do modelo extrativista. Ou seja, a direita avança onde os governos têm dado facilidades às transnacionais e às classes dominantes. Nem todos os problemas vêm do imperialismo, mas também da vontade dos ditos governos progressistas de desmobilizar as sociedades.
Você acredita que há diferenças entre as políticas para a América Latina entre os governos Obama e Bush?
Poucas. Há um discurso mais aberto, há um maior jogo com as palavras, como fez Obama em Oslo ao receber o Nobel da Paz, onde falou de sua simpatia pelos oprimidos. Mas, na realidade, seu governo apoiou os golpistas em Honduras e a instalação das sete bases na Colômbia. Isso marca uma direção de maior presença militar, de resolver pela via autoritária os conflitos sociais e políticos.
Como explicar o papel dos EUA em Honduras? O reconhecimento das eleições por parte deles é a consolidação do golpe?
Os Estados Unidos não podem se suicidar. Sua hegemonia mundial e regional está em declive, há uma evidente deterioração dessa hegemonia. Para evitar isso, para tornar lenta a inevitável queda, acredito que eles têm que ganhar força no seu quintal, impedir que existam países que possam vir a escapar de seu controle. A América Latina é chave nesse sentido, já que fornece de 25 a 30% do petróleo que os EUA importam. Existem matérias-primas chaves: ouro, prata, lítio... mas, para além disso, há uma rica biodiversidade para construir novas mercadorias na área de biotecnologia e nanotecnologia. Isso impõe controle, domínio territorial direto. Vamos a um período muito duro, de confrontação militar e de ameaças contra as quais somente a Venezuela está se preparando e, em alguma medida, o Brasil.
Com o reconhecimento das eleições hondurenhas pelos EUA, que saídas ficam para o povo hondurenho? Que consequências traz para o continente a consolidação de um golpe de direita?
Só um levantamento popular, como um grande Caracazo [levante popular na capital venezuelana em 1989, contra medidas neoliberais do governo de Carlos Andrés Perez) ou como em El Alto, na Bolívia [cidade que fez levantes contra privatização do gás e da água em 2003 e 2005, respectivamente] pode alterar o cenário. Mas, a curto prazo, não vejo força social em Honduras, país que vem de um longo processo de militarização.
O conflito entre Colômbia e Venezuela é o lado mais sensível da conjuntura hoje? Acredita que há riscos de um conflito aberto entre estas nações?
Acredito que sim, mas não uma guerra entre dois exércitos, mas algo pior: uma situação de desgaste como a que sofreu a Nicarágua depois da Revolução Sandinista. Ou seja, uma guerra de baixa intensidade para sangrar a Venezuela aos poucos, ameaçar sua estabilidade politica e econômica para criar as bases de una fratura social ainda maior. Isso levaria, segundo creem os estrategistas do Pentágono, à derrota de Hugo Chávez ou a um regime mais autoritário que estaria muito isolado em um contexto internacional cada vez mais à direita.
É do interesse dos Estados Unidos aumentar as tensões entre os dois países?
Sem dúvida. Acredito que os Estados Unidos apostam na polarização, no desgaste duro de Hugo Chávez. A via da tensão é a melhor para seus interesses.
Entre os fins de 2009 e 2010, diversos países – Chile, Uruguai, Bolívia, Brasil, Colômbia – escolheram ou escolherão seus presidentes. Como o campo institucional pode alterar a conjuntura?
Acredito que o ponto crítico é o Brasil. Como disse o sociólogo Chico de Oliveira, não há nada em jogo nessas eleições porque as diferenças entre PT e PSDB são cada vez menores. Mas acredito que se o PT perder será um sinal de direitização de toda a região, um claro sinal do avanço da direita. Acredito que é um cenário similar ao do Chile: é difícil de engolir alguém como Eduardo Frei Ruiz-Tagle [da Concertação, aliança entre o Partido Socialista e o Partido Democrata-Cristão] só porque o candidato da direita é pior. Quando governou o país [entre 1994 e 2000], Frei privatizou, houve corrupção, reprimiu os mapuche. O que pode ser pior que isso? Mas os “progressistas” no poder sempre usam esse argumento de que pior que eles é a direita. Acredito que é necessário começar a dizer que “o mal menor” não é bom argumento.
Diante das dificuldades, como fortalecer os caminhos alternativos para o continente? Qual seria esse caminho?
Acho que estamos diante de uma encruzilhada histórica da qual só poderemos sair com um novo ciclo de lutas. É mais ou menos a posição do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): não é bom brigar para saber se vamos votar em Lula ou José Mujica [eleito recentemente presidente do Uruguai] ou se não votamos neles. Isso é secundário. O decisivo é sermos capazes de organizar, mobilizar e criar uma nova correlação de forças que saia das ruas, o que só acontece hoje na Bolívia. A principal dificuldade para isso é a falta de clareza política e ideológica, a confusão que tem introduzido o Bolsa Família e todos esses programas que alguns consideram como conquistas mas que na realidade são formas de controlar os pobres, enquanto se militarizam as favelas e se continua a beneficiar o agronegócio.
Nesse sentido, qual sua avaliação sobre algumas iniciativas de integração como a Alba, Unasul, Conselho de Defesa da América do Sul etc?
Simpatizo mais com a Alba do que com Unasul. Acredito que a integração tem que ser feita rompendo-se com o livre mercado. E acredito que América do Sul deve defender-se do Império. Como se vê, há uma contradição: os governos progressistas mostram essa faceta mais na política internacional do que internamente, mas isso também é importante, porque a conjuntura internacional condiciona muitas outras coisas.