Caso Isabella: quando a morte vira um espetáculo
Em entrevista, o professor da USP Dennis de Oliveira afirma que a intensa cobertura dos meios de comunicação do assassinato da menina de 5 anos é feita à moda de uma teledramaturgia
Tatiana Merlino
da redação
A morte da menina Isabella Nardoni, de cinco anos, foi transformada em uma telenovela, que a cada dia traz uma novidade da trama. “Mas como o processo desse caso nem sempre traz coisas novas a todo dia, há uma busca por boatos e fatos sem relevância que vão recheando as informações”, afirma o professor Dennis de Oliveira, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e coordenador do curso de especialização em Mídia, Informação e Cultura da mesma universidade.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Oliveira explica que o fato do caso ter virado um “espetáculo, é reflexo da crise do jornalismo tradicional, que perdeu de vez a função de fomentar o debate público, e cada vez mais está se aproximando dessa linguagem midiática do espetáculo para manter seus leitores”. Pai e madrasta de Isabella são acusados pela morte da menina, atirada de uma janela do sexto andar do Edifício London, na Vila Isolina Mazzei, Zona Norte da capital, em 29 de março.
Brasil de Fato – Como o senhor avalia a maneira que a mídia está cobrindo o caso da morte da menina Isabella?
Dennis de Oliveira – Acho que está havendo uma espetacularização do fato. Os jornais estão trabalhando na perspectiva de construir uma grande trama novelística, na idéia de ter a cada dia uma novidade. Mas, como o processo desse caso nem sempre traz coisas novas a todo dia, há uma busca por boatos e fatos sem relevância que vão recheando as informações. A partir do momento que esse processo vira dramaturgia e é novelizado, acaba causando essa histeria, essa postura de linchamento que a população está tendo em relação aos acusados, suspeitos.
Essa narrativa de novela segue a lógica de dar todos os dias uma informação nova, mesmo que não haja uma novidade?
Sim, de criar uma trama diária. Por exemplo, a cada dia, boatos, insinuações e informações não comprovadas acabam tendo um destaque que não teriam se o assunto fosse outro. Na busca por ter sempre um espaço diário e de criar essa narrativa, informações que não são comprovadas e que não tem relevância acabam tendo um espaço de notícia.
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Acho
que é reflexo da crise do jornalismo
tradicional, que perdeu
de vez
aquela função de fomentar
o debate público
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A que o senhor atribui essa espetacularização do caso?
Acho que é reflexo da crise do jornalismo tradicional, que perdeu de vez aquela função de fomentar o debate público, e cada vez mais está se aproximando dessa linguagem midiática do espetáculo para manter seus leitores. Como existe essa pressão comercial para o jornal vender e para manter a audiência, a busca por uma linguagem que é mais familiar, que tem mais apelo popular como a linguagem da teledramaturgia acaba sendo a saída para o jornalismo. Com essa preocupação cada vez maior de vender, ter lucros, inserção na vendagem - uma preocupação cada vez maior e que até se sobrepõe à preocupação social do jornalismo- acaba levando a esse tipo de estratégia, de incorporar uma dimensão mais da teleficção.
De acordo com uma pesquisa da CNT Sensus divulgada no fim de abril, 98% da população afirma ter conhecimento do caso da morte da menina Isabella Nardoni.
Há
um artigo do psicanalista Contardo Calligaris sobre esse caso que
mostra que essa histeria que se apresenta na sociedade contra o casal
acusado tem muito a ver com a necessidade das pessoas afastarem
temores que fazem parte do seu próprio dia-a-dia. O Contardo
questiona o seguinte: “quantas pessoas que estão lá
presentes nesses atos histéricos não maltratam suas
crianças?”. E, em que momento a imprensa tem se preocupado em
falar sobre o problemas da infância no Brasil, as crianças
de rua, a desagregação familiar, quantas vezes essas
coisas aparecem na imprensa? Claro que a morte da menina é uma
coisa grave, mas a impressão é que isso não
acontece no nosso dia-a-dia, e se tornou uma coisa excepcional. Isso
acontece no cotidiano, é uma coisa quase que recorrente, mas
se coloca como se fosse um demônio a ser exorcizado. Assim, não
se enxerga isso como problema de uma sociedade.
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Em que momento a imprensa
tem se preocupado em
falar
sobre o problemas da
infância no Brasil, as crianças
de rua, a desagregação familiar,
quantas vezes essas
coisas
aparecem na imprensa?
A morte do menino João Helio, em fevereiro de 2007, teve uma cobertura grande da imprensa, mas nada comparada à cobertura da morte de Isabella. A que pode ser atribuído esse exagero?
A imprensa está perdendo seu impacto. Uma coisa interessante é que no campo da política há uma ofensiva imensa contra o governo atual, mas mesmo assim ele continua com uma enorme popularidade. A agenda que ela coloca como prioridade não tem repercutido em amplos setores da população. Por conta disso, há um descrédito da imprensa. Então essa busca por aspectos mais sensoriais das pessoas, envolvendo valores de família, relação pais-filha, esses elementos caros a uma cultura marcada pelo cristianismo como a nossa, acaba sendo uma estratégia da imprensa para reconquistar um espaço entre os leitores. Vale lembrar também que há um fantasma que ronda a imprensa, da Escola Base.
O jornalismo tem trabalhado com uma coisa que eu chamo de “jornalismo receiver”, ao amplificar vozes que estão expressando suas opiniões no caso, sem ter a preocupação de contextualizá-las e de dar a dimensão à elas. Assim, um boato sobre alguém que está envolvido nesse caso, tem a mesma importância que uma prova que a polícia tem. Um vizinho que falou que ouviu algo tem o mesmo peso que uma prova do IML. Essa informação que a imprensa vai passando é absorvida porque ela não apresenta primeiro um grau de hierarquização dessas vozes todas.
Esse exagero na cobertura da imprensa pode ser explicado pela concorrência entre as emissoras?
Sim, o mercado acaba levando a isso. Cada um fica tentando tirar uma casquinha do ponto de vista do mercado desse grande espetáculo. A Record cobriu quase que em tempo real a reconstituição do crime, ficou por oito horas no ar, o que é absurdo, não precisava daquilo. Não tinha nada de relevante naquela cobertura, foi apenas um grande show.
O fato de ter sido a morte de uma menina branca, de classe média, de São Paulo influiu para o destaque dado ao caso?
O perfil dos suspeitos do crime não se enquadra no estereótipo de lugar onde acontece a violência. Se o caso tivesse ocorrido na periferia, sairia uma notinha e ponto. Porque no caso da periferia há um estereotipo de que lá a violência é mais banalizada.
Quando o caso é na classe média, acontece uma consternação, como houve no caso de Suzane von Richthofen. Há um perfil tanto de lugar, o prédio o bairro, as pessoas, que não se enquadram naquele estereótipo de onde acontece a violência. Então, o que mobiliza a imprensa é essa idéia de consternação com isso. O público pensa “Podia ser eu”, e questiona “por que uma pessoa como essa poderia ter essa atitude”?
A consternação e a postura histérica acontecem porque esse padrão de vida da classe média de comportamento, de valores que são a referência para o discurso da grande imprensa, acaba mostrando sua limitação quando acontece uma coisa como essa. Daí a consternação e a explicação do caso por meio da demonização da pessoa. (Leia mais na edição 271 do jornal impresso)
Caso Isabella Nardoni
No caso Isabella Nardoni, sobre a prisão preventiva decretada pelo MM. Juiz, da forma e pelo motivo que foi noticiado, é bom refletir.
Prender criminosos (no caso, ainda inocentes) para, ao final, reintegrá-los à sociedade retirando sua liberdade é grandemente utópico, e um paradoxo. Se o fim da pena, pelo menos é o que se diz, é a reeducação do apenado e seu regresso ao grupo, não se pode treiná-lo, portanto, para a liberdade, privando-o de sua liberdade. Porque ninguém cursa uma faculdade de física, por exemplo, para, ao final, quando formado, exercer a profissão de médico. E vice-versa. Seria um contra senso buscar a liberdade de alguém numa prisão.
Se é para punir, que se procure um objetivo. Prender apenas porque é conveniente para a sociedade, como uma resposta à impunidade, então, com maior razão, também havemos de ser todos punidos, especialmente por omissão, por não cobrarmos de órgãos públicos melhores condições de saúde, educação, segurança, lazer etc. Pense: quantos casos semelhantes ao da Isabella Nardoni já foram noticiados? E mais, o que fazemos ou fizemos no cotidiano para diminuir a violência?
Não podemos negar que qualquer um, naquela situação, estaria propenso a cometer o mesmo erro, com menor ou maior grau de crueldade. Enquanto não vivemos o problema alheio, estamos isentos das motivações, dos sentimentos exaltados, é fácil dizer que reprovamos terminantemente aquela conduta, ou ainda, que nada justifica uma atitude extrema como um assassinato. É fácil repreender um indivíduo que furta um pão, alegando que isso jamais se justifica, por mais precária que seja a situação de vida, se temos comida em casa e se, quando repreendemos, estamos de barriga cheia.
Mas, infelizmente, o que vem se passando na TV, não só neste caso, é que, quando nos identificamos com a vítima, procuramos de algum modo buscar meios para condenar (arbitrariamente, sem o devido processo legal) os autores; se nos identificamos com os Alexandres Nardoni’s da vida, (não no sentido de carrasco, mas de uma conduta infeliz e impensada, um infortúnio), ou até com o Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite, nós atenuamos-lhes a culpa (Paulo Queiroz). É algo absolutamente normal, inerente ao ser humano.
Nada justifica jogar um semelhante pela janela, é claro. Como também nada justifica violar um direito. Porque matar alguém, assim como prender alguém sem motivo algum (e esse motivo algum entenda como os requisitos que autorizam a prisão preventiva) são atitudes ilícitas.
Qual a diferença entre um indivíduo que furta o relógio de um turista rico e um político que desvia uma verba milionária da Saúde? Ambas são condutas ilícitas. Mas qual delas reprovamos mais? Depende do que for mais conveniente para nós.
A questão primordial não é saber se o casal é o ou não culpado ou se merece ou não uma punição, até porque isso cabe ao Judiciário; mas repensar sobre como pré-julgamos alguém diante de uma situação de alarde propagada pela TV. Lembremo-nos, sempre: ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (art. 5°, inciso LVII, Constituição Federal).
Pensando bem, querendo ou não, “criminosos” somos todos nós, seja deixando de pagar impostos, seja “colando” em sala de aula, seja através de nossos preconceitos, de nossa indiferença. Uma conduta reprovável é sempre uma conduta reprovável, não importa se criminosa, imoral ou antiética. Somos, em potencial, ao mesmo tempo vítima ou criminoso; de acordo como encaramos esses conceitos. Na verdade, quase sempre, dependerá do que for conveniente para nós.
Uma revolta popular muito sadia
No meu ver acho otimo que os brasileiros se sintam profudamente revoltados com o caso de Isabella,seja pela influencia da midia ou nao.O que seria de estranhar é se ninguem se importasse com esse crime hediondo ,que nao tivessem compaixao pela morte dessa menina.Revoltar é um sentimento de saude mental?.Esperar o que ? que apareçam novos possiveis culpados.? Sou brasileira mae e avo' e moro na Suiça ha quasi quarenta anos e mesmo aqui acho que um crime desses teria a mesma repercurçao,mesmo aqui onde o povo é frio e controlado.Ate que nao se prove que a madrasta é psicologicamente uma doente mental .Acho otimo e tenho orgulho do meu povo por ainda mostrar que nao é possivel aceitar o inaceitavel.
Um jornalismo em crise.
Infelizmente poucos são instrumentos de comunicação, que nos passam uma confiança quando nos imformam sobre o que estar acontecendo no mundo. Um exemplo disso é que a mídia tem de maneira indireta condenado o pai e madastra da pequena Isabella. Sendo que a justiça não deu veredito final. A busca pela audiência fez a Globo transmitir uma entrevista que amentou a revolta no povo brasileiro. A frase "quero justiça" sou como tom acusador. Peço que antes de aumentar o desejo de vingança nas pessoas, os redatores das emissoras se façam a seguinte pergunta:Tenho dado a este casal o direito da dúvida? Ou será que como jornalistas vocês não fazem as perguntas certas?
Caso Isabella: quando a morte vira um espetáculo
O caso na minha opinião está sendo utilizado para afastar o que ocorre com o governo atualmente. Temos que lembrar que JÁ ESTAMOS 2 MESES FALANDO DO ASSUNTO!!!! Enquanto isso o dossiê das contas de FHC foi enterrado, a ministra do meio-ambiente, Marina Silva, pediu demissão de maneira muito estranha ao meu ver. Fora que Dilma Russef vem ganhando cada vez mais espaço na mídia, porém como política e não pelo cargo, pois isso vem sendo ocultado por conta d caso Isabella.
ACORDA BRASIL !!!!!!!
Não que a vida da menina não tenha valor, mas isso é um problema que acontece constantemente nas classes mais baixas, mas é lógico não viram notícia.Todavia, acho que devíamos cuidar mais dos nossos governantes, os quais representam a nação, do que nos preocupar com homicídios que infelizmente são comuns na nossa sociedade.
REpito: ACORDA BRASIL!!!!!, DOIS MESES DE ISABELLA.











Caso Isabella e espetaculização do tema.
Centenas de casos semelhantes não são noticiados. Alguns casos (como o avião da TAM) entram na mesma linha, porque afetam classe média alta. Viram notícia, explorada à exaustão, beirando o mórbido e cauterizando nossa capacidade de indignação. É pura vulgarização. Pobre, quando morre, vira ESTATÍSTICA. E olha lá,... . Rico é NOTÍCIA!!! Os reais problemas e causas sociais não são debatidos por essa mídia. José Arbex (Showrnalismo) está certo.