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Contra o monopólio dos meios, documentário incita: “Levante sua voz”

by Admin last modified 2009-11-17 15:13

De forma didática, o vídeo desmistifica o conceito de liberdade de expressão no Brasil, revelando que apenas 11 famílias o espectro eletromagnético


16/11/2009


Patrícia Benvenuti

da Redação



Incentivar o debate sobre o direito à comunicação no país, partindo da denúncia sobre a concentração da mídia. Esse é o objetivo do vídeo "Levante Sua Voz", realizado pelo Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social com apoio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung.


De forma didática, o vídeo desmistifica o conceito de liberdade de expressão no Brasil, revelando que apenas 11 famílias controlam praticamente todas as concessões públicas para emissoras de rádio e televisão. Ao mesmo tempo, revela-se a perseguição às tentativas de furar esse bloqueio midiático, como é o caso das rádios comunitárias que, nos últimos anos, foram fechadas em número recorde.


Para o militante do Intervozes e responsável pelo roteiro, direção e edição de "Levante Sua Voz", Pedro Ekman, "o vídeo é uma tentativa de levar um tema com toda a sua profundidade e importância por meio de uma linguagem mais acessível a um público não acostumado aos textos geralmente complexos".


Em entrevista ao Brasil de Fato, Ekman comenta a produção do vídeo, os desafios para construir uma comunicação mais democrática e as expectativas para a 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que acontecerá entre os dias 14 e 17 de dezembro, em Brasília.


Como surgiu a iniciativa de realizar esse vídeo?

Pedro Ekman: O Intervozes, estudando novas formas de se travar o debate sobre o direito à comunicação, entendeu que uma produção áudio visual cumpriria o papel de ampliar esse tema para um público menos especializado do que o que é atingido pelos textos, livros e estudos disponibilizados pela entidade. O vídeo é uma tentativa de levar um tema com toda a sua profundidade e importância por meio de uma linguagem mais acessível a um público não acostumado aos textos geralmente complexos.



Como se deu a produção?

Inicialmente é importante lembar que tivemos o suporte de muitos parceiros do movimento social que ajudaram com infraestrutura técnica sem os quais essa produção seria impossível. Como contávamos com pouco dinheiro, tínhamos que pensar um roteiro capaz de descrever a dramática situação da comunicação no Brasil em sua complexidade sem que fosse preciso uma produção dispendiosa. Optamos por um formato inspirado no curta "Ilha das Flores", de Jorge Furtado. Esse formato conta de uma forma bem humorada a dura situação da desigualdade social brasileira. A estrutura se resume a uma narrativa em off e uma sucessão de imagens que se repetem. A locução em off facilita tecnicamente as gravações nas locações e acaba barateando o processo; por outro lado, a televisão brasileira nos fornece um rico material dos contraexemplos de uma comunicação razoável. Assim, entendemos que o formato do "Ilha das Flores" resolvia a equação "baixo orçamento x conteúdo extenso".



Como está sendo a divulgação e a recepção desse material?

O vídeo foi lançado na internet pelo portal do Observatório do Direito à Comunicação e pode ser visto no YouTube também. Em breve o Intervozes disponibilizará o arquivo para ser baixado em sua página institucional. Importante lembrar que os direitos sobre a obra estão em Criative Commons, possibilitando sua livre reprodução, manipulação e distribuição em atividades não comerciais. Estamos tentando viabilizar cópias em DVD para distribuir para os movimentos sociais parceiros na luta pela democratização

do comunicação. A recepção do vídeo tem sido muito boa, em menos de uma semana mais de 1000 internautas assistiram ao vídeo e os comentários registrados no site do Observatório têm sido muito positivos.



Na sua avaliação, quais os desafios para conscientizar a população sobre a existência desses oligopólios de mídia?

O maior desafio talvez seja justamente encontrar meios para furar a muralha de informação que o próprio oligopólio levantou ao seu redor para impedir qualquer crítica ao seu funcionamento. Para isso, acredito que temos que multiplicar os instrumentos de fala contra-hegemônica e encontrar linguagens que dialoguem com o maior número de pessoas possível. Não vamos conseguir vencer um oligopólio que tem inúmeros veículos e que trabalha numa linguagem popular com poucos veículos que insistam em uma linguagem hermética. A multiplicação de meios de comunicação contra hegemônicos não é uma coisa simples por todos os motivos que o vídeo descreve, mas a opção por uma linguagem menos hermética é algo que podemos fazer e é algo que ainda encontra muita resistência, mesmo na esquerda brasileira. Eduardo Galeano escreve sobre isso de forma memorável. Ele diz: "A linguagem hermética nem sempre é o preço inevitável da profundidade". Em alguns casos pode estar simplesmente escondendo uma incapacidade de comunicação, elevando-a à categoria de virtude intelectual. Suspeito que o fastio serve, dessa forma, para bendizer a ordem estabelecida: confirma que o conhecimento é um privilégio das elites. Algo parecido costuma ocorrer, diga-se de passagem, com certa literatura militante dirigida a um público conivente. Parece-me conformista, apesar de toda a sua possível retórica revolucionária, uma linguagem que repete mecanicamente, para os mesmos ouvidos, as mesmas frases pré-fabricadas, os mesmos adjetivos, as mesmas fórmulas declamatórias. Talvez essa literatura de paróquia esteja tão longe da revolução como a pornografia está longe do erotismo."



O vídeo fala muito sobre os meios tradicionais de comunicação e sua influência sobre o imaginário coletivo. Você acredita que as novas ferramentas de comunicação, possibilitadas sobretudo pela internet, podem reverter um pouco desse quadro?

Optamos por nos ater aos veículos que ainda atingem as massas de forma mais concreta, como o rádio e a TV, pois eles, junto com os meios impressos, são o retrato da história de concentração da comunicação no Brasil. Mas sem dúvida a internet em um cenário de convergência tecnológica vai mexer com toda a estrutura do quadro. Principalmente no que diz respeito à oferta de canais para a veiculação de conteúdo, que são extremamente concentrados no rádio e na TV e na internet tendem ao infinito. Contudo, hoje o acesso à banda larga é muito restrito no Brasil. Sem a universalização do acesso de forma gratuita, a internet nunca se tornará a TV.



Qual sua expectativa para a Conferência Nacional de Comunicação? De que forma ela pode ajudar a construir uma comunicação mais democrática?

A Conferência possibilita, pela primeira vez, um debate público que nunca foi feito no Brasil. A comunicação é um tema historicamente inexistente para a sociedade brasileira, sendo percebida como algo natural e imutável. Mesmo os movimentos sociais mais combativos não têm a comunicação como uma de suas pautas centrais e a Conferência joga luz sobre esse assunto.


Por outro lado é uma pena que o processo esteja tão prejudicado pelas imposições feitas pelo oligopólio e incorporadas sem qualquer resistência pelo governo. A super representação do setor empresarial e a necessidade de quorum qualificado para a aprovação de qualquer proposta distorcem o sentido de uma conferência, que existe justamente para permitir que a sociedade civil tenha alguma voz, já que durante todo o ano ela permanece alijada da arena onde se travam os debates sobre a comunicação, da qual participam Poder Público e os proprietários dos grandes veículos. Além disso, a proibição de eleição de delegados e de votação de propostas nas etapas municipais as esvazia, remetendo toda a disputa para a etapa nacional, o que contraria importante princípio de uma conferência, que é justamente ampliar o debate na sociedade. Um reflexo disso pode ser visto na Conferência Municipal na cidade de São Paulo que aconteceu neste final de semana. Apesar do importante debate realizado, empresários e poder público estiveram ausentes e a conversa circulou apenas entre a sociedade civil sem que o confronto necessário das idéias e dos interesses se desse na prática. Em todo caso, se o processo entorno da Confecom servir para esquentar a pauta e mobilizar o povo em torno desse tema, ela já terá cumprido um grande papel.


Assista aqui ao vídeo.



Comentários - 6

Página 1

1 Ediith Gomes - 17-11-2009 - 21:12:01h

Levante sua Voz
Assisti ao vídeo no Youtube. É fantástico e extremamente didático. Vou divulgar. Agradeço a Deus e a coragem de alguns que, como vocês,trazem ao nosso conhecimento uma informação tão valiosa como essa.

2 Ricardo Oliveira - 18-11-2009 - 14:32:19h

Democratização da mídia
A internete chegou para ficar. Hoje, ainda que timidamente, já vem incomodando a mídia. E isso é apenas o começo. Entretanto, somente a internete não é o suficiente. É necessário e urgente a democratização dos meios de comunicação com uma radical redistribuição do espaço eletromagnético, de mameira que todas as correntes de pensamente e setores da sociedade civil tenham seus canais de expressão e produção de conteúdos. Os sites e blogs, que hoje são trincheiras de resistência, devem ser vistos como eventuais aliados. Muitos desses blogs são de profissionais empregados da grande mídia, que por sua vez não tem interesse na democratização do setor. Muitos se apresentam ao lado do governo atual,são contrários a oposição demotucana, mas não tem nenhum compromisso com a construção de um ecosocialismo democrático e a expansão da esquerda na América Latina. Muitos desses profissionais foram funcionários da criminosa globo, presenciaram a execução de várias práticas jornalísticas criminosas, mas não deixaram a empresa.
Só o fizeram anos e anos depois, principalmente com o surgimento da internete, inclusive atirando na saída. Brasil de Fato, que de fato tem o compromisso com o socialismo democrático, está de parabéns pela iniciativa de conscientizar a população para a necessidade urgente de rever as concessões de rário de TV.

3 Bettina Koyro - 19-11-2009 - 08:46:33h

Levante sua voz
Muito feliz e entrevista com Pedro Ekman. Assiti ao vídeo e fiquei encantada!! Estou aguardando que disponibilize ele em DVD - com URGENCIA, pois não consegui baixar o arquivo pela internet.
Precisamos ir aos movimentos sociais e divulgar este material - não pode ser só pela internet!!
BRASIL DE FATO - por favor ajudem numa das próximas edições - a divulgar como podemos ter acesso a um DVD do filme, nem que seja para comprar...........

4 Luiz Antonio Atibaia - 19-11-2009 - 09:03:41h

A Ditadura da Comunicação
Entendo que a liberdade de uma sociedade se mede de duas manairas, primeiro pela amplitude e qualidade de sua Educação, e depois pelo acesso a uma comunicação livre de fato, que atinja de forma plural todos os interesses espelhados em seu tecido social. A omissão do governo e o atual estado intelectual da massa, é um campo mais que fertil para o que eu chamo de "Ditadura da Comunicação Alienada" orquestrada pelos grandes grupos de comunicação, que formam modelos de beleza quase sempre eurocentricos, que rejeitam nossa história, que constroem verdades e deturpam os fatos prestando um deserviço para a alto estima de um povo a tempos docilizados como escravos, parafraseando Guy Deborn!!!

5 Luiz Antonio Atibaia - 19-11-2009 - 09:09:54h

A Ditadura da Comunicação
Entendo que a liberdade de uma sociedade se mede de duas manairas, primeiro pela amplitude e qualidade de sua Educação, e depois pelo acesso a uma comunicação livre de fato, que atinja de forma plural todos os interesses espelhados em seu tecido social. A omissão do governo e o atual estado intelectual da massa, é um campo mais que fertil para o que eu chamo de "Ditadura da Comunicação Alienada" orquestrada pelos grandes grupos de comunicação, que formam modelos de beleza quase sempre eurocentricos, que rejeitam nossa história, que constroem verdades e deturpam os fatos prestando um deserviço para a alto estima de um povo a tempos docilizados como escravos, parafraseando Guy Deborn!!!

6 Jorge Carpio Del Solar - 20-11-2009 - 20:26:43h

Comentário do vídeo
Uma reflexão da nossa realidade de alienação cultural,imposta desde a década dos 50,logo após à segunda guerra mundial para anular o pensamento marxista que estava em franco desenvolvimento na Europa e nos Estados Unidos da América,América Latina,Asia e Africa.Existe um livro com o título QUEM PAGOU A CONTA/ que relata esse processo da atuação da CIA,com a ajuda das Fundações Norteamericanas que com muito dinheiro conseguiram destruir toda a cultura ocidental em 30 anos deixando o pensamento universal decadente,alienado,órfão de novos pensadores em todo o sistema de criação,desenvolvimento e construção da crítica e autocrítica deste período que teria sido rico na história da nossa civilização.
O vídeo é uma iniciativa válida e oportuna par discutir o caos em que nos encontramos. Felitaçoes.