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'Há muita demagogia sobre a honestidade política das elites rio-grandenses', diz Maestri

by paula last modified 2008-06-26 15:16

Professor Mário Maestri faz análise sobre a crise no governo de Yeda Crusius e as possibilidades de impeachment

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23/06/2008

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da Redação

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Para o professor Mário Maestri, ainda que o Rio Grande do Sul não esteja livre da corrupção, como pode ser visto nesta crise política que estamos vivendo, ele é ainda um estado singular. “A grande exceção foi Antônio Britto, eleito na crista da maré neoliberal, que teve o fim patético conhecido”, relatou em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail. Maestri fala, nesta conversa, sobre a crise política e ética instaurada no Rio Grande do Sul. Para ele, “há muita demagogia sobre a honestidade política das elites rio-grandenses”, por isso, acredita que há “razões para a abertura de processo de impeachment contra Yeda Crusius. Porém, as possibilidades que um impeachment ocorra são infinitesimais”, disse Maestri que fala ainda sobre a nomeação do coronel Mendes para o comando geral da Brigada Militar e sobre as conseqüências da crise para as eleições municipais deste ano.


IHU On-Line – Qual é o significado da vitória eleitoral de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul?


O Rio Grande do Sul é um estado singular, desde a República, quando a oligarquia agrária foi apeada do poder e entronizado um bloco político-social pró-capitalista, modernizante e autoritário. A direita liberal foi sempre minoritária no novo contexto, vencendo eleitoralmente apenas quando houve divisão daquele bloco hegemônico – Meneghetti, Peracchi, Jair Soares. A grande exceção foi Antônio Britto, eleito na crista da maré neoliberal, que teve o fim patético conhecido. A vitória do PT e da Frente Popular e de Olívio Dutra, em 1998, levou ao governo o bloco político-social no qual o movimento popular possuía forte representação. As opções social-liberais do governo Olívio Dutra defraudaram as expectativas populares, criando novo e árido cenário político-social no RS. Nas passadas eleições, houve, sobretudo, perdedores. Yeda venceu apoiada na direita tradicional sulina minoritária e, sobretudo, devido ao desgosto popular com os governos do PMDB e de Rigotto e do PT e de Olívio Dutra. A votação registrou igualmente rechaço sulino ao governo Lula. Não se tratou de retomada de apoio ao projeto neoliberal. Tanto que a candidata foi obrigada a jurar que não privatizaria nenhuma empresa estatal, o que vem fazendo em forma branda através da abertura de capital das empresas estaduais como o Banrisul.


O que repesenta a governadora Yeda hoje dentro do governo do Rio Grande do Sul?


Com Yeda retornou o neoliberalismo, a proposta de aprofundamento da hegemonia do capital sobre a sociedade sulina, sem preocupação em alavancar o capital regional, já submetido no processo de mundialização da economia. As propostas de cortes dos investimentos e gastos sociais e de reforma do Estado Regional expressam essa política de transferência de recursos públicos ao capital privado e de transformação tendencial do RS em espaço sem contradições para a reprodução de capitais. O projeto pessoal de Yeda, política sem carisma e apoio popular e de partido sem tradição no RS, é de se transformar na grande representante do capital, através da implementação das políticas neoliberais e do tratamento duro do movimento social. Uma espécie de Dama de Ferro dos Pampas. Com a política de repressão, Yeda pretende também angariar consenso na população, através da retórica da dureza com a bandidagem. Em inícios de 2007, a governadora declarava: "Fui malvada na eleição e serei dura no governo". Porém, Yeda procura implementar sua política em contexto relativamente adverso, onde a imensa maioria da população opõe-se às privatizações e restrições dos investimentos públicos e sociais. Ela certamente não quer sofrer a triste sorte de seu ex-correligionário Antônio Britto.


A comprovação de casos graves de corrupção e denúncias envolvendo direta e indiretamente a governadora causou grave impacto na opinião pública, já que tais práticas não seriam habituais no Rio Grande do Sul. A que se devem esses acontecimentos?


Há muita demagogia sobre a honestidade política das elites rio-grandenses. Na colônia, no Império e na República, as terras públicas do Estado foram vorazmente abocanhadas pelos grandes proprietários apoiados em relações políticas privilegiadas. Não há dúvida que o castilhismo-borgismo ensejou a construção de Estado Regional menos permeável à rapinagem privada do que em outras importantes regiões do Brasil. O Estado moderno realiza enorme cooptação da crescente renda pública em favor do capital, com destaque para o financeiro. Para os grandes interesses privilegiados por essa gestão privada dos bens públicos, é funcional, do ponto de vista orgânico, social e ideológico, que os gestores públicos participem dessa apropriação, em forma legal, por exemplo, através das fabulosas remunerações dos parlamentares, ou, ilegalmente, através da corrupção que já faz parte da vida civil e política. É antifuncional que um governador, secretário, administrador, senador, deputado etc. que comandem o aplainamento liberal do Estado e da sociedade mantenham-se à margem das classes que servem. Eles devem morar em mansões, ter consumo, privilégios etc. que os integrem, mesmo marginalmente, social, política e simbolicamente aos interesses que servem. Os gravíssimos casos de corrupção comprovados ou denunciados, envolvendo o coração do governo e da campanha de Yeda, são resultado da convergência dessa espécie de licença à corrupção, do enorme retrocesso do movimento social e da voracidade de indivíduos e grupos que já atuam na política com o objetivo de enriquecimento rápido individual.

Que análise o senhor faz da nomeação do coronel Mendes para comandar a Brigada Militar nesse contexto? Como ficam os movimentos sociais diante dessa nomeação?


A estranha queda do comandante-geral da Brigada Militar, coronel Nilson Nobre Bueno, denunciado por questões de importância minúscula, como o uso indevido de diárias em viagens feitas entre Porto Alegre e Santo Ângelo, defenestrado por governadora que não age de modo semelhante em casos de extrema gravidade, permitiu a nomeação do coronel Paulo Roberto Mendes como comandante daquela arma. Como vice-comandante, Paulo Roberto Mendes foi o protagonista do patético cerco militar de setecentos acampados do MST, homens, mulheres e crianças, em maio passado, em São Gabriel. Na Brigada Militar, Paulo Roberto Mendes materializa a proposta de mão-de-ferro com os movimentos sociais do governo Yeda Crusius e de construção de clima de segurança pública através de policiamento ostensivo e agressivo. Ações mais duras e midiáticas contra a bandidagem e os movimentos sociais parecem ser alternativa política para Yeda Crusius, sobretudo em momento em que necessita deslocar o foco da atenção da opinião pública dos escândalos de seu governo e soldar as fissuras ocorridas no apoio das classes proprietárias, sobretudo devido à ação dissidente de seu vice-governador, Paulo Feijó. Não será surpresa se tivermos nos próximos meses morte de populares pelas forças policiais no RS.

O que tem significado a atitude de oposição do vice-governador, Paulo Feijó, e a gravação da conversa com Cézar Busatto?


O vice-governador Paulo Feijó pode ser definido sociologicamente como um aventureiro. Sem raízes orgânicas com o mundo político-partidário, realizou trajetória de sucesso no mundo político-empresarial, no qual não possui posição pessoal ou de representação direta de destaque. Participou da chapa, por indicação do DEM e de Onyx Lorenzoni, para sinalizar o canal direto de Yeda com o mundo empresarial e com as idéias liberais extremadas, do qual o vice-governador é defensor primário e irrestrito. Paulo Feijó é de certo modo uma Yeda sem mediações. Veste a roupagem do moralismo para defender programa liberal irrestrito – propõe simplesmente o corte dos impostos para o capital, a privatização imediata e irrestrita dos bens estaduais que restam, com destaque para a jóia da coroa rio-grandense, o Banrisul.


Qual é sua opinião sobre um possível impeachment de Yeda?


Não há dúvidas sobre a existência de razões para a abertura de processo de impeachment contra Yeda Crusius. Porém, as possibilidades que um impeachment ocorra são infinitesimais. O impeachment só ocorreria com a decisão de parte fundamental das classes proprietárias sulinas, através de seus políticos, sem o veto dos segmentos decisórios nacionais e internacionais, ou devido a uma forte mobilização social. Todos os setores dominantes rio-grandenses apóiam estrategicamente o governo de Yeda, como demonstra a defesa da governadora pela mídia sulina, com destaque para a RBS. Quando muito, Paulo Feijó serve para pressionar por políticas neoliberais mais duras. Por sua vez, o movimento social sulino encontra-se muito fragilizado e, em grande parte, sob o controle-gestão, nem que seja parcial, do PT, principal partido da oposição regional, que não possui qualquer interesse em mobilizar a população contra a corrupção e contra o governo neoliberal rio-grandense, devido a tetos de vidro conhecidos e não conhecidos. No frigir dos ovos, não há diferenças de qualidade entre o governo federal e estadual, tanto nas soluções políticas como no comportamento ético. O PT se interessa nos atuais sucessos como apoio de seus candidatos nas próximas eleições municipais, com destaque para a da capital. Finalizando, o impeachment de Yeda significaria a entronização no governo de Paulo Feijó, um fundamentalista do neoliberalismo que, logicamente não abandonaria a rapadura duramente perseguida.


Como o senhor compreende as alianças que estão sendo feitas no Estado como, por exemplo, entre o PT e DEM, PC do B, PPS, PTB, etc.?


O Brasil vive expansão econômica, ensejada, sobretudo pelo crescimento do consumo mundial, com destaque para a China e a Índia, e pela forte exploração do mundo do trabalho no país. Essa expansão repercute parcialmente nas classes trabalhadoras e populares, sobretudo através de expansão do mercado do trabalho, aprofundando a forte tendência à despolitização e ao enfraquecimento dos movimentos sociais há muito em curso. Despolitização e desmobilização crescentes visíveis na avaliação positiva do governo social-liberal de Lula da Silva, mais e mais descolado do Partido dos Trabalhadores. Apoio a Lula da Silva, que registra melhoria, mesmo residual, de realidade patética vista como natural e imutável. Nesse cenário político geral, dissolveram-se as diferenças de qualidade entre os partidos, que se reorganizam na perspectiva do controle do aparato estatal. Não há alianças que firam suas naturezas profundas. PT, PSDB, DEM, PCdoB, PPS, PTB associam-se ao sabor dos aparatos e interesses que organizam local, regional e nacionalmente.


E, por fim, como o senhor acha que as eleições municipais correrão no Estado, mais especificamente na capital?


Sobretudo nas pequenas comunidades, as eleições municipais expressam mais facilmente as pulsações e interesses locais, servindo com dificuldade de leito de discussão dos projetos políticos diferenciados. No atual contexto da forte despolitização e desmobilização, o eleitor votará, ainda mais do que nos anos anteriores, por que a lei e o costume mandam, no candidato que conhece, no mais simpáticos, no que lhe foi indicado, no candidato do partido com que simpatiza, apesar de não dar real crédito à política, aos políticos e à idéia que a representação parlamentar resulte em benefícios ou modificação da sua vida. Poucos meses após as eleições, uma enorme quantidade de eleitores já não se lembra com certeza em que parlamentar e partido votou. Mesmo em Porto Alegre, a cidade mais politizada do Sul, esse cenário não será substancialmente diverso. A vitória de qualquer um dos três primeiros colocados nas pesquisas – José Fogaça, Maria do Rosário e Manuela D´Ávila – , importante para os candidatos, para seu séqüito e para seus apoiadores diretos, não significará modificações talvez sequer quantitativa no rumo da cidade e na vida de seus habitantes. Já se implantou entre a população a consciência de que serve de pouco mudar o partido no governo, sem que se tenha consolidado a necessidade de transformação na organização, estrutura e gestão da sociedade.


Mário Maestri é graduado em Ciências Históricas pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, onde também realizou mestrado e doutorado na mesma área. Em 1991, fez o pós-doutorado na mesma universidade. Atualmente, é professor da Universidade de Passo Fundo.


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