Leonardo Boff e Ratzinger: velhos conhecidos
A condenação de Boff em processo conduzido pelo então cardeal Ratzinger completa 20 anos; a única que coisa que mudou é que ele virou papa
08/05/2007
Marcelo Netto Rodrigues,
da Redação
O alemão Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI, é um velho conhecido do teólogo Leonardo Boff. Em setembro de 1984, na condição de cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – novo nome dado ao antigo tribunal da Inquisição –, Ratzinger conduziu o interrogatório que culminou com a condenação de Boff a um ano de “silêncio obsequioso”, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder".
À época, Boff foi obrigado a sentar-se na mesma cadeira que Galileu Galilei sentou 400 anos antes. E escutou de Ratzinger as seguintes palavras: “Eu conheço o Brasil, aquilo que vocês fazem nas Comunidades Eclesiais de Base não é verdade, o Brasil não tem a pobreza que vocês imaginam, isso é a construção da leitura sociológica, ideológica, que a vertente marxista faz. Vocês estão transformando as Comunidades Eclesiais de Base em células marxistas”.
Dom Paulo Evaristo Arns, que acompanhava Boff no tribunal, retrucou no momento apropriado. Referindo-se a um documento que, havia saído três dias antes, condenando a Teologia da Libertação, disse: “Cardeal Ratzinger, lemos o documento e ele é muito ruim. Não o aceitamos porque não vemos os nossos teólogos dizendo e pensando o que o senhor diz da Teologia da Libertação. Se quero construir uma ponte, chamo um engenheiro, e o senhor, para construir a ponte, chamou um gramático, que não entende nada de engenharia”.
Mais de 20 anos após o encontro entre os dois no salão do Santo Ofício, no Vaticano, Leonardo Boff discorre em entrevista sobre quais seriam as reais razões que trazem – o agora – papa Bento XVI ao Brasil. Apesar do tempo, as motivações de Ratzinger, na opinião de Boff, continuam a ser as mesmas da época de sua condenação.
Brasil de Fato – Na realidade, por detrás do discurso oficial, em sua opinião, por que Ratzinger vem ao Brasil nesse exato momento?
Leonardo Boff –Com ou sem o papa aconteceria a 5ª Conferência dos Bispos Latino-Americanos que se realiza a cada dez anos. A reunião iria se realizar em Quito, no Equador. Mas quando o atual papa soube da espantosa emigração de católicos que ocorre cada ano rumo a outras denominações evangélicas de cunho carismático e popular decidiu fazer a reunião no Brasil. Seguramente, a intenção é sustar esta sangria no corpo católico. Talvez chegue a acusar o engajamento dos cristãos em questões políticas e sociais, como a principal causa desta emigração católica. Mas esta explicação representaria falta de auto-crítica. Onde há igrejas engajadas como em São Paulo a saída é bem menor do que onde está ausente esta dimensão como é o caso claro do Rio de Janeiro. Nesta Igreja, as Comunidades Eclesiais de Base foram perseguidas e os teólogos da libertação proibidos de qualquer atividade. Impôs-se uma Igreja rígida com os dois ouvidos voltados para Roma e longe dos miseráveis. Eu falei na diocese do papa em Roma, perto do Vaticano, mas nunca pude dar uma palestra sequer, em 20 anos de atividade teológica, no Rio de Janeiro por causa da pronta proibição de dom Eugênio, hoje já aposentado. A causa principal da saída dos católicos é a falta de inovação no seio da Igreja, é a rigidez dogmática de seus ensinamentos, é a falta de bom senso nas questões de moral e de sexualidade onde ela mostra um rosto cruel e sem piedade, é a proibição de se fazer qualquer criação no campo litúrgico, mesmo em se tratando de culturas diferentes como aquela dos indígenas e dos afro-descendentes. A maioria dos católicos não está mais sentindo sua igreja como um lar espiritual. Ou sofre e tolera com dor a mediocrização a que todos estão submetidos ou simplesmente abandona a Igreja. O papa deve enfrentar-se com esta questão. Temo que siga o caminho mais fácil de culpabilizar os outros e não fazer auto-crítica sobre o tipo de presença que a Igreja está tendo na sociedade.
O senhor acredita que Ratzinger irá aproveitar o simbólico 13 de maio – por coincidência mesmo dia em que João Paulo II sofreu o atentado em 1982 e dia de Nossa Senhora de Fátima para anunciar a beatificação de João Paulo II em Aparecida?
Boff – Não creio que fará aqui a beatificação de João Paulo II. Ele é um santo para os europeus, italianos, polones e os movimentos conservadores que sempre bajularam o papa. Lá é o ambiente adequado para a sua beatificação e santificação. Nós não contamos muito para o Vaticano, pois somos periféricos. Querem que cresçamos, mas desde que sempre submissos aos ditames emanados de Roma. Quer dizer, nos querem cristãmente colonizados e neocolonizados.
Sobre as declarações de dom Odilo Scherer de que a "Teologia da Libertação já passou". O que o senhor teria a dizer a ele?
Boff – Suas declarações mostram o nível de desinformação e alienação que esse arcebispo tem a respeito das coisas internas da própria Igreja que ele, por profissão, deveria conhecer. Os teólogos da libertação que eram e são maioria no Brasil estão ainda vivos, produzem teologia e não se tem notícia que se tenham reconvertido à uma teologia distanciada do povo e da caminhada das comunidades. A Teologia da Libertação nasceu ouvindo o grito dos pobres e excluídos. Esses aumentaram no mundo inteiro. Bom seria se não existissem mais. Mas seu grito virou clamor. É o que faz com que a Teologia da Libertação mantenha vigência e continue pensando a partir dos crucificados para que possam ressuscitar. Se com o desaparecimento da Teologia da Libertação, como pensa o arcebispo de São Paulo, tivessem desaparecido também os pobres e os excluídos, então ele seria um sério candidato a prêmio Nobel de Economia. Conseguiu o feito messiânico de libertar a Terra de todos os filhos e filhas condenados e junto com isso libertado a Igreja da Teologia da Libertação.
Comentários - 81
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2 Pedro Damião Costa - 09-05-2007 - 09:13:52h
HomofobiaInfelismente, a renovação carismática com outras correntes mais conservadoras tem dissimado a homofobia com frequência, instigando a intolêrancia e a violência contra homossexuais através de meios de comunicação como Canção Nova, Rede Vida, entre outros.. com a benção do Papa. Graças a Teologia da Libertação pude perceber que é possível existir uma nova Igreja.
3 Cídio - 09-05-2007 - 17:15:17h
Carismáticos e associadosO gozado que entre eles o número de homossexuais é algo relevante e, o que julgo exdruxulo, usam cargos de padres e lideres para esconder a homossexualidade. Um outro detalhe cruel é que esses individuos carismáticos e associados utilizam do poder de lider para exercitar as suas sexualidades que, nesse contexto, acaba sendo uma anacronia fertil para pedofilia e outras coisas abominavéis.
4 JOAOPAULO - 03-04-2008 - 17:26:00h
ANTICRISTOBOFF E SEUS SEGUIDORES NAO CONSGUEM PERCEBER QUE ESTAO A TRABALHO DO ANTICRISTO? E QUE FUTURAMENTE SERAO LEMBRADOS COMO A RUINA DA IGREJA?
5 Marcio - 07-04-2008 - 03:58:23h
Anticristo ??????A Igreja Católica considerou, condenou e execultou muita gente como bruxos e anticristos, pelo simples fato de os mesmos levantarem idéias que não iam de encontro com os "interesses" da Igreja Católica, gerando inclusive um atraso científico, tecnológico, social e intelectual na humanidade. Uma prova disso é o comentário enviado poe este cidadão "JOÃO PAULO".
6 Pâmela - 29-07-2008 - 19:21:06h
anticristoMarcio,concordo plenamente com que vc coloca,é triste ver que há pessoas que tem contato com a teologia da libertação, e n consegue enchergar que a proposta é exatamente seguir os ensinamentos de JESUS, atraves da indignação e a n aceitação que nossos semelhantes vivam em situação de miséria e discaso, uma vez que somos extensão uns dos outros.Existem pessoas que ainda fecham os olhos para essas questões, e n ver que estamos passando por toda essa crise civilizacional, e exatamente por falta deste olhar p o nosso semelhante.
7 ODILA GATTO - 04-04-2009 - 20:55:43h
ANTICRISTO8 fachine - 22-04-2009 - 17:23:00h
Anticristo ??????9 lelito - 23-12-2008 - 18:19:59h
pergunta10 Maurício Tavares - 29-10-2009 - 20:44:49h
Comentário sobre um Imbecil11 Guilherme - 14-04-2008 - 10:58:12h
combatendo a podridão do mundo.( Homofobia )odeio o pecado, se vcs se baseiam nessa podre teorias que tais hereges fizeram como galileu e etc e infelizmente essa leonardo boff na qual não devemoz ter nehum miseravel e insgnificante respeito. Enquanto parte da igreja quer modificação eu quero mortificação, enquanto parte dela quer inovação eu quero e muito outros a volta da antiga igreja. agora falo pór mim, quem dera se a santa inquizição voltasse como antes. não a inquizição que o governo fez, mas a que a igreja fez. apezar que o infewrno espera por vcs e por outros reduzidos ao homosexualismo. (1º João 2,21-23)
12 Paulo Pinto - 16-04-2008 - 20:36:24h
HomofobiaSomente os asseclas das trevas, os eternos inqusitores, são intolerantes, e não tem a menor noção do amor que Cristo pregou. Vivem como abutres chafurdando na carniça, e sendo intolerantes com o próximo. Leonardo Boff, é uma das grandes figuras humanas na terra, e a igreja católica pela podridão que sempre espalhou no mundo que não tem nada a ver com os ensinamentos de Jesus, e diga-se de pasagem não criou e nem deixou nenhuma religião, não é digna de ter uma figura humana como Leonardo Boff, mas um inquisitor nazista como Bento XVI.
1 Urariano Mota - 09-05-2007 - 07:10:07h
O Papa no BrasilUma lembrança, não muito católica, da primeira visita do Papa ao Brasil está em http://urarianoms.blog.uol.com.br/ Abraço.