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Campanha de solidariedade para a Escola dos Sem-Terra

by cleber last modified 2006-06-23 20:26

Criado em 2005, principal centro de formação de militantes do Brasil – que já formou 3,5 mil estudantes – arrecada apoio para custear os custos

João Alexandre Peschanski
> da Reda&ccedil;&atilde;o<em>

Criada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), inaugurada em janeiro de 2005, se tornou o principal centro de formação de militantes do Brasil. Já passaram pelas suas salas de aula, 3.500 estudantes. Os cursos, de diversas áreas, estimulam a capacidade crítica das pessoas e o desenvolvimento de conhecimento para a construção de um projeto popular para o Brasil.

No entanto, a ENFF não consegue custear todos os seus gastos, principalmente os dos cursos. Por isso, em maio, foi lançado uma campanha de solidariedade, para divulgar a Escola e coletar ajudas (Veja como contribuir). Em entrevista ao Brasil de Fato, o coordenador-geral da ENFF, Adelar Pizetta, descreve a formação da escola, o funcionamento dos cursos e o modelo pedagógico que adota. A palavra-chave, diz, é solidariedade, princípio que norteia a Escola desde antes de sua inauguração.

Brasil de Fato - Roseli Caldart, em Pedagogia dos Sem-Terra (Expressão Popular, 2004), diz que o MST é um sujeito coletivo pedagógico. Os militantes integram a luta e se constituem como um novo homem, construindo uma nova identidade, de sem-terra. Como esse processo se dá na ENFF?
> Adelar Pizetta -<strong> A construção dessa identidade é um processo. Isto é, as mudanças não se operam de forma automática e mecânica na consciência e no comportamento das pessoas. As mudanças nas
> atitudes, na maneira de ver e encarar o mundo, as novas formas de rela&ccedil;&otilde;es com a natureza e com as pessoas, requerem, ademais da mudan&ccedil;a nas condi&ccedil;&otilde;es e rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, mudan&ccedil;as no n&iacute;vel de consci&ecirc;ncia. Ou seja, de pessoas an&ocirc;nimas e exclu&iacute;das, se tornam sujeitos participantes e construtores de sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria, demarcando qual o papel de cada Sem Terra nesse processo de<br> luta coletiva. Ao tomar consciência de sua condição, tomam posição, atuam, no sentido de transformá-la, transformando a si próprios. A Escola Nacional Florestan Fernandes tem a função de elevar essa compreensão, de fortalecer a participação consciente nesses processos que apontam para a construção de um novo homem e uma nova mulher, com novos valores que disputam e se contrapõem aos da sociedade atual. Nesse sentido, na ENFF os militantes que já participam de processos de luta e organização coletivos em diferentes espaços de atuação, ampliam e elevam o seu nível de consciência individual e coletiva, fortalecendo a sua identidade Sem Terra, mas, acima de tudo, buscam construir uma identidade de classe, na perspectiva da luta pela transformação social.
> <p>

BF - Que modelo pedagógico e que formato pedagógico fundamentam a ENFF?
> Pizetta - <strong>A ENFF não segue nenhum modelo pedagógico elaborado a priori. Isso não significa que não beba na "fonte" de experiências e elaborações teóricas que fundamentam uma pedagogia capaz de formar sujeitos críticos e transformadores da realidade. Nesse sentido, está em fase de implantação uma metodologia que é resultado do acúmulo que já temos desenvolvido no MST, bem como, das diversas experiências de formação que outras entidades e movimentos sociais já desenvolveram. Podemos dizer que a Escola se caracteriza por desenvolver uma pedagogia ativa, crítica e transformadora das pessoas e das realidades. Os educandos também são sujeitos do processo pedagógico, assumindo responsabilidades e compromissos pela condução desse processo de ensino- aprendizagem. Destacamos também a importância da pesquisa, a busca de conhecimentos, bem como, a elaboração e produção de novos conhecimentos, que partam dos problemas e desafios da realidade vivida pelos próprios educandos. Ou seja, o processo educativo deve contribuir para que os militantes consigam pensar com a cabeça própria, que estimule a tomada de decisões responsáveis, que contribua na busca de soluções para superar os grandes desafios dos movimentos. Destacamos também a importância da arte e da cultura nesse processo de formação, conhecendo nossa verdadeira tradição, a diversidade cultural do povo brasileiro e como ela pode ser uma força de resistência e um instrumento na luta pela construção da emancipação humana.
> <br> BF - A ENFF é uma universidade, no sentido estrito do termo, ou seja, um espaço que se volta à formação profissional e científica?
> Pizetta - <strong>A ENFF é uma escola de formação de militantes e de quadros políticos e técnicos. Uma organização que se propõe a lutar por uma nova racionalidade, por uma nova ordem social, política, econômica, cultural deve se preocupar com a formação de seus militantes e dirigentes. Deve se preocupar com a educação do povo, de suas bases, da elevação do nível cultural e de conhecimento dessa base. Do contrário, terá enormes dificuldades para levar o processo adiante, pois, já aprendemos que sem conhecimento, sem organização e sem luta, não se transforma coisa alguma. Por isso, a Escola tem essa função de aperfeiçoar, de elevar o nível de conhecimento, o nível cultural e de consciência dos dirigentes que atuam nos diferentes movimentos sociais, mesmo porque, o sistema educacional brasileiro, pensado pelas elites dominantes, não permite que o povo pobre tenha acesso ao conhecimento científico. Cabe, portanto, ao próprio povo, através de suas organizações, buscar esse conhecimento, se apropriar dele, para entender cientificamente a realidade, os processos e desenvolver uma práxis política e organizativa, na perspectiva de ir transformando essa realidade, bem como as pessoas.
> <br> BF - Qual o perfil dos educandos que estão na escola?
> Pizetta - <strong>Participam dos cursos realizados na ENFF, militantes e dirigentes de vários movimentos sociais, de diferentes estados da federação e que atuam em diferentes áreas: educação, produção, saúde, formação, comunicação, bem como em diferentes níveis e instâncias de direção. São militantes procedentes dos assentamentos e acampamentos de todo o Brasil, filhos de assentados e acampados que seguem a organização em suas bases; são coordenadores de núcleos de base, dirigentes de cooperativas e assentamentos, professores de escolas de assentamentos, administradores de cooperativas e associações. Na grande maioria são jovens, de ambos os sexos. No ano de 2005 passaram pelos cursos da Escola aproximadamente 2.500 educandos/as. Nesse ano de 2006, já passaram pela escola próximo a 1000 pessoas e a previsão é ultrapassar essa cifra de 2005. Os cursos estão programados para atender essas diferentes áreas: formação de professores/as, formação de formadores, formação de dirigentes, a área da agricultura, luta pela terra, história do Brasil, de comunicadores populares e de organizadores que atuam nos assentamentos, impulsionando o processo de cooperação agrícola, na perspectiva da agroecologia e preservação da natureza.
> <br> BF - Qual o perfil dos educadores?
> Pizetta - <strong>O quadro de professores da ENFF é formado por intelectuais amigos do MST, que dominam diferentes áreas do conhecimento e dedicam parte de seu tempo, ministrando aulas nos cursos da Escola, de forma militante, ou seja, não são remunerados pelo trabalho que desenvolvem. Muitos deles inclusive, assumem os gastos com seus deslocamento até a Escola. São professores que acreditam na luta do MST, acreditam que podemos construir um Brasil diferente, justo, solidário, independente. Acreditam que a Reforma Agrária é um instrumento importante para avançar nesse processo de transformação social e que a educação é parte integrante desse projeto. Isto é, em um país como o Brasil é fundamental conseguir elevar o nível de conhecimento e de consciência do povo brasileiro, para se pensar em algum tipo de mudança. A conquista da terra descolada da elevação do nível cultural dos Trabalhadores, não terá muitas perspectivas, por isso, a conquista da terra e o acesso ao conhecimento científico são dois elementos chaves para a emancipação dos Sem Terra. De maneira geral, o perfil dos professores que contribuem nesse processo educativo é caracterizado por esse esforço de doar, socializar seus conhecimentos - de forma gratuita - para ajudar a entender o Brasil, compreender a nossa historia, o nosso passado que nos transformou naquilo que hoje somos. Se nosso presente é repleto de fragilidades o é também, repleto de possibilidades. Existe um potencial enorme na sociedade brasileira que só se realizará através de um novo projeto, de uma nova lógica que não a do sistema atual. Mas, mais do que isso e a partir disso, está a capacidade de projetar o futuro, de acreditar que a utopia ainda existe e que através da luta, da organização e do estudo, podemos andar em direção a ela, fortalecendo e construindo alianças de classe, fortalecendo o processo de transformação social.
> <br> BF - A Escola Nacional se define, até mesmo na carta que foi circulada na campanha de solidariedade, como uma escola para os militantes de movimentos sociais. O que isso quer dizer?
> Pizetta - <strong>Quer dizer que a Escola, apesar de ser do MST, ela está aberta para os demais movimentos sociais que também se organizam e lutam para construir um Brasil diferente. Em todos os cursos organizados pela Escola, 20% das vagas são destinadas para outros movimentos, principalmente, os que integram a Via Campesina. A ENFF está a para servir a classe trabalhadora que necessita produzir e sistematizar um conhecimento, uma cultura, bem como, formar seus militantes e dirigentes para dar qualidade a essas organizações. A classe trabalhadora precisa formar seus intelectuais, produzir a teoria da luta de classes nesse momento histórico. Precisa avançar na construção e vivência de novos valores e para tanto, é necessário estudar, conhecer as experiências históricas e delas extrair lições para nossa práxis no presente. Cada vez mais é imperativa a necessidade de unificação da lutas dos diferentes movimentos, mesmo porque, os inimigos são comuns e é preciso de unidade para enfrentá-los.
> <br> BF - Como funcionam as parcerias com universidades?
> Pizetta - <strong>O MST tem parcerias com mais de 50 Universidades, envolvendo desde projetos de pesquisa, programa de alfabetização, cursos de graduação, pós-graduação, cursos de extensão universitária e, em alguns lugares, cursos de nível médio. Essas parcerias na área da escolarização, são uma forma de os jovens assentados e acampados terem acesso a um nível maior de conhecimentos, por intermédio de cursos de boa qualidade, sem se desvincularem de suas comunidades (assentamentos e/ou acampamentos). Isso porque, nesses cursos se implementa a Pedagogia da Alternância, que consiste em períodos intensivos e alternados de estudos na escola e universidades, combinados com os períodos de atuação, estudos e pesquisas nas comunidades. Dessa maneira, os jovens não perdem seus vínculos com os assentamentos, com a organicidade do MST nos estados e nas bases, pois, não precisam abandoná-los ara estudar. Esses cursos acontecem tanto nas próprias universidades como também em centros de formação e escolas do MST nos estados, incluindo também a ENFF. Atualmente estão em funcionamento mais de 100 turmas, espalhadas por todo o Brasil, envolvendo cursos de nível médio, superior e de pós-graduação, em diferentes áreas do conhecimento. São mais de 4 mil jovens estudando nesses cursos, o que significa um avanço para o processo de educação dos/as camponeses/as e da luta pela reforma agrária.

Essas experiências são extremamente relevantes tanto para as organizações de trabalhadores como para as Universidades que se abrem para atender demandas de movimentos sociais organizados. Essa articulação do saber popular, com o conhecimento científico, possibilita a troca de experiências e a construção de novos saberes adequados à realidade que precisa ser transformada. Apesar desse avanço conquistado, ainda estamos aquém das reais necessidades, mas, é um caminho que se abre e avança conforme vamos criando novas oportunidades para a juventude. É uma demonstração de que com decisão política e vontade se pode democratizar o acesso a níveis mais elevados de escolarização, na perspectiva de formar sujeitos com consciência crítica e, profissionais para atuar em diferentes áreas nos assentamentos, nas comunidades e na sociedade de maneira geral.
> <br> BF - Como é feito o custeio da ENFF?
> Pizetta - <strong>Como já dissemos, a ENFF é um grande exemplo de solidariedade. Nenhum professor que atua nos cursos de formação da ENFF, recebe pelo trabalho. É um trabalho militante, voluntário, no seu verdadeiro sentido político. Os trabalhos internos na Escola são desenvolvidos por quem nela estuda, por quem participa dos cursos. Não existem empregados, funcionários. São militantes que desenvolvem as tarefas de limpeza, lavação de louças, trabalhos na horta, pomar, jardins, manutenção dos espaços, etc. Para quem não conhece a Escola, ela tem capacidade para alojar 200 estudantes e capacidade em termos de salas de aula e refeitório, para 400 estudantes. Além disso, conta com uma Ciranda Infantil para o processo educativo dos Sem Terrinhas que acompanham as mães e os pais que participam dos cursos. Destaca-se também a Biblioteca com capacidade para 40 mil livros, em fase de implantação, além de um telecentro e sala de projeção de cinema. Vejam portanto, que a estrutura não é pequena. Por isso, mesmo que parte dos custos são mantidos pelos educandos, existem gastos que necessitam ser cobertos mensalmente, como: energiaelétrica, água, parte da alimentação, material didático e pedagógico para os cursos, material de limpeza, telefone, manutenção das estruturas, etc. Nesse sentido, todos os que utilizam a escola contribuem financeiramente. No caso do MST, buscamos apoio das mais diferentes formas, com ajuda de amigos, ong’s e convênios, inclusive, através da campanha que agora está lançada. A médio prazo, existe a possibilidade de a Escola buscar uma auto-sustentação maior, através de projetos de investimentos na área produtiva. Digo a médio prazo, porque se inicia a discussão de como levar adiante essa área, já que até agora o esforço maior estava concentrado na parte da construção da estrutura física e na aquisição de uma pequena chácara para a produção, principalmente horta e pequenos animais.
> <br> BF - A campanha de solidariedade foi realizada porque a ENFF está correndo riscos de desaparecer?
> Pizetta - <strong>Quando falamos da solidariedade entre a classe trabalhadora, a entendemos como um princípio, como um valor, não como uma medida paliativa. Assim nasce a classe trabalhadora no mundo. O mundo apregoado pela burguesia é o mundo da competição, do individualismo. A campanha de solidariedade, mais que uma ajuda à ENFF, é o compromisso com a construção de um projeto político, um projeto de sociedade, de educação, que avance em direção a construção de algo novo, qualitativamente superior ao que as classes dirigentes conseguiram propor ao povo brasileiro. Só vamos romper com as marcas da velha sociedade, construindo na prática a experiência efetiva dos novos valores. Dentre esses, a solidariedade é muito importante. O próprio MST é resultado da solidariedade do povo, da sociedade. A construção da ENFF é fruto do trabalho voluntário e da solidariedade (tanto dos integrantes dos assentamentos e acampamentos da reforma agrária, como dos amigo e parceiros nacionais e internacionais). Queremos que a ENFF em seu funcionamento efetivo, seja também resultado dessa prática, tanto do ponto de vista da estrutura, da construção física, como também da sua manutenção e funcionamento. Por isso a campanha, para continuar essa prática militante e inovadora.
> <br> BF - Quais foram os resultados, por enquanto, da campanha?
> Pizetta - <strong>A campanha ainda está em sua fase inicial, de lançamento, de articulação, de maneira que os resultados não podem ser ainda mensurados. Esta é uma fase importante, porque, antes de tudo, possibilita a divulgação da ENFF, de sua trajetória, demonstrando que ela é uma conquista do povo brasileiro, dos trabalhadores Sem Terra; e no segundo momento, trabalha a campanha financeira. Oxalá possamos ir construindo essa prática da solidariedade e que a campanha consiga ser mais do que uma campanha por si só. Que ela possa estreitar nossas relações, que possa fortalecer nosso projeto de classe, possa elevar o nível de consciência e de comprometimento de milhares de pessoas. Ou seja, os resultados não serão simplesmente do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista político e de consciência de classe.
> <br> BF - Por que se solidarizar com a ENFF?
> Pizetta - <strong>Todos sabemos que a solidariedade é uma das virtudes mais bonitas da humanidade. Infelizmente o capitalismo e a sociedade de classes, impede que a humanidade vivencie esse valor em escala maior. Os movimentos de esquerda, precisam retomar essa prática, resgatar esse valor para fortalecer as iniciativas que apontam para a construção da nova sociedade. Precisamos fortalecer a solidariedade de classe, pois, isolados e divididos, somos fracos e incapazes de enfrentar o sistema que aí está. Unidos, solidários e combativos, seremos mais fortes nessa luta desigual. Todos sabemos também, que a ENFF foi construída graças à solidariedade nacional e internacional, de amigos, entidades e trabalhadores, num esforço enorme durante vários anos. Para ter uma idéia, participaram, através de 25 Brigadas de Trabalho Voluntário, aproximadamente mil trabalhadores/as, procedentes de assentamentos e acampamentos de 20 estados onde o MST se organiza. Ou seja, a ENFF é resultado da solidariedade e do trabalho voluntário, por isso, essa é a marca da Escola e só entende esse sentido, quem dele participou direta ou indiretamente. Foi um magnífico espaço de formação de construção humana. A Escola já existia e funcionava, antes mesmo de sua inauguração. Ela já era uma escola no próprio processo de sua construção. Essa prática deve continuar, agora, de forma talvez diferente, não tanto para construir a estrutura física, mas, para contribuir no seu funcionamento, dando possibilidades para que os filhos de assentados e acampados possam estudar; oportunidade que a sociedade capitalista não oferece e, só se viabiliza em experiências e práticas alternativas, nas quais, espaços como a ENFF cumprem um papel extremamente importante. Se solidarizar com a ENFF, portanto, é participar desse esforço coletivo que permite aos "deserdados da terra" terem acesso ao conhecimento, a cultura, a dignidade que um dia será de todo o povo brasileiro. Ser solidário com a ENFF é ser capaz de fazer algo concreto, de se manifestar em favor de uma causa justa e necessária. Ser solidário com a ENFF,pois, é acreditar que o sonho ainda existe porque existem pessoas que lutam para a concretização dessa nova ordem social. Todos os que assim pensam e acreditam, de que ainda existe história porque estamos vivos, e por isso, ela pode ser diferente, tomar outro rumo, estão convocados a participar desse grande mutirão de solidariedade.