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O que está em jogo em Raposa Serra do Sol?

by paula last modified 2008-04-11 19:06

"Poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, usam seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação”, afirrma Paulo Guimarães, assessor jurídico do CIMI

"Poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, usam seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação”, afirrma Paulo Guimarães, assessor jurídico do CIMI

11/04/2008


do IHU On-Line


O que está em jogo na Raposa Serra do Sol? Seis arrozeiros se negam a deixar uma área pública, federal e homologada para usufruto de diversas tribos indígenas de Roraima. Os mesmos seis arrozeiros, empresários de grande influência econômica na região, pedem suporte às autoridades políticas e de defesa. Enquanto o governo do Estado e a mídia intervêm a favor deles, as Forças Armadas se negam a participar da operação, e o governo federal protege os índios através da Polícia Federal. Aliciações, ameaças e depredações são feitos por esses arrozeiros tão poderosos contra indígenas que, depois de tantas perdas que tiveram com o desenvolvimento do país, precisam dessa terra para viver.

Veja abaixo entrevista com Paulo Guimarães, advogado e assessor jurídico do CIMI – Conselho Indigenista Missionário. Para ele, “o que está em jogo é efetivamente o respeito à lei e a Constituição. E poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, ficam usando seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação”.


Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que está, verdadeiramente, em jogo na Raposa Serra do Sol?


Paulo Guimarães – Nesse momento, o que está em jogo é a afirmação de que a terra é tradicionalmente ocupada pelos povos indígenas e que um ato do governo deve ser efetivamente respeitado. O presidente da República, em 2005, homologou a demarcação da terra que foi feita pelo governo FHC. Nessas terras, existem várias famílias de não- índios, que estão sendo reassentadas em outras áreas e recebendo indenizações por esse deslocamento. No entanto, existe um grupo pequeno e restrito de arrozeiros que possuem um forte poder econômico, especialmente um deles, que é Paulo Cesar Quartiero, prefeito do município de Pacaraima. Esses arrozeiros não aceitam sair da área e estão aliciando índios para reagirem a isso, mediante o pagamento e disseminação de bebidas alcoólicas entre eles. Com isso, criam obstáculos e praticam ilegalidades, como depredações ao patrimônio público, com a destruição de pontes, na tentativa de obstruir o acesso da polícia à área. Esta é uma situação residual.


Então, nós acreditamos que o que está em jogo é efetivamente o respeito à lei e à Constituição e que esses poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, ficam usando seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação.


IHU On-Line – As terras foram demarcadas e homologadas pelo governo. A Polícia Federal está no local tentando conter e retirar os arrozeiros do local. Quais são as atribuições do Supremo Tribunal Federal neste caso?


Paulo Guimarães – O Supremo Tribunal Federal fixou sua competência para apreciar todas as matérias judiciais que envolvam questionamentos sobre a demarcação. Então, em razão disso, o Supremo Tribunal Federal está processando as ações judiciais propostas pelos senadores, deputados e invasores da terra indígena que questionam a demarcação feita, pois é um direito deles questionar esses atos administrativos. No entanto, isso não implica que eles não sejam retirados dessa área, porque não podem ficar numa terra que é um bem público federal, destinada à posse e permanência exclusiva dos índios. Se o STF entender, futuramente, numa eventual hipótese que me parece absolutamente remota, que a terra não deveria ter sido demarcada, os não-índios desapropriados receberão indenização, porque o ato de demarcação vai se converter em indenização. Então, os elementos que provam que a área é pública são de usufruto dos índios já estão dentro dos processos administrativos e judiciais. Na realidade, o STF exerce, efetivamente, como expressão do poder judiciário, o seu poder de decisão de uma demanda judicial. Então, essa resistência em sair da área é ilegal. As circunstâncias de que levaram os arrozeiros a proporem uma ação judicial não impede a executoriedade do ato administrativo.


IHU On-Line – O que falta para que os arrozeiros sejam, finalmente, retirados do local?


Paulo Guimarães – O que eu entendo é o seguinte: esse movimento final feito por eles mostra que estão esperneando diante do inevitável, que é a saída da área. Suas atividades são ilegais, pois não podem desenvolver atividades econômicas numa área pública e federal. Essa atividade é completamente ilícita. Então, a situação está completamente paralisada. Por isso, eles terão de parar essas atividades definitivamente. Além disso, não conseguirão mais voltar a essa área depois. A Polícia Federal que está mobilizada no local é contra as atividades dos arrozeiros. Esses, por suas atividades ilícitas, vão responder a processos criminais por depredação do patrimônio público, por obstrução, por ameaças, por atentado à vida de lideranças indígenas. Ou seja, irão responder a esses crimes.


IHU On-Line – Quanto tempo você acha que esses arrozeiros vão levar para sair da região?


Paulo Guimarães – Eu acredito que existam terras indígenas, em outras áreas, que também foram homologadas, e estão invadidas ainda hoje. Infelizmente, esse problema acontece também em outras regiões. A atividade permanente de fiscalização e proteção é constante, não começou ontem e nem vai parar amanhã. Essa operação diz respeito fundamentalmente a assegurar que a terra indígena seja ocupada e os índios possam exercer com tranqüilidade o usufruto possível. A proteção sobre essa área vai começar de forma incessante e nem pode acabar, pois os índios não vão conseguir proteger sozinhos sua área.


IHU On-Line – Há chances de o Exército intervir nessa situação?


Paulo Guimarães – Não. Eu não vejo chance, nem necessidade. Isso não é atribuição das Forças Armadas, e sim da Polícia Federal e do Judiciário. São crimes que foram praticados e que terão de ser autuados. As Forças Armadas exercem, sem qualquer restrição, limitação à proteção das fronteiras. Isso está sendo cumprido, dentro das possibilidades materiais que as Forças Armadas têm. Agora, a atividade de contenção e apuração de infrações penais e de crimes é uma atribuição constitucional da Polícia Federal.


IHU On-Line – Enquanto os arrozeiros usam táticas de guerrilha para manter-se no local, o governo de Roraima pediu que a Polícia Federal suspendesse suas ações na região. Como o senhor vê essas contradições?


Paulo Guimarães – Esse negócio de guerrilha, em minha opinião, é uma propaganda que as pessoas fazem lá, especialmente a imprensa local de Boa Vista, com o intuito de transmitir a falsa impressão de que há um grande conflito na região. E não há. Todo esse alarde se resume a menos de 1% da área indígena. Portanto, a área indígena tem cerca de um milhão e 700 hectares. Portanto, esse episódio diz respeito a 17 hectares. Essa é a questão residual. E, naturalmente, porque foi invadida uma área muito grande, ficam com esse alarde. Existem atividades criminosas contra o poder público federal, mas não são táticas de guerrilha.


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