“Dispararam contra as crianças”
Vítimas do massacre ocorrido no departamento amazônico de Pando, dia11, relatam violência cometida por grupos armados contra camponeses

“Quando amanheceu, nos deparamos com uma valeta profunda, no local onde havíamos ficado por toda a noite”, conta Zaida, do município de Filadelfia. “Havia uma mulher que não sabia nadar, estava com seus filhos, como choravam... 'mamãe, não quero que te matem!' Não tinham compaixão por nós”, assinala Vanesa Yubacero. “Íamos em uma camionete, e escutamos o tiroteio contra nós”, narra um estudante de Filadelfia.
Estes são os testemunhos dos sobreviventes do massacre de Pando, ocorrido dia 11 de setembro, e que foram recompilados pela rede de rádios comunitárias boliviana, Red Erbol.
Senhora Zaida, uma camponesa do município de Filafeldia, relata a odisséia que viveu na quinta-feira (11):
“Quando amanheceu, nos deparamos com uma valeta profunda, que foi aberta às três da manhã. Lá estavam os veículos do Serviço Departamental de Caminhos (Sedecam). Os policiais nos traíram, não nos protegeram, nos pediam que ficássemos... então, um veículo nos alcançou e, dele, nos dispararam... tentamos escapar pelo rio, mas dispararam na água, para nos matar”.
Vanesa Yubacero, camponesa, recordou, com sua voz entrecortada pelas lágrimas, a emboscada da qual foi vítima:
“Eu
tinha vindo da comunidade Nuevo Triunfo, e chegamos a Puente Pozo...
Lá estávamos quando amanheceu e nos disseram que era
melhor que voltássemos, e nos seguiram. Continuamos, mas os
policiais nos detiveram. Esperamos... ninguém nos dava água.
Depois, nos rodearam, não nos deram tempo, dispararam contra
as crianças... como morriam... com tiros no coração.
Como choravam as crianças, com essas metralhadoras. Escapavam
pelo morro e lá chegavam os tiros... Havia
uma mulher que não sabia nadar, estava com seus filhos, como
choravam... 'mamãe, não quero que te matem!' Não
tinham compaixão de nós”.
Uma senhora que vive em Cobija, que não quis se identificar por temor às represálias:
Culpou
os funcionários do governo departamental pelo assassinato dos
camponeses em El Porvenir.
Uma
mulher que vive em Cobija denunciou que os grupos que dominam Pando
são muito violentos:
“São
dois grupos. Saquearam, roubaram... não é possível
que, entre os bolivianos, nos matemos”.
Um camponês de Filadelfia, município que segue sendo alvo dos ataques dos mercenários. Agradeceu a presença militar, que, para ele, é uma garantia para poder circular livremente:
“Cobija
já está tranqüila por causa da presença dos
militares mas, agora, a guerra se transladou aos municípios
rurais. Sabemos que há muita gente ferida no morro, e há
companheiros que seguem a caminho. Mas não podemos retornar ao
campo, porque não temos segurança”.
Oscar, estudante, que, notavelmente nervoso, relatou:
“Íamos em uma camionete, quando apareceu um veículo do governo departamental, e começaram a disparar contra a gente”.
Oscar está escondido em Cobija porque teme por sua vida. O número de mortos subiu a 25, outros 25 estão feridos e há 106 desaparecidos como conseqüência do brutal massacre de quinta-feira passada no município de El Porvenir, informou no domingo (14) a Federação Única de Trabalhadores Camponeses de Pando. (Red Erbol- www.erbol.com.bo)
Comentários - 2
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2 Lucilene Gaspar - 16-09-2008 - 23:07:23h
Violência contra a democraciaA humanidade já não comporta tanta crueldade em nome do egoísmo . Sentimento mais desgraçado dos sentimentos...pois quem o possui fica cego...desumano. Tenho certeza que a Justiça se fará ouvir na Bolívia... ... . Já chega! Que o Império do mal, vá cuidar dos seus problemas internos.. pois lá, nem eles mesmos estão se aguentando nas pernas...
1 José - 16-09-2008 - 09:12:54h
JustiçaComo podem atuar dessa maneira cruel contra pessoas cuja a humildade e o trabalho são os lemas. Até quando vamos admitir que a crueldade da raça humana fique impune, quando nós homens de boa fé, temos mais do que o poder para aniquila-la; mas cometem as maiores atrocidades sempre de baixo dos nossos olhos. Justiça seja feita com sangue derramado, para lavar a alma dessa pobre gente que clamou apenas pela unidade democrática e consideração pela constituição legítima aprovada pelo grande povo boliviano.