A força que vem do Trópico
As lutas em defesa da folha de coca na região do Chapare, no coração boliviano, serviram de fermento para a consolidação de um movimento social e político decisivo para a chegada de Evo Morales ao governo
Igor Ojeda
de Chipiriri, Villa Tunari e Cochabamba (Bolívia)
Numa estrada de cascalho em Chipiriri, María Eugenia caminha, ainda sob o efeito da reunião do sindicato de cocaleros, que acabara de terminar.
– Como foi?, pergunto. (Havia esperado três horas por sua saída)
– Boa. Era importante.
– Qual era o motivo?
– Por causa dos professores rurais que participaram do protesto contra o governo. Discutimos o que fazer com eles.
– Ah, pela Lei de Pensões, né?
– Isso. Eles têm todo o direito de se manifestar, mas não às vésperas do referendo revogatório [de 10 de agosto]. Serviram como instrumento da direita.
– Entendi. Por isso que vocês estão bravos?
– É. Passamos por tanta luta, tantas humilhações, violações e mortes para chegar a esse processo de transformações que não podemos pô-lo a perder.
Chipiriri não é um lugar qualquer do território boliviano. A pequena e pobre comunidade rural faz parte de uma importante região, famosa internacionalmente: o Chapare, ou Trópico de Cochabamba.
É nessa zona tropical no coração da Bolívia que, do final da década de 1980 até os primeiros anos do novo século, viveu-se uma verdadeira guerra. De um lado, os produtores de folha de coca, acusados de serem narcotraficantes. Do outro, os governos de turno, armados com a polícia e o exército, e assessorados pela embaixada dos EUA, com o objetivo de erradicar as plantações.
O saldo: inúmeros mortos, feridos, detidos, traumatizados. Outras tantas estupradas. Mas, felizmente, não só isso. Tamanho terror estatal contribuiu, também, para o nascimento de uma consciência política cujo desdobramento ninguém foi capaz de controlar.
Pois o Chapare foi o berço do Movimiento Al Socialismo (MAS), espécie de partido/movimento social/sindicato que exerce a Presidência da República desde janeiro de 2006. E é a região onde despontou como líder sindical e, posteriormente, político, o cocalero aymara Evo Morales, hoje presidente da Bolívia e impulsionador, como diz María Eugenia, do “processo de transformações” pelo qual passa o país.
Tempos de terror
“Posso ver suas credenciais?”, pergunta Ever Montoya, diretor da Radio Soberanía, antes de aceitar conceder a entrevista. Estamos a poucos metros e alguns dias antes da conversa com María Eugenia.
Entrego
minha carteira internacional de jornalista. Ele olha, examina com
atenção... e indaga, desconfiado: “O senhor é
militar?”. Não, de jeito nenhum, quase exclamo. Ever tinha
se confundido com meu endereço em São Paulo que
constava no documento. A rua homenageia algum tenente desconhecido.
No
Trópico de Cochabamba, os traumas adquiridos com os anos de
guerra contra o Estado são perceptíveis a olho nu.
Exemplos como o descrito acima se somam aos relatos dos que viveram,
direta ou indiretamente, os horrores dos massacres, das invasões
de domicílios, das prisões arbitrárias, das
violações às mulheres e crianças.
“Antes,
sofríamos. Não nos deixavam semear nossa coquita.
Eles vinham e nos tiravam. Sequer nos deixavam coca para o pijcheo
[o ato de mascar coca, em quéchua]. Porque nós estamos
acostumados a pijchar para trabalhar. Eles diziam que, para
ficarmos com um pouco, tinham que obter uma ordem do governo dos EUA.
Pedíamos muito, dizendo que nos deixasse pelo menos um pouco
para irmos a Cochabamba e trocarmos por vagem, por chuño
[variação da batata]. Mas não permitiam”,
lembra Luiza Argota, uma senhora cocalera que está no
Chapare desde 1963 e que hoje vive em um chaco (como é
chamada a pequena propriedade rural) em Chipiriri com o filho, a nora
e os netos.
O
filho, Claudio López Argota, quase não tem tempo de
falar com a reportagem e mostrar a plantação de coca.
Precisa remexer as folhas que estão no pátio, sobre uma
lona de uns 60 metros quadrados. O processo ajuda na secagem
adequada. Do contrário, a coca fica quebradiça e pouco
apta para o consumo.
Mas,
depois de alguns minutos, Claudio se dá uma folga: “Éramos
bem reprimidos pelos governos anteriores. Havia muitas matanças,
feridos. A vida não era tranqüila. Nos sentíamos
como se estivéssemos em uma guerra. A cada instante, tínhamos
que nos mobilizar. Então, nos jogavam gás lacrimogêneo,
nos metiam bala. Eles diziam que aqui era a zona vermelha. Agora,
mudou. Graças ao novo governo, é um lugar bem
tranqüilo. Já dizem que é um paraíso
tropical”.
A
dirigente María Eugenia, hoje com 30 anos, viveu a “guerra”
no Chapare na adolescência e no início da juventude. Ela
sentiu o sofrimento na pele, pois seus pais participaram da
resistência cocalera.
Quando tinha 8 anos,
sua mãe, acusada de narcotráfico, ficou presa por quase
cinco meses, até ser solta por falta de provas. Seu pai, em
defesa da folha de coca, fez greve de fome durante três
semanas, voltando para casa “meio morto”.
“Durante
esse tempo, sofríamos muito. Tudo que tínhamos, o
dinheiro que meus pais podiam economizar, eles levavam tudo. As
coisas novas, cobertores, mosqueteiras, levavam tudo. Então,
havia muita pobreza. Mesmo assim, não tínhamos onde
viver, e por isso continuávamos aqui no Chapare”, lembra.
Não
se conhece exatamente o número de mortos e feridos dos anos de
repressão estatal aos cocaleros. No entanto, levantamento
feito com base em dados de fontes oficiais e da imprensa pelo
pesquisador Fernando Salazar, do Instituto de Estudos Sociais e
Econômicos da Universidad Mayor de San Simón (UMSS), de
Cochabamba, dá uma idéia aproximada.
No
período de 1980 a 2004, teriam sido mortas 95 pessoas (entre
elas, oito bebês asfixiados por gás lacrimogêneo,
três menores de idade e três mulheres); detidas
ilegalmente, 4130, e, estupradas, 13 mulheres, embora tal número
seja considerado subestimado. Além disso, entre 1985 e 2004,
foram torturados pelas forças oficiais 121 civis (dois menores
e oito mulheres).
“Podemos
fazer uma comparação com este gravador. Se quisermos,
apagamos o que tem dentro. O que não se pode fazer com a mente
das pessoas, as crianças em particular, desde um ponto de
vista psicológico. Ou seja, o jovem de agora, a criança
de ontem, ainda vive seus traumas. Das invasões, dos gases, do
cheiro... associam imediatamente um helicóptero com a presença
militar”, lamenta Ever, da Radio Soberanía. (Leia mais na edição 287 do Brasil de Fato)
