Em apoio à autonomia, uma multidão em verde e branco
No ato de encerramento da campanha pelo “sim” no referendo autonômico de Santa Cruz, marcado para o dia 4, autoridades locais evocam a democracia e a liberdade

1º/05/2008
Igor Ojeda,
Idosos,
crianças, jovens, adultos. Casais, famílias, grupos de amigos. Brancos,
mestiços, indígenas. Ricos, pobres, classe média. Quase todos vestidos
com apenas duas cores. As camisetas, as blusas, os broches, os gorros,
as faixas de cabelo são verdes e brancos, imitando os tons da bandeira
do departamento de Santa Cruz. Melhor dizendo: reproduzindo as cores da
campanha pela autonomia da região.
Milhares de pessoas em verde e
branco compareceram, na quarta-feira (30), ao encerramento oficial da
campanha pelo “sim” no referendo marcado para o domingo (4). Convocada
pelo governador crucenho, Rubén Costas, e pelo presidente do Comitê
Cívico local, a consulta – considerada ilegal pelo governo de Evo
Morales – busca ratificar e implementar, na prática, o estatuto
autonômico do departamento, elaborado em dezembro de 2007.
No
caminho para a praça El Cristo, local da concentração, carros passam,
bozinando, com bandeiras de Santa Cruz e com incrições pró-autonomia.
Nas imediações do ato, um cenário de estádio de futebol em dia de jogo.
Uma grande quantidade de gente vestindo as mesmas cores se dirigem a um
só lugar.
Nas esquinas, em varais improvisados, vendedores
penduram diversos tipos de camisetas pelo “sim”. Outros oferecem
bandeiras verdes e brancas nos semáforos. Nas ruas que vão em direção
ao palco montado embaixo de uma estátua de Jesus Cristo com os braços
para o alto, ambulantes se embrenham na multidão na tentativa de
garantir a renda para o feriado.
“Nação camba”
Antes
do início do ato, diversos músicos locais se revezam para entreter os
participantes. Cantam canções que reforçam a identidade crucenha e a
luta por autonomia. Entoam gritos de guerra pelo “sim” no referendo,
seguidos pelo público. Os manifestantes, por sua vez, empunham
bandeiras de Santa Cruz com a inscrição “Democracia, autonomia,
liberdade”. Em algumas camisetas, o lema “Que nada nem ninguém nos
detenha”. Em outras, o mapa da “nação camba” (os oriundos do leste do
país são conhecidos como cambas), com um traçado de um país imaginário
formado pelo oriente e o norte boliviano.
Folhetos convocando o
voto no “sim” são distribuídos. Neles, os motivos para fazê-lo são
elencados: “Integraremos a todos, sem exclusões”, “Melhorará a saúde e
a educação”, “Não será preciso ir a La Paz para os trâmites”,
“Fortaleceremos nossos valores e costumes”, “A delinqüência será melhor
combatida”, “Administraremos nossos recursos”, “Os indígenas e
camponeses melhorarão suas formas de vida”, entre outros.
Após o
hino boliviano, o ato oficial tem início. O presidente do Comitê Cívico
de Santa Cruz, o produtor de soja Branko Marinkovic, toma a palavra.
“Faltam quatro dias para o sonho da autonomia, para um novo amanhecer
para toda a Bolívia”, exclama. Em seguida, ataca os governos Evo e Hugo
Chávez, da Venezuela, a quem acusa de ingerência.
“O povo tem
agüentado, por todo esse tempo, os ataques do centralismo e das forças
estrangeiras. Ao senhor Chávez, quero dizer que a autonomia pertence ao
povo, não à Venezuela, só a este povo. Demonstraremos que somos um povo
unido, próspero e pacífico, que vota e decide por sua autonomia”,
alerta Marinkovic, que contina seu discurso afirmando que o processo
autonômico significa uma sociedade solidária, uma economia forte e um
país sem pobreza.
“Não temos medo”
Em seguida, é a
vez do criador de gado e governador de Santa Cruz, Rubén Costas. “No
dia 4 de maio, diremos um ´sim` à democracia, à liberdade, a nossa
forma de ser. A autonomia tem razão histórica e é direito fundamental
de sermos donos de nosso destino. É parte essencial de nossa
liberdade”, diz, para depois ser ovacionado pelos presentes.
Logo
depois, Costas ressalta que o processo autonômico não será usado em
favorecimento da elite crucenha, como acusam o governo e movimentos
sociais do país. “A autonomia não poderá ser jamais um instrumento de
interesses mesquinhos. Nem ferramenta para concentrar riqueza e
aumentar a desigualdade e o sofrimento do povo”.
Para finalizar,
ataca o governo de Evo Morales. Lembrando o congelamento, no dia 24 de
abril, das contas do governo departamental, por este ter se
desconectado do sistema integrado de gestão, Costas qualificou o ato de
terrorismo de Estado. “[Confiscaram] recursos que pertencem às
crianças, aos idosos, aos jovens, aos homens e mulheres. Recursos que
são produtos do trabalho e esforço de nosso povo”.
E conclui: “O
projeto hegemônico e totalitário do governo do MAS [Movimiento al
Socialismo, partido de Evo] destila todo seu ódio contra Santa Cruz.
Querem nos destruir. Nos ameaçaram com uma guerra civil. Não temos
medo!”. A multidão segue o exemplo e grita, várias vezes: “Não temos
medo!”.
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Frases do ato de encerramento da campanha pela autonomia
Rubén Costas, governador de Santa Cruz
“No
dia 4 de maio, diremos um ´sim` à democracia, à liberdade, a nossa
forma de ser. A autonomia tem razão histórica e é direito fundamental
de sermos donos de nosso destino. É parte essencial de nossa
liberdade”.
“Nossa luta é justa. O caminho correto para nosso
povo e nosso país é esse. Para que o poder seja do povo e para que se
construa um país forte e unido”.
“A autonomia não tem dono, não tem partido, não é propriedade de uma classe social. É de todos os bolivianos”.
“O sentimento autonomista aprendemos do homem e da mulher que trabalharam nessa terra, que deram sua vida por esse ideal”.
“A
autonomia departamental não é um fim em si mesmo. É um sistema que
permitirá melhorar a vida de nossa gente. Que permitirá um melhor
controle social”.
“A autonomia não poderá ser jamais um
instrumento de interesses mesquinhos. Nem ferramenta para concentrar
riqueza e aumentar a desigualdade e o sofrimento do povo”.
“O
projeto hegemônico e totalitário do governo do MAS destila todo seu
ódio contra Santa Cruz. Querem nos destruir. Nos ameaçaram com uma
guerra civil. Não temos medo!”
“Prentenderam usar contra nós a
Igreja e os chamados movimentos sociais. Tiveram o cinismo de afirmarem
à comunidade internacional que nosso movimento é separatista e
violento. Não aceitaremos provocações. A razão e o direito estão do
nosso lado”.
“Eles praticam o terrorismo de Estado, com o
confisco de nossos recursos. Recursos que pertencem às crianças, aos
idosos, aos jovens, aos homens e mulheres. Recursos que são produtos do
trabalho e esforço de nosso povo”.
“Não se dão conta de que o
poder é do povo, e não do Estado central. Em sua miopia totalitária,
querem convencer as pessoas que o centralismo beneficia os
departamentos. Mas o centralismos só serve para que, antes os
neoliberais, e hoje os pintados de azul, apropriem-se dos recursos de
todos”.
Branko Marinkovic, presidente do Comitê Cìvico de Santa Cruz
“Faltam quatro dias para o sonho da autonomia, para um novo amanhecer para toda a Bolívia”.
“O povo tem agüentado todo esse tempo, os ataques do centralismo e das forças estrangeiras”.
“O futuro chegou, está aqui e se chama autonomia”.
“Ao
senhor Chávez, quero dizer que a autonomia pertence ao povo, não à
Venezuela, só a este povo. Demonstraremos que somos um povo unido,
próspero e pacífico, que vota e decide por sua autonomia”.
“Que
votemos por um futuro melhor. Um voto pela unidade da pátria, por uma
sociedade solidária, uma economia forte e um país melhor. Sonhamos com
uma Bolívia sem pobreza. A autonomia éo sonho dos mais necessitados”.
“A
democracia é a voz do povo. Dizemos isso ao governo do MAS e ao mundo
inteiro. Mostraremos ao mundo que em Santa Cruz se está construindo o
futuro para todos”.
“Queremos autonomia para derrotarmos o único inimigo da Bolívia: a pobreza”.












