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Movimentos sociais iniciam cerco ao Congresso boliviano

by paula last modified 2008-04-30 14:42

Líder camponês afirma que não se descarta ocupação do prédio caso parlamentares não aprovem a convocação de referendos

Líder camponês afirma que não se descarta ocupação do prédio caso parlamentares não aprovem a convocação de referendos

26/02/2008


Igor Ojeda,

Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia)


Nem mesmo a chuva e o vento gelados impediram que as principais organizações populares da Bolívia dessem início, nesta terça-feira (26), uma vigília em frente ao Congresso Nacional do país, localizado na Praça Murillo, em La Paz.

Eles exigem que o Parlamento aprove a lei de convocação de dois referendos: o aprobatório da nova Constituição e o dirimidor, que decidirá a respeito de um dos artigos da nova Carta Magna; se um latifúndio poderá ter 5 mil ou 10 mil hectares de extensão. Uma resolução da Assembléia Constituinte havia estabelecido que o legislativo deveria ter convocado o referendo dirimidor até o dia 15 de janeiro.

“No momento, não se descarta que tomemos o Congresso caso esses senhores não trabalhem”, alerta Issac Ávalos, secretário-executivo da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB). “Não iremos incomodar a ninguém. Queremos simplesmente que trabalhem. Tampouco vamos fechar a passagem, iremos apenas fazer vigília. Só em último caso, se eles não escutarem o povo boliviano, vamos tomar o Congresso. Eles têm até depois de amanhã para começarem a trabalhar”, completa.



“Vigília pacífica”


Alberto Larico, Federação de Camponeses do Raio Urbano e Suburbano de El Alto (Fedecarusu), reforça a ameaça. “Nós vamos nos informar sobre o que acontece lá dentro. Se os partidos tradicionais tentarem nos prejudicar, poderemos ocupar o Congresso”. Segundo ele, outras medidas também podem ser tomadas, como marchas e bloqueios de estradas.

Desde o começo do dia, apenas algumas centenas de pessoas estavam concentradas na Praça Murillo. A chuva que caía a cada instante ajudava a dispersar os manifestantes. No entanto, às 14 horas (15 horas de Brasília), uma grande marcha de diversos movimentos sociais do país chegou ao local. O líder da CSUTCB estima que eram três mil manifestantes, e que mais dois mil se dirigiriam para lá nos próximos dois dias. De acordo com Ávalos, foram convocadas apenas cinco mil pessoas, pois o ato “não é uma concentração nem uma marcha, e sim uma vigília pacifica”.

Segundo ele, os referendos ainda não foram convocados por interesses estrangeiros e dos partidos políticos neoliberais, “que sempre viveram roubando e enganando o povo boliviano. Estamos cansados disso. Ninguém vai fazer voltar atrás o processo de mudança, liderado pelo presidente Evo Morales. Vamos seguir lutando, porque nosso presidente não nos traiu, segue firme, segue fazendo as transformações no país, e nós, como movimentos sociais, vamos apoiar”.


Democracia


O início do cerco dos movimentos sociais ao Congresso Nacional provocou a reação de parlamentares da oposição, que acusaram a mobilização de antidemocrática, por pressionar os trabalhos do legislativo. “Temos direito de reclamar. Isso é democracia. Cada um dos bolivianos tem esse direito”, rebate Alberto Larico, da Fedecarusu.

“Em toda nossa vida, nos mobilizamos, fizemos greve, paralisações, em defesa de nossas riquezas, em defesa de nossa soberania, contra a fome de nosso povo, contra a discriminação e marginalização. No entanto, eles que estão convocando um referendo ilegal, inconstitucional. Que contradição. Que moral eles têm para dizer isso? Nenhuma”, completa Ávalos.

O dirigente camponês se refere ao referendo regional, convocado pelo departamento opositor de Santa Cruz para 4 de maio, sobre o estatuto autonômico lançado em dezembro. Hoje, espera-se que o departamento de Beni anuncie a consulta sobre seu estatuto para o mesmo dia. Na segunda-feira (25), o presidente Evo Morales pediu ao Congresso a realização do referendo dirimidor também para o dia 4 de maio.

O governo considera as consultas autonômicas ilegais, uma vez que apenas o Parlamento tem a faculdade de convocá-las.


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