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Periferia de Santa Cruz resiste ao referendo

by jpereira last modified 2008-05-09 14:56

Moradores de bairro pobre queimaram urna e cédulas em protesto contra consulta que, como o governo Evo Morales, consideram ilegal; Boca-de-urna aponta vitória do “sim” por 82,7% dos votos

Moradores de bairro pobre queimaram urna e cédulas em protesto contra consulta que, como o governo Evo Morales, consideram ilegal; Boca-de-urna aponta vitória do “sim” por 82,7% dos votos


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05/05/2008


Igor Ojeda
Enviado especial pelo Brasil de Fato a Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)


Leia mais:

-> Para Evo Morales,
referendo fracassou


Ao chegar ao Plan 3000, bairro periférico de Santa Cruz de la Sierra, o que mais chama a atenção é o contraste com a região central da cidade, a cerca de 15 minutos de carro. A começar por La Rotonda, uma rotatória que é considerada uma espécie de centro da área.
Mal cuidada, boa parte dela está coberta de areia, enquanto em alguns cantos sobressaem matos há muito tempo sem serem podados. Em toda sua volta, milhares de barraquinhas de zinco formam um grande mercado popular. Caminhando um pouco mais pelas ruas vizinhas, a precariedade se acentua. Ruas de terra se somam a praças deterioradas e casas bastante pobres.
O grande número de pessoas que circula pelo local igualmente evidencia o contraste com o centro da cidade. Diferentemente dos traços majoritariamente mestiços e brancos dos transeuntes da praça 24 de Septiembre, a principal de Santa Cruz, os da população do Plan 3000 são, na quase totalidade, indígenas. O bairro abriga os migrantes e filhos de migrantes collas, como são chamados os oriundos da parte centro-ocidental da Bolívia, que se dedicam, sobretudo, ao comércio informal e ao setor de serviços.
Neste domingo (4), por volta das 16h30 (17h30 de Brasília), através de um microfone e uma caixa de som montados desde a manhã em La Rotonda, anunciou-se a confirmação da morte de um deles, um senhor vítima durante enfrentamento com membros da Unión Juvenil Cruceñista (UJC), que se dirigiram à região para defender o referendo sobre os estatutos autonômicos de Santa Cruz, convocado pelo governador do departamento e o Comitê Cívico local, e considerado ilegal pelo governo boliviano.
Até a conclusão desta matéria, havia três versões sobre sua morte. Uma dava conta de que o falecido recebeu uma paulada na cabeça, outra especulava que o mesmo sofreu um infarto, enquanto uma terceira dizia que ele havia sido asfixiado por gás lacrimogêneo.

Rechaço ao referendo

O Plan 3000 foi o símbolo do rechaço à consulta na cidade de Santa Cruz de la Sierra. Desde bem cedo, milhares de moradores se mobilizaram com o intuito de impedir a instalação de mesas e urnas de votações nos colégios da área.
 “Estamos aqui apoiando a nova Constituição e contra os estatutos autonômicos. Querem nos impor algo que não decidimos. Estão passando por cima da gente. Querem se apropriar dos recursos naturais de Santa Cruz”, protesta o artesão Mario Huanquina Padilla, de 33 anos. De acordo com ele, os principais defensores do referendo são quatro famílias que possuem as maiores extensões de terra do departamento, enquanto aqui as pessoas são pobres, não têm onde viver. Estamos bravos porque queremos que se respeite nosso voto, que elegeu um presidente indígena”.
O estatuto autonômico, que segundo os movimentos sociais do país foi elaborado por representantes da elite crucenha, prevê que o manejo dos recursos naturais e a titulação de terras sejam de faculdade do governo departamental. Rubén Costas, o governador, é criador de gado, enquanto o presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz é produtor de soja.
Sob gritos como “A direita não passará”, “Bolívia, unida, jamais será dividida”, “Plan de pé, nunca de joelhos”, os contrários ao referendo, empunhando bandeiras da Bolívia, se dirigiram a vários colégios locais para retirar urnas e cédulas. Durante o tempo em que a reportagem do Brasil de Fato permaneceu no bairro – cerca de sete horas –, por duas vezes grupos de moradores locais chegaram a La Rotonda carregando material eleitoral para serem queimados, em meio a aplausos e comemorações.
A reação dos favoráveis ao referendo, liderados pela Unión Juvenil Cruceñista – famosa por atos violentos –, não demorou. Para se somarem a setores de moradores do bairro que queriam votar e já estavam em confrontação contra os que os impediam, durante todo o dia, defensores do estatuto foram chegando ao Plan 3000, com o objetivo de impedir a entrada dos manifestantes nos locais de votação.

Enfrentamentos

Diversos enfrentamentos entre os dois grupos ocorreram ao longo de vários quarteirões do bairro e em diversas frentes, deixando como saldo, além do senhor morto, 36 feridos, alguns em estado grave. As armas eram pedaços de paus e pedras. O jornalista espanhol Álex Ayala, que vive na capital La Paz, afirmou ter visto membros da UJC portando armas de fogo, embora não há registros de ferimentos ou mortes à bala. Os confrontos eram acalmados periodicamente pela Polícia Nacional (subordinada ao governo de Evo Morales), que lançava bombas de gás lacrimogêneo em direção aos dois lados.
Por volta das 18hs (19hs de Brasília), saiu o resultado de boca-de-urna do referendo, dando a vitória do “sim” por 82,7% das intenções de voto. A partir do momento da divulgação, inúmeros veículos saíram pelas ruas do centro da cidade buzinando em comemoração. Duas horas depois, uma grande quantidade de pessoas se concentrou na praça 24 de Septiembre para celebrar. O governador Rubén Costas saudou a multidão afirmando que a aprovação do estatuto servirá para se acabar com a pobreza no departamento e que a descentralização ajudará a diminuir as desigualdades sociais em todo o país.
O presidente Evo Morales, por sua vez, reafirmou em pronunciamento pela TV a ilegalidade do referendo, e disse não reconhecer seu resultado. A Corte Nacional Eleitoral também se posiciona de forma contrária à consulta. Ações com o objetivo de impedir a votação também ocorreram em outras regiões do departamento, principalmente nos povoados de San Julián e Yapacaní. Os manifestantes queimaram de urnas e bloquearam estradas. Em La Paz, El Alto, Cochabamba, Oruro e Potosí, cidades de amplo apoio a Evo, dezenas de milhares de pessoas se manifestaram, em cada uma delas, contra o referendo sobre os estatutos autonômicos e “pela unidade da Bolívia”.

Consulta ilegal em Santa Cruz - Bolívia

Posted by Magno Oliveira at 2008-05-06 18:02

Os moradores da periferia de Santa Cruz - Bolívia, contrariamente ao que alguns pensam, de monstraram que condições sociais adversas não representam alienação. Esses moradores demonstraram uma consciência política que muitas vezes falta na classe média dos países da América Latina assolados pelo imperialismo. O fato é que a contagem regressiva no processo de implantação de um modelo social justo já começou e não há mais como contê-lo. Que as camdas populares no Brasil e as organizações sociais iniciem o mesmo processo para que tenhamos nas próximas eleições presidenciais, enfim, um presidente comprometido com as mudanças estruturais que tanto necessitamos. Magno Oliveira - magnoliveira.blogspot.com.br


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