Periferia de Santa Cruz resiste ao referendo
Moradores de bairro pobre queimaram urna e cédulas em protesto contra consulta que, como o governo Evo Morales, consideram ilegal; Boca-de-urna aponta vitória do “sim” por 82,7% dos votos
05/05/2008
Igor Ojeda
Enviado especial pelo Brasil de Fato a Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
Leia mais:
-> Para Evo Morales,
referendo fracassou
Ao chegar ao Plan 3000, bairro periférico de Santa Cruz de la Sierra, o
que mais chama a atenção é o contraste com a região central da cidade,
a cerca de 15 minutos de carro. A começar por La Rotonda, uma rotatória
que é considerada uma espécie de centro da área.
Mal cuidada, boa parte dela está coberta de areia, enquanto em alguns
cantos sobressaem matos há muito tempo sem serem podados. Em toda sua
volta, milhares de barraquinhas de zinco formam um grande mercado
popular. Caminhando um pouco mais pelas ruas vizinhas, a precariedade
se acentua. Ruas de terra se somam a praças deterioradas e casas
bastante pobres.
O grande número de pessoas que circula pelo local igualmente evidencia
o contraste com o centro da cidade. Diferentemente dos traços
majoritariamente mestiços e brancos dos transeuntes da praça 24 de
Septiembre, a principal de Santa Cruz, os da população do Plan 3000
são, na quase totalidade, indígenas. O bairro abriga os migrantes e
filhos de migrantes collas, como são chamados os oriundos da parte
centro-ocidental da Bolívia, que se dedicam, sobretudo, ao comércio
informal e ao setor de serviços.
Neste domingo (4), por volta das 16h30 (17h30 de Brasília), através de
um microfone e uma caixa de som montados desde a manhã em La Rotonda,
anunciou-se a confirmação da morte de um deles, um senhor vítima
durante enfrentamento com membros da Unión Juvenil Cruceñista (UJC),
que se dirigiram à região para defender o referendo sobre os estatutos
autonômicos de Santa Cruz, convocado pelo governador do departamento e
o Comitê Cívico local, e considerado ilegal pelo governo boliviano.
Até a conclusão desta matéria, havia três versões sobre sua morte. Uma
dava conta de que o falecido recebeu uma paulada na cabeça, outra
especulava que o mesmo sofreu um infarto, enquanto uma terceira dizia
que ele havia sido asfixiado por gás lacrimogêneo.
Rechaço ao referendo
O Plan 3000 foi o símbolo do rechaço à consulta na cidade de Santa Cruz
de la Sierra. Desde bem cedo, milhares de moradores se mobilizaram com
o intuito de impedir a instalação de mesas e urnas de votações nos
colégios da área.
“Estamos aqui apoiando a nova Constituição e contra os estatutos
autonômicos. Querem nos impor algo que não decidimos. Estão passando
por cima da gente. Querem se apropriar dos recursos naturais de Santa
Cruz”, protesta o artesão Mario Huanquina Padilla, de 33 anos. De
acordo com ele, os principais defensores do referendo são quatro
famílias que possuem as maiores extensões de terra do departamento,
enquanto aqui as pessoas são pobres, não têm onde viver. Estamos bravos
porque queremos que se respeite nosso voto, que elegeu um presidente
indígena”.
O estatuto autonômico, que segundo os movimentos sociais do país foi
elaborado por representantes da elite crucenha, prevê que o manejo dos
recursos naturais e a titulação de terras sejam de faculdade do governo
departamental. Rubén Costas, o governador, é criador de gado, enquanto
o presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz é produtor de soja.
Sob gritos como “A direita não passará”, “Bolívia, unida, jamais será
dividida”, “Plan de pé, nunca de joelhos”, os contrários ao referendo,
empunhando bandeiras da Bolívia, se dirigiram a vários colégios locais
para retirar urnas e cédulas. Durante o tempo em que a reportagem do Brasil de Fato
permaneceu no bairro – cerca de sete horas –, por duas vezes grupos de
moradores locais chegaram a La Rotonda carregando material eleitoral
para serem queimados, em meio a aplausos e comemorações.
A reação dos favoráveis ao referendo, liderados pela Unión Juvenil
Cruceñista – famosa por atos violentos –, não demorou. Para se somarem
a setores de moradores do bairro que queriam votar e já estavam em
confrontação contra os que os impediam, durante todo o dia, defensores
do estatuto foram chegando ao Plan 3000, com o objetivo de impedir a
entrada dos manifestantes nos locais de votação.
Enfrentamentos
Diversos enfrentamentos entre os dois grupos ocorreram ao longo de
vários quarteirões do bairro e em diversas frentes, deixando como
saldo, além do senhor morto, 36 feridos, alguns em estado
grave. As armas eram pedaços de paus e pedras. O jornalista espanhol
Álex Ayala, que vive na capital La Paz, afirmou ter visto membros da
UJC portando armas de fogo, embora não há registros de ferimentos ou
mortes à bala. Os confrontos eram acalmados periodicamente pela Polícia
Nacional (subordinada ao governo de Evo Morales), que lançava bombas de
gás lacrimogêneo em direção aos dois lados.
Por volta das 18hs (19hs de Brasília), saiu o resultado de boca-de-urna
do referendo, dando a vitória do “sim” por 82,7% das intenções de voto.
A partir do momento da divulgação, inúmeros veículos saíram pelas ruas
do centro da cidade buzinando em comemoração. Duas horas depois, uma
grande quantidade de pessoas se concentrou na praça 24 de Septiembre
para celebrar. O governador Rubén Costas saudou a multidão afirmando
que a aprovação do estatuto servirá para se acabar com a pobreza no
departamento e que a descentralização ajudará a diminuir as
desigualdades sociais em todo o país.
O presidente Evo Morales, por sua vez, reafirmou em pronunciamento pela
TV a ilegalidade do referendo, e disse não reconhecer seu resultado. A
Corte Nacional Eleitoral também se posiciona de forma contrária à
consulta. Ações com o objetivo de impedir a votação também ocorreram em
outras regiões do departamento, principalmente nos povoados de San
Julián e Yapacaní. Os manifestantes queimaram de urnas e bloquearam
estradas. Em La Paz, El Alto, Cochabamba, Oruro e Potosí, cidades de
amplo apoio a Evo, dezenas de milhares de pessoas se manifestaram, em
cada uma delas, contra o referendo sobre os estatutos autonômicos e
“pela unidade da Bolívia”.

















Consulta ilegal em Santa Cruz - Bolívia
Os moradores da periferia de Santa Cruz - Bolívia, contrariamente ao que alguns pensam, de monstraram que condições sociais adversas não representam alienação. Esses moradores demonstraram uma consciência política que muitas vezes falta na classe média dos países da América Latina assolados pelo imperialismo. O fato é que a contagem regressiva no processo de implantação de um modelo social justo já começou e não há mais como contê-lo. Que as camdas populares no Brasil e as organizações sociais iniciem o mesmo processo para que tenhamos nas próximas eleições presidenciais, enfim, um presidente comprometido com as mudanças estruturais que tanto necessitamos. Magno Oliveira - magnoliveira.blogspot.com.br