Porque combater a monocultura do eucalipto?
Neste especial, você vai entender por quê mais de duas mil camponesas da Via Campesina ocuparam o horto de mudas de eucalipto da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul, dia 8 de março
Caro leitor,
Neste especial, você vai entender por quê mais de duas mil camponesas da Via Campesina ocuparam o horto de mudas de eucalipto da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul, dia 8 de março. Elas quiseram chamar atenção da sociedade para um problema que vem se agravando nos últimos trinta anos: a monocultura do eucalipto.
A prática do monocultivo na agricultura, ou seja, ter apenas uma espécie de planta numa imensa área de terra, é, por si só, perversa. A monocultura representa a destruição das demais formas de vida porque afeta o clima, o solo, as plantas, os animais. Sobretudo, as pessoas.
O eucalipto é ainda mais perverso porque se trata de uma planta exótica, que não existia na região do Brasil. Como foi adaptada para germinar em solos tropicais, a seu redor não nasce mais nada. Os cientistas passaram a chamar o monocultivo de eucalipto de "Deserto Verde" - e não de floresta, uma vez que uma floresta significa diversidade de plantas e animais.
No caso do eucalipto, são plantações industriais, que visam lucro para capitalistas internacionais e causam muitos prejuízos. Para começar, essas empresas usam grande quantidade de veneno, os chamados herbicidas, para matar as demais ervas e não atrapalhar o eucalipto. O veneno desce para o lençol freático, debaixo da terra, e contamina a água.
As plantas de eucalipto, após o primeiro ano, precisam de 30 litros de água por dia para crescer. Isso gera desequilíbrio hídrico na natureza.
No norte do Espírito Santo e no Sul da Bahia, as empresas de celulose compraram terras de centenas de médios e pequenos agricultores, destruíram a Mata Atlântica. Resultado: desapareceram centenas de variedades vegetais e dezenas de animais daquele meio.
O caso da Aracruz é excepcionalmente alarmante. Durante a década de 1970, os capitalistas suecos e noruegueses trouxeram suas fábricas de celulose para o Brasil. Amparados pela ditadura militar, se apoderaram de 18 mil hectares de terras indígenas dos povos Tupi e Guarani. Desalojaram mais de dez mil famílias de camponeses negros, remanescentes dos quilombolas, que não tinham titulação das terras.
Essa situação está sendo reproduzida pela Aracruz no Rio Grande do Sul, onde a empresa comprou uma fábrica do grupo norueguês Borregard e mais de 150 mil hectares de terra. Porém, o que as empresas de celulose querem, no Sul, é mais do que isso: o objetivo é ter acesso à mais rica reserva de água doce do mundo, o chamado Aqüífero Guarani, que fica submerso em toda região habitada antigamente pelos Guarani.
As populações do hemisfério Norte não querem mais expansão de fábricas de celulose. Então o capital internacional vem para os países do Sul, em especial Brasil, Uruguai e Austrália, cujos governos têm sido subservientes às investidas do mercado.
No Brasil, o cenário chega a ser patético. Os capitais da Noruega e da Suécia, que dominam a tecnologia, trazem apenas as máquinas. As plantações e as fábricas são financiadas pela poupança nacional, por meio do BNDES. Ou seja, dinheiro do povo para financiar poluição e destruição do ambiente, o que prejudica o próprio povo.
A ação das mulheres foi de denúncia contra a perversidade do capital internacional. Infelizmente, quase toda a chamada grande imprensa atacou as mulheres e defendeu a Aracruz. É fácil entender: usam o papel para os jornais e ainda recebem polpudas verbas publicitárias das empresas. Muitos políticos também ficaram contra as mulheres. Porque receberam verbas dessas empresas para suas campanhas. Pior, todos os partidos receberam. Até candidatos do Partido dos Trabalhadores, que deveriam defender os interesses dos trabalhadores!
As mulheres da Via Campesina têm razão e as gerações futuras agradecem