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Arquivo: leia entrevista concedida por Raúl Reyes ao Brasil de Fato em 2004

by jpereira last modified 2008-03-07 16:33

Situação de medo se agrava com Plano Colômbia; releia entrevista de 2004 com o comandante e porta-voz Raúl Reyes, quando um de nossos colaboradores visitou o acampamento guerrilheiro

Situação de medo se agrava com Plano Colômbia; releia entrevista de 2004 com o comandante e porta-voz Raúl Reyes, quando um de nossos colaboradores visitou o acampamento guerrilheiro


07/03/2008


Yuri Martins Fontes,
Especial para o Brasil de Fato

O povo colombiano vive um conflito armado civil há mais de meio século. Com a intervenção estadunidense – dita Plano Colômbia – as possibilidades de paz se tornam cada dia mais distantes. O atual governo busca no confronto militar a solução para exterminar os grupos revolucionários, sem atentar à triste realidade social do país. Cartazes espalhados por rebeldes explicitam o terror vivido: “Plan Colombia, los gringos ponen las armas, Colombia pone los muertos”.
A guerra civil colombiana remonta 1948, ano em que nacionalistas liberais e pequenos grupos socialistas começam luta armada contra os conservadores, aliados de multinacionais que se instalavam por lá. Esta história pode ser conhecida na grande obra de García Marques “Cem Anos de Solidão”. Contudo, a partir de 1964, tendo conseguido algumas de suas reivindicações, os liberais tentaram frear o avanço das conquistas políticas, passando ao lado conservador, num momento em que as guerrilhas comunistas ganhavam força. Neste contexto surgem as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), entre outros grupos revolucionários menores, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Exército Popular de Libertação (EPL).
No sentido de combater as organizações revoltosas, são criados então os grupos paramilitares de extrema direita, que de um modo geral buscam defender os privilégios de multinacionais, narcotraficantes e latifundiários. O interior da Colômbia é hoje uma terra sem lei, onde domina o medo e o mistério. Freqüentemente, os chamados “paracos”, efetuam emboscadas e genocídios em estradas e povoados rurais.
Apesar da violência destes grupos de extrema direita, ao fim de 2003, o presidente Álvaro Uribe fechou um acordo bastante suspeito, de rendição e anistia, com o maior grupo paramilitar do país, as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Em diversas regiões do país, os mercenários deste grupo são os próprios soldados do exército disfarçados por apenas um broche com a insígnia da AUC. “Não se dão ao trabalho de trocar nem o uniforme”, afirma um senhor no ponto de ônibus.
Desta forma, o governo fica mais à vontade para executar tarefas pouco populares – como a destruição de povoados inteiros e assassinatos de supostos “amigos” dos guerrilheiros. Um acordo de anistia total aos paramilitares sugere respaldo àqueles que afirmam a ligação de Uribe diretamente ao comando deste grupo fascista – a AUC. Ao que parece, com o forte apoio dos EUA e a propaganda massiva – que põe as FARC no dito “eixo do mal” perante a opinião pública –, as táticas de guerra puderam ficar mais abertas e agressivas.
Além das dificuldades impostas pelo terror destes grupos mercenários, há também o problema dos bandoleiros, quadrilhas armadas que se aproveitam do conflito para efetuar assaltos nas ermas rodovias do país. Isto tudo dificulta o deslocamento da população, e as viagens de observadores internacionais, impedindo assim a obtenção de notícias acerca da realidade atual na Colômbia.
Ainda que possamos conhecer algo do evento colombiano através dos jornais, em geral as informações que nos chegam são superficiais. Ideologicamente comprometida com a elite empresarial, a grande imprensa não tem interesse de tratar dos motivos que levam um povo à insurgência. Ao contrário. Da mesma forma que se passa com outros grupos contestadores – como o MST, ou o EZLN –, os noticiários sobre a guerra civil colombiana costumam ser parciais e muito carentes de densidade. Reduzem toda manifestação política à afirmação pueril de que se tratam de “terroristas” ou “desordeiros”.
Após o ataque das Torres Gêmeas, o mundo foi ainda mais polarizado. De um lado o belicoso império estadunidense, de outro o chamado “eixo do mal”. Qualquer contestação ao regime fundamentalista neoliberal passou então a ser vista como afronta. Classificando a subversão de terrorismo, ficou mais fácil vender a imagem do “bom colonizador” que bombardeia, invade e assassina em nome de Deus. 
Foi neste ínterim que as negociações pela paz na Colômbia foram interrompidas e subiu ao poder esse representante dos grandes donos de terra, Álvaro Uribe, disposto à guerra total. Desde a época do ex-presidente liberal Andres Pastrana, os EUA já haviam posto em prática o Plano Colômbia, em nome da suposta erradicação do plantio de coca. Na prática, o plano consiste em uma intervenção militar ostensiva, com fins políticos e territoriais, em pleno coração da Amazônia sul-americana. O governo oficial é apoiado com armas, dinheiro, helicópteros, treinamento e até mesmo com o despejo de armas químicas nas selvas do país, onde em alguma parte se ocultam os guerrilheiros. Na internete podem ser vistas fotos de camponeses deformados atingidos pelos venenos químicos das fumigações. Estes rios contaminados nascem nos Andes e vêm desaguar no território brasileiro, no Rio Amazonas – cooperando para a catástrofe ecológica prevista para médio prazo, caso as autoridades brasileiras não se mobilizem. 
Em plena era da informação – ou desinformação – as FARC permanecem sendo uma incógnita na história de exploração e cansaço de Nossa América.
 Em algum tempo de convivência no acampamento guerrilheiro pude provar da sensação rígida da vida na selva. Os guerrilheiros são em grande parte camponeses pobres cuja miséria lhes levou às fileiras rebeldes. Lá aprenderam a ler e a lutar. Mas há também aqueles outros, com mais formação, que optaram pela guerrilha armada, que vêem nas FARC uma chance de mudanças políticas no país.
Uma nação no coração da América do Sul, com petróleo, cocaína e abundante floresta amazônica sempre constará nas agendas do Império. Contudo, as negociações da ALCA na Colômbia passam por uma guerrilha que agora completa 40 anos de luta diária, contando com 30 mil homens armados e em constante movimento – a tática da guerrilha móvel – organizados em 7 blocos e 60 frentes, ocultos nas montanhas e mesmo nas cidades, e agindo em todo o território nacional.

Entrevista

As palavras do próprio Comandante do Secretariado Geral das FARC, Raúl Reyes, trazem informações que nos permitem refletir com mais elementos a respeito do pertinente assunto da subversão – que sempre estará em voga nos tempos de crise sistemática do capitalismo.


YMF – Comandante, como estão as conversações de paz com o governo?

CRR – Estão, paradas, não há nesse momento diálogos formais, o presidente da república liquidou todas as garantias que havia para as negociações prosseguirem. Proibiram visitas de delegações de muitos países, como a do México, Itália, República Dominicana e Venezuela. Pedem ao presidente Chávez para que contribua nos diálogos, mas negam a possibilidade de grupos venezuelanos virem conversar conosco. As FARC não aceitam isso. Consideramos que todos aqueles que queiram nos conhecer, deveriam poder vir sem restrições. Igualmente também queremos que o governo cumpra o compromisso de combater o paramilitarismo.
As FARC precisam conhecer a política que vai empregar o governo nesta luta, quais os instrumentos que vão utilizar, tanto bélicos como políticos, como de procedimentos, porque se o paramilitarismo continuar assassinando o povo colombiano – todo aquele que eles consideram amigo da guerrilha, ou amigo da paz ou da justiça social – nenhum diálogo vai ter futuro, como é responsabilidade do governo.
O comandante Marulanda escreveu diversas propostas ao governo, através de cartas públicas dirigidas ao presidente, dirigidas ao alto comissionado para a paz e a todos os setores que representam o estado colombiano. Recentemente, uma delas pedia ao governo, para que dissesse o que é que está disposto a negociar, em nome deles, para a constituição da paz. Até agora, o que conhecemos em qualquer mesa de reunião, foi que só nos dizem que tudo que propomos é inegociável – “porque afeta a lei, a constituição” – (...) até que baixemos as armas. Isso [esta Constituição] não nós diz nada, porque as FARC são uma organização guerrilheira, política, e que se levantou em armas porque considera injusto o Estado colombiano, as leis do regime governante. As FARC estão lutando por um sistema de governo distinto do que temos hoje (...).
Por isso Marulanda [Tiro-Fijo ou “Tiro-Certo”, comandante máximo das FARC] lhes perguntou o que é que eles queriam negociar, se querem realmente a paz. Pois na Colômbia não haverá paz enquanto não resolvermos os problemas econômicos, estruturais, os problemas de comunicações, de eletrificação, de água potável, do sistema educativo, de higiene e de salubridade, enquanto não se faça a reforma agrária, enquanto não se acabe com os crimes do Estado em nome do paramilitarismo.
Se o Estado está mesmo interessado em conseguir a paz precisa investir em todos estes campos, de maneira que a paz seja uma realidade. Sem isto a paz não será possível; vão continuar os confrontos, e as FARC seguem sendo um protagonista muito importante na luta política colombiana, com uma grande projeção em nível nacional. Somos uma opção de poder, e seguimos lutando por esse objetivo. Mas, se pudermos avançar nesse mesmo objetivo, sem a necessidade de uso das armas, estamos dispostos a isso sempre e quando haja, por parte do Estado, vontade de fazer os investimentos de caráter econômico, político, social e cultural que requer o país.

YMF- Qual é, nesta conjuntura, a proposta política das FARC ?

CRR -
Nesta etapa, estamos agora buscando abrir espaços de democracia, de participação cidadã. Daí que nossa proposta é a de um novo governo pluralista, patriótico e democrático, que se comprometa a defender a soberania de nosso país. Não podemos mais ser pisoteados pelo imperialismo norte-americano, com sua ingerência em nossos assuntos internos. Queremos restituir a liberdade para que os trabalhadores do campo, da cidade, os estudantes e professores possam protestar livremente sem serem reprimidos pelo Estado, assassinados ou exilados. Tudo que queremos nessa etapa é isso, abrir espaços de participação dos diferentes setores da sociedade que estão interessados nas mudanças que requer o país, rumo à paz com justiça social.

YMF - O programa agrário das FARC prevê que a grande propriedade privada, em alguns casos, não será desapropriada. Como é isso?

CRR –
Nós temos que analisar muito bem o que é possível ser desapropriado hoje. Se um empresário rico se compromete a gerar empregos, a não conspirar contra um novo governo, se paga seus impostos legalmente e dá bom trato aos seus trabalhadores, este vai poder seguir desfrutando de sua riqueza, sempre que retribua com impostos para o bem estar geral do povo. Há que se analisar muito bem as situações agrárias, de tal maneira que os que queiram participar, contribuir e investir, possam fazê-lo.

YMF - Como funciona o financiamento das FARC?

CRR -
As FARC são um exército do povo que se nutre da economia do país. A economia do país é o petróleo, é o café, são as esmeraldas, o gado, o algodão, a coca, a papoula. Assim, as FARC cobram um imposto àqueles capitalistas que tenham patrimônio de mais de um milhão de dólares, independentemente da proveniência de seus capitais. Não perguntamos ao empresário das transportadoras se seus caminhões foram comprados com dinheiro do narcotráfico. As FARC não têm cultivos, não negociam com narcóticos, não vendem favores aos narcotraficantes.
As FARC subsistem da economia do país, apesar da campanha encabeçada pelos EUA que tem por fim desacreditar-nos, mostrar-nos não como uma organização revolucionária, mas como narcotraficantes, agora narcoterroristas. Mas é normal que os EUA façam isso, pois são nossos inimigos e, portanto, fazem o que devem fazer.

 [Yuri Martins Fontes é correspondente do Brasil de Fato, professor universitário e editor do Jornal-Agência A Palavra Latina: www.apalavralatina.org ]

Reflexão

Posted by Junivaldo Sá de Lima (Humaitá-Am) at 2008-06-07 18:19

Realmente somos vítimas dos interessess capitalistas alienantes, do poder hegemonico (EUA), que manipula a opinião das pessoas sem consciência crítica, levando-nos a acreditar que esses revolucionários não passam de bandos, de terrosristas querendo destruir a América do Sul. Na verdade são eles (os estudunidenses) os verdadeiros terrristas do sistema. Não podemos ser escravos conformados desses parasitas que nos usam para para que seja perpetuados os seus interesses imperialistas. Está de parabéns, meu amigo YMF, por essa entrevista que nos leva à uma necessária reflexão. junivaldosa@hotmail.com (sem jamais perder a ternura)


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