Ataque da Colômbia aprofunda disputa na América Latina
“O que está por trás dessa discussão é a hegemonia no Norte da América do Sul e da relação com os EUA. Esse é o maior impasse de origem militar que os países já enfrentaram”, afirma o historiador Júlio Pimentel
Jorge Pereira Filho e Tatiana Merlino
da redação
O ataque do Exército colombiano que deixou 19 guerrilheiros mortos em território equatoriano vai radicalizar o cenário político na América Latina. De um lado, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, o principal defensor das políticas dos Estados Unidos no continente. E de outro, os governos que rejeitaram a ação militar que violou as fronteiras de um país e se contrapõem – em diversos níveis – à influência estadunidense no continente.
Os
antecedentes deste conflito estão na aliança
político-militar entre Estados Unidos e Colômbia. Sob o
comando de Uribe, o país sul-americano iniciou uma corrida
armamentista e montou o maior aparato de guerra da região,
como afirma o cientista político Moniz Bandeira. “Com
população de 44 milhões de habitantes, a
Colômbia possui um contingente militar de cerca de 208.600
efetivos, enquanto o Brasil, com 8,5 milhões de quilômetros
quadrados e mais de 190 milhões de habitantes tem um
contingente de somente 287.870, a Venezuela, 82.600 e o Equador,
56.500. E relativamente ao PIB, os gastos militares da Colômbia
somam mais que o dobro dos gastos do Brasil e somente se comparam aos
do Chile, que é também um país militarizado”,
relata o professor autor do clássico Presença dos
Estados Unidos no Brasil.
O guarda-chuva desta aliança, o Plano Colômbia, nasceu ainda em 2000, quando a o país era governado por Andrés Pastrana (leia reportagem). Originalmente, a iniciativa tinha como justificativa pública combater os narcotraficantes. Na prática, visava as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN). Uma mudança no aspecto formal da empreitada ocorreu após o 11 de setembro. George W. Bush renovou a parceria, rebatizada de Plano Patriota em sua segunda fase, e colocou-a no âmbito de seu enfrentamento “ao terrorismo”. Por meio desta parceria, os Estados Unidos repassam à Colômbia tecnologia militar, apoio logístico, treinamento de tropas e cerca de US$ 1,3 bilhões anuais para diversas finalidades, inclusive o financiamento da compra de equipamentos militares. E é a própria indústria bélica dos Estados Unidos o principal fornecedor do exército colombiano.
A saída negociada
Uribe fortaleceu-se politicamente e alcançou sua reeleição com a plataforma do discurso da “tolerância zero” e da eliminação militar das guerrilhas para por fim a um conflito na Colômbia que já ultrapassa seis décadas de violência, sobretudo contra a população civil. O presidente recebeu, no entanto, dois golpes em sua estratégia. Além de não cumprir com a promessa de exterminar os guerrilheiros, Uribe foi envolvido no escândalo da chamada “pára-política” – denúncias de ligações de seu governo com os grupos paramilitares (Leia texto).
Em outra frente, as Farc abriram uma série de diálogos com governos da América Latina e da Europa, principalmente a Venezuela e a França, com o objetivo de negociar um acordo humanitário. Nele, a guerrilha oferece a libertação de cerca de 60 reféns em troca de prisioneiros do Estado colombiano. Chávez se empenhou no processo e conseguiu obter sucesso. Seis presos políticos deixaram o cativeiro, em uma demonstração unilateral da guerrilha de que estava disposta a trabalhar por uma saída negociada para o conflito.
Uribe e Bush reagiram. A ação militar da Colômbia matou o principal interlocutor da guerrilha nessas negociações, Raúl Reyes – porta-voz e número dois no comando das Farc. “Uribe sabia perfeitamente, e há muito tempo, onde estava Raúl Reyes. Como também tinha conhecimento que o presidente Rafael Correa (Equador) mantinha relações estritamente humanitárias com Reyes para tratar de solucionar o problema dos reféns”, afirmou o francês Fabrice Delloye, ex-marido e pai dos dois filhos da ex-senadora Ingrid Betancourt, seqüestrada desde 2002. Segundo ele, Uribe sabotou o processo de libertação dos reféns (Veja declarações).
Para o geógrafo André Martin, a ação foi planejada. “É óbvio que foi uma ação calculada com os Estados Unidos, com a CIA, que vislumbram até onde podem ir as reações equatoriana e venezuelana. Isso começa a crispar todo o continente sul-americano, existem outros focos de tensão que não se podem subestimar. Para onde vai se levar isso? O que se quer, dividir o continente entre pró e antiamericanos?”, questiona (leia mais).
Em sua estratégia, o presidente colombiano não hesitou em ferir os acordos internacionais e violou a fronteira do Equador para atacar os guerrilheiros, invadir território alheio e buscar corpos e equipamentos. “Tanto sangue correu, tantas guerras foram feitas para se erigir como princípio a inviolabilidade das fronteiras, o respeito às fronteiras, estabelecidas na ONU, consenso entre as partes. Agora, viola-se isso impunemente, não tem mais ordem mundial nenhuma, é o império da selva”, enfatiza o geógrafo.
Ofensiva
A resposta dos governos do Equador e da Venezuela foi imediata. Chávez e Correa determinaram a seus exército que se movessem para a fronteira com a Colômbia. Uribe ensaiou um pedido de desculpas, alegando que o exército respondia a um ataque dos guerrilheiros (veja texto). Foi prontamente respondido por Correa: “Os cadáveres estavam de pijama, isto é, não houve nenhuma recepção quente. Foram bombardeados e massacrados enquanto dormiam, com uso de tecnologia de ponta, que os localizou na selva, seguramente com a colaboração de potências estrangeiras”.
Uribe tentou contra-atacar. Acusou Chávez de repassar US$ 300 milhões às Farc, informação negada pelo governo venezuelano. Bush veio em seu socorro e convocou apoio dos governos sul-americanos à ação de seu aliado. Em vão, o colombiano se isolou ainda mais. Presidentes do continente condenaram a ação, inclusive Lula. E Correa lançou uma ofensiva diplomática e iniciou um giro pela região (Peru, Brasil, Venezuela, Panamá, República Dominicana).
Fato é que criou-se um conflito sem precedentes. “O que está por trás dessa discussão é a hegemonia no Norte da América do Sul e da relação com os EUA. Esse é o maior impasse de origem militar que os países já enfrentaram”, afirma Júlio Pimentel, historiador da USP. Moniz Bandeira não crê que o conflito possa desencadear em uma guerra, de fato. “A desproporção de forças militares é muito grande, embora a Colômbia tivesse de lutar em duas frentes”, considera. Já o brigadeiro da reserva Sérgio Ferolla, ex-presidente da Escola Superior de Guerra, não descarta a ocorrência de um conflito militar. “As posições estão muito radicalizadas. O governo da Colômbia acusa os países de patrocinarem as guerrilhas. Uribe disse que vai denunciar Chávez na Corte de Haia. Esse conflito pode desencadear uma questão bastante séria e o Brasil tem responsabilidade grande, porque sempre foi mediador pacífico entre desavenças e conflitos de fronteiras. Como o país tem uma atuação neutra e bom relacionamento, talvez consiga atenuar o conflito”, avalia.
Olha a educação...
"é a primeira vez q eu vejo alguém deste site com cérebro", você deveria ser menos pejorativo em suas declarações, meu caro. Mesmo não concordando com o que falam, pejorativizar é leviano e tenho certeza não foi assim que mamãe te ensinou.
Quanto ao texto: Muito bom, como já era de se esperar vindo desse estupendo jornal.
geopolítica
A análise não é apenas boa, mas profundamente comprometida com a seriedade que a situação exige. Fico em dúvida acerca do isolamento de Uribe, pois não acredito que todas as cartas tenham sido colocadas à mesa: ONU e OEA ainda não se pronunciaram. Além do mais o Sr Bush prenuncia ser capaz de jogar duro ao lado do Sr Uribe. Este fino tecido da diplomacia esgarça-se com grande facilidade e devemos cobrar do governo brasileiro que cumpra seu papel moderador. Uma guerra na região serve aos interesses do Sr Bush (1- conter o avanço de governos à esquerda na América do Sul; 2- conter o avanço econômico que ocorre no Chile, Venezuela, Bolívia, Argentina e, obviamente, Brasil; 3- ampliar o controle geopolítico na região e sobre as reservas de petróleo aí localizadas), não aos nossos. Contrapondo-se à potência beligerante do norte, o Brasil deve ser a potência da paz no sul. Quanto ao leitor acima, bem... alguém que acha que a Veja tem nível de qualidade... Senão vejamos: ser de direita não é uma qualidade, mas um direito; fazer um jornalismo ruim não é apenas incompetência, mas uma escolha... (vide http://luis.nassif.googlepages.com/home). Um grande abraço a todos. PAZ NAS AMÉRICAS!
brigado pelo toque
tá, vc venceu. mas "pejorativizar" é dose....
conflitos entre Colombia e Equador
Bom dia! Gostei muito da matéria isso prova que temos otimos historiadores e geografos no nosso Brasil é temos memória histórica sobre o nosso continente. Devemos lembrar que os EUA está sempre fazendo as suas extratégias com relação a America Latina, pois temos muitas riquezas nos subsolos e recursos naturais a exemplo da água com um potêncial hidrico fantastico, principalmente Brasil e paraguai. Temos a Amazônia maior floresta tropical do planeta e toda a sua biodiversidade. Os EUA, sempre ao longo da histotia cobiçou nosso territótio eles ocuparam varias bases militares na nossa America Latina, e agora estão invadindo os nossos territorios falando de terrorismo e narcotráfico, ficamos alerta pois o Iraque já viveu essa doutrina Bush.
conflitos entre Colombia e Equador
Bom dia! Gostei muito da matéria isso prova que temos otimos historiadores e geografos no nosso Brasil é temos memória histórica sobre o nosso continente. Devemos lembrar que os EUA está sempre fazendo as suas extratégias com relação a America Latina, pois temos muitas riquezas nos subsolos e recursos naturais a exemplo da água com um potêncial hidrico fantastico, principalmente Brasil e paraguai. Temos a Amazônia maior floresta tropical do planeta e toda a sua biodiversidade. Os EUA, sempre ao longo da histotia cobiçou nosso territótio eles ocuparam varias bases militares na nossa America Latina, e agora estão invadindo os nossos territorios falando de terrorismo e narcotráfico, ficamos alerta pois o Iraque já viveu essa doutrina Bush. Um grande abraço, e que a paz e a soberania dos povos vença os conflitos!
Presidete Lula
Olha amigo compaheiro noso partido é Nove 11111 1111.
crise militar na america do sul
gostei do artrigo apesar de ser pejorativo no carater ideologico. um conflito militar na america do sul enfraqueceria o mercosul atendendo os interesses economicos estadunidenses
a ação dos EUA na Colombia
Este fato marca uma abertura na amazônia aos interesses imperialistas americanoa. Na prática a Colombia se tornou a porta de entrada e estrada para a penetração em territorio selvagem, ultimos recantos virgem à civilização. Não é a nova fronteira ameicana, entretanto é a fonte de recurdos que salvara o EUA do gasto na Iraque, da resseção etc.













finalmente!
Parabéns! parabéns pelo ótimo artigo. é a primeira vez q eu vejo alguém deste site com cérebro. Claro q se percebe a tendência ideológica no texto, mas a argumentação é inteligente.A veja tb tem viés ideológico (e quem não tem?) mas a veja tem nível de qualidade - coisa q o jorge a tatiana conseguiram aqui. muito bom. parabéns.