Bispo mantém greve e recebe apoio de movimentos
Em nova carta, frei Luiz explica suas críticas à transposição e as propostas que entende como as mais corretas para promover o desenvolvimento
Tatiana
Merlino,
da
redação
A greve de fome do bispo de Barra (BA), frei Luiz Flávio Cappio, contra as obras da transposição do Rio São Francisco chega a seu quarto dia. Ele encontra em uma capela às margens do rio São Francisco, em Sobradinho (BA), desde o dia 27 de novembro, e divulgou na quinta-feira (29), um novo documento, a “Carta ao povo do Nordeste” (veja abaixo), na qual afirma que o governo não cumpriu o prometido, que “estabeleceria um amplo, transparente e participativo debate nacional sobre o desenvolvimento do Semi-árido e da Bacia do São Francisco”. Na carta, religioso explica que não é contra o direito dos nordestinos à água. "Fosse a transposição solução real para as dificuldades de água de vocês, eu estaria na linha de frente da luta por ela.", disse no documento.
Desde o início da greve, o governo federal não deu sinais de que está disposto a negociar o fim do protesto. O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, afirmou que a segunda greve de fome do bispo “parece chantagem”. De acordo com ele, o governo não vai paralisar as obras da transposição, apesar da ameaça de frei Luiz de manter o jejum até a morte. “Ele fala o que quiser e eu estou lhe dizendo que essa obra vai ser levada adiante, porque essa é uma determinação do presidente Lula", disse Geddel. Para ele, "essa postura fundamentalista do bispo vai contra ensinamentos da igreja, vai contra o que eu aprendi a respeitar desde muito jovem, como saber que é pecado atentar contra a vida".
O ministro rebateu a acusação do religioso, de que o governo federal teria se recusado a conversar sobre o projeto. Disse que quando assumiu o Ministério, em março, fez sua primeira ligação telefônica no cargo para o bispo, convidando-o para conversar. "Os meses se passaram, e ele não atendeu meu chamado", afirmou Geddel. "Chamei-o para conversar, e ele disse que ia consultar as pessoas ligadas a ele e que me retornaria. Até hoje não me retornou."
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também lamentou a retomada da greve de fome do religioso, “porque a primeira vez que ele esteve comigo dois anos atrás o que ele reivindicava era que nós fizéssemos a revitalização do rio São Francisco. Nunca houve a quantidade de investimentos que o governo federal está fazendo para recuperar o rio São Francisco", disse Lula à emissora de televisão Record. "O bispo me coloca numa situação complicada, porque eu tenho que escolher entre ele, que está fazendo uma greve de fome premeditada, e 12 milhões de nordestinos ... que precisam da água para sobreviver. E não tenha dúvida que eu ficarei com os pobres deste país”, concluiu.
De acordo com Roberto Malvezzi, o Gogó, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), as declarações do presidente e do ministro “expressam um sentimento real. Nós também não tínhamos expectativa de que fosse diferente, porque eles tiveram essa mesma atitude todos esses anos. Na verdade, o próprio frei Luiz não está mais preocupado com o governo, e sim com o conjunto da sociedade”.
Ontem, em nota, a Via Campesina declarou apoio ao bispo, e anunciou que transformará sua "solidariedade fraterna" em "luta prática por todo o território nacional". Segundo Gogó, os movimentos da Via “entendem o gesto de frei Luiz como maior que ele mesmo e exprimem uma luta que é de todo o país contra o agro e o hidronegócio”.
Os movimentos que integram a Via estão preparando mobilizações em todo o país para o dia 10 de dezembro, quando irão protestar contra a transnacional Syngenta – responsável pelo assassinato de Keno, militante do MST – e contra o Complexo do Rio Madeira.
De acordo com o sociólogo Ruben Siqueira, também da CPT, o religioso tem recebido muitas manifestações de solidariedade e a cada dia chegam mais pessoas da região para visitar o bispo. “Para o dia 4 (de dezembro), estamos preparando um ato político com umas três mil pessoas”. No quarto dia de seu jejum, o bispo recebeu a visita de médicos, que confirmaram o bom estado de saúde.
Carta de Dom Cappio ao Povo do Nordeste
Queridos Irmãos e Irmãs Nordestinos, do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Pernambuco,
Paz e Bem!
Quando encerrei o jejum de 11 dias em Cabrobó, há dois anos atrás, acreditei sinceramente que o governo federal cumpriria sua palavra empenhada no acordo que assinamos. Este acordo estabelecia um amplo, transparente e participativo debate nacional sobre o desenvolvimento do Semi-árido e da Bacia do São Francisco. Acreditávamos piamente que se esse debate fosse verdadeiro seriam esclarecidas as reais necessidades e potencialidades do Semi-árido, e ficaria evidente que a transposição não era necessária nem conveniente ao povo nem ao rio. As águas abundantes do semi-árido falariam por si. E os projetos alternativos existentes se imporiam, como as obras do Atlas Nordeste para o meio urbano e as experiências da ASA – Articulação do Semi-Árido - para o meio rural.
O governo não cumpriu o prometido, abortou o debate apenas iniciado, ganhou as eleições e colocou o Exército para começar as obras da transposição. Movimentos e entidades da sociedade organizada intensificaram as mobilizações e os protestos, mas o governo se fez de surdo. Diante disso, não me restou outra alternativa senão retomar o jejum e oração, como havia dito que faria se o acordo não fosse cumprido. Para isso escolhi a capela de São Francisco, em Sobradinho/BA, bem próximo da barragem de Sobradinho, que há 30 anos passou a ser o coração artificial do Rio São Francisco, um doente em estado terminal.
Sei que meu gesto causará estranheza e incompreensões em muitos de vocês. Não os culpo por isso. Há gerações vem sido dito a vocês que só a grande obra da transposição “resolve” a seca. Entre os maiores interessados nela estão pessoas que vocês bem conhecem, pois são as mesmas que há muitos anos dominam e exploram a região usando o discurso da seca para desviar dinheiro público e ganhar eleições.
A seca não é um problema que se resolve com grandes obras. Foram construídos 70 mil açudes no Semi-árido, com capacidade para 36 bilhões de metros cúbicos de água. Faltam as adutoras e canais que levem essa água a quem precisa. Muitas dessas obras estão paradas, como a reforma agrária que não anda. Levar maiores ou menores porções do São Francisco vai tornar cara toda essa água existente e estabelecer a cobrança pela água bruta em todo o Nordeste. O povo, principalmente das cidades, é quem vai subsidiar os usos econômicos, como a irrigação de frutas nobres, criação de camarão e produção de aço, destinadas à exportação. Assim já acontece com a energia, que é mais barata para as empresas e bem mais cara para nós. Essa é a verdadeira finalidade da transposição, escondida de vocês. Os canais passariam longe dos sertões mais secos, em direção de onde já tem água.
Portanto, não estou contra o sagrado direito de vocês à água. Muito pelo contrário, estou colocando minha vida em risco para que esse direito não seja mais uma vez manipulado, chantageado e desrespeitado, como sempre foi. Luto por soluções verdadeiras para a vida plena do povo sertanejo – isso tem sido minha vida de 33 anos como padre e bispo do sertão. É, pois, um gesto de amor à vida, à justiça e à igualdade que nunca reinaram no Semi-árido, seja aí, seja aqui no São Francisco, longe ou perto do rio.
Agora mesmo é grande o sofrimento do povo não muito distante do rio e do lago de Sobradinho que, em função da energia para um desenvolvimento contra o povo, está com apenas 14%. Um projeto de R$13 milhões que resolveria o abastecimento dos quatro municípios da borda do lago espera desde 2001 pelo interesse dos governantes...
O São Francisco precisa urgentemente de cuidados, não de mais um uso ganancioso que se soma aos muitos que lhe foram impostos e o estão destruindo. Como lhes disse da outra vez, fosse a transposição solução real para as dificuldades de água de vocês, eu estaria na linha de frente da luta de vocês por ela.
O que precisamos, não só no Nordeste, é construir uma nova mentalidade a respeito da água, combater o desperdício, valorizar cada gota disponível, para que não ela não falte à reprodução da vida, não só a humana. Precisamos repensar o que estamos fazendo dos bens da terra, repensar os rumos do Brasil e do mundo. Ou estaremos condenados à destruição de nossa casa e à nossa própria extinção, contra o Projeto de Deus.
Senhor, Deus da Vida, ajude-nos! “Para que todos tenham vida!” (João 10,10).
Recebam meu abraço e minha benção,
Dom Luiz Flávio Cappio, OFM.
Sobradinho/BA, 29 de novembro de 2007.
















Frei Luiz Cappio
A causa do Frei mostra o quando os poderosos não exitam em passar por cima de quem quer que seja para alcançar seus planos de mais usura, não se importando se o obstáculo é a vida de uma pessoa ou de milhares.