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Eleições 2006: transposição foi usada como moeda de troca

by jpereira last modified 2007-12-03 18:13

Projeto leva água até complexo industrial cearense, mina de ouro para os parceiros políticos de Ciro Gomes

Projeto leva água até complexo industrial cearense, mina de ouro para os parceiros políticos de Ciro Gomes

                                                                                                                                                                                                                                       29/11/2007

Luís Brasilino,
da redação


A condição para Ciro Gomes, ex-ministro da Integração Nacional e deputado federal (PSB-CE), apoiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 foi a seqüencia das obras de transposição do rio São Francisco. A informação chegou à reportagem do Brasil de Fato, ainda em 2005, por meio fontes de dentro do Palácio do Planalto. E evidências não faltam para sustentá-la.

Apadrinhado político do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), ex-governador do Ceará (1987 a 1991 e 1995 a 2002), Gomes, também ex-chefe do governo cearense (1991 a 1994), defende o fortalecimento e expansão do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, a menina dos olhos tucana no Estado. E, para isso, as águas do Velho Chico são fundamentais.

As bases para a criação do Complexo do Pecém, localizado em São Gonçalo do Amarante (a 60 km da capital Fortaleza), foram lançadas em 1995. Em 2002, a construção do porto, grande e moderno, foi concluída. Atualmente, o Complexo conta também com infra-estrutura rodoviária, ferroviária, elétrica, energética e hídrica.

O projeto prevê que toda essa estrutura estará a serviço de um parque industrial metal-mecânico e petroquímico, ancorado em uma siderúrgica, uma refinaria de petróleo e em usinas termoelétricas, sendo que duas dessas já estão em operação. No entanto, o pólo industrial ainda não deslanchou e a previsão é que comece a funcionar somente em 2009.

Capital internacional

Batizada como Usina Siderúrgica do Ceará (USC), a indústria recebeu um investimento de 750 milhões de dólares para ser construída. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá participação de 20% no projeto. A siderúrgica Dongkuk Steel, da Coréia do Sul, é a principal acionista com 38%, a fornecedora de equipamentos Danielli, da Itália, terá 20% e a Companhia Vale do Rio Doce 9%. O restante é do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e do Estado do Ceará. O investimento segue lógica da divisão internacional do trabalho de transferência de indústrias pesadas, com intenso impacto social, ambiental, energético e hídrico, para os países periféricos do capital. Fenômeno denunciado de forma exaustiva pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Ao entrar em operação, a USC deverá produzir cerca de 1,5 milhão de toneladas de aço por ano. Na seção ambiental de seu sítio na internet, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), principal brasileira do ramo, vangloria-se por ter reduzido o consumo na Usina Presidente Vargas para 36,5 m³ de água por cada tonelada de aço fabricada.

Comparando os dados, a estimativa indica a utilização de 54,75 milhões de m³ de água por ano na siderúrgica do Pecém, ou 1,73 m³ por segundo (m³/s). Atualmente, o abastecimento de água do Complexo é feito pelo Sistema Adutor Sítios Novos/Pecém, com capacidade máxima de condução de 2 m³/s de água.

Até aqui, tudo perfeitamente sustentável. Porém, o projeto do Complexo Industrial e Portuário do Pecém não prevê apenas a construção de uma siderúrgica, esta apenas serve como chamariz para outros investimentos. Também como indústrias âncora, constam do projeto a refinaria e as termoelétricas. Além disso, o Plano Diretor do Complexo mostra que ele será instalado numa área de 320 km² (pouco mais de um quinto da área de São Paulo-SP). Neste espaço, ao redor da siderúrgica, da refinaria e das termoelétricas, e próximo ao porto, é que a elite urbano-industrial cearense pretende construir um grande pólo de desenvolvimento.

Mais água

Caso o Complexo prospere, a demanda por água superará de longe a oferta atual. Por isso, a definição do Pecém prevê expansão futura com “a interligação dos açudes Pereira de Miranda e Sítios Novos, através de canal, a construção dos açudes Cauhípe, Anil e Ceará e a integração com o Sistema Metropolitano de Fortaleza com a entrada em operação do Açude Castanhão”.

A transposição do Rio São Francisco se encaixa nessa etapa. De acordo com o projeto, o Eixo Norte retira água em Cabrobó (PE) e a leva para os Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Nesse último, a água chega ao Rio Jaguaribe e de lá segue para o Açude do Castanhão, o destino final, segundo a proposta do governo federal.

Acontece que, por sua vez, o Governo do Ceará está construindo o Canal da Integração, com 255 km de extensão, levando a água do Açude do Castanhão até o Pecém. O primeiro trecho, de 55 km, ficou pronto no dia 17 de dezembro de 2004. Quando a obra estiver concluída, a último ponta do Canal levará 1,7 m³/s de água até o Complexo Industrial.

A formação de uma elite

A partir da década de 1980, o Ceará assistiu à derrocada da velha oligarquia coronelista e a ascensão de uma nova elite, a urbano-industrial. O líder de todo este processo foi o senador Tasso Jereissati. Empresário desde os 15 anos, o tucano fundou e presidiu o Centro Industrial do Ceará (a entidade dos industriais locais). Em 1987, chegou pela primeira vez ao Governo do Estado.

Quatro anos depois, passou o poder para seu apadrinhado político, Ciro Gomes, eleito na época pelo PSDB. Jereissati voltou a ser governador em 1995 e, graças à reeleição, permaneceu no comando até 2002. Neste ano, ele fez novo sucessor, Lúcio Alcântara (PSDB). Atualmente, o governador cearense chama-se Cid Gomes, irmão de Ciro.

Apesar de ter deixado o PSDB para concorrer à Presidência da República em 1998, Ciro Gomes jamais rompeu com seu padrinho. Nas eleições de 2002, ao passo que a propaganda política tucana fazia duros ataques a Gomes, Jereissati foi a público anunciar que não tinha nenhum candidato para presidente. José Serra, o indicado do PSDB, inclusive apoiou um adversário de Jereissati para o governo cearense, o peemedebista Sérgio Machado.

Recursos para produção

Segundo o geógrafo Luiz Cruz Lima, coordenador do mestrado acadêmico em Geografia da Universidade Estadual do Ceará, foram contingências geopolíticas recentes que influenciaram o surgimento destas lideranças políticas modernas locais. “No Ceará, isso se transparece desde meados dos anos 80. A partir de um planejamento de Estado, os novos governantes se voltaram para criar ou modernizar a base produtiva, decidindo-se implantar infra-estruturas básicas, estradas, porto, aeroporto, adequação de recursos hídricos etc.”, explica.

Lima avalia que o projeto da transposição foi retomado para se “acoplar a projetos já realizados no Ceará”. São eles a manutenção dos mananciais das represas (como o Açude Castanhão), a garantia da oferta de água aos centros urbanos e às atividades econômicas, agrícolas e industriais e o atendimento às comunidades, principalmente nas estiagens. “É inegável que parte significativa das melhorias espaciais é apropriada pelos que detêm mais recursos e mais poder. Aí entra a luta política, o acirramento entre os de cima e os de baixo”, analisa.


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