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Em 2005, movimentos foram a Brasília conversar com Lula

by jpereira last modified 2007-12-03 18:12

Numa audiência com Lula realizada em dezembro de 2005, frei Luiz ouviu nova promessa de debate

Numa audiência com Lula realizada em dezembro de 2005, frei Luiz ouviu nova promessa de debate

                                                                                                                                                                                                                                       29/11/2007

Luís Brasilino,
enviado a Brasília (DF)


O grande momento de discussão entre os movimentos sociais e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ocorreu na noite do dia 15 de dezembro de 2005. Parte das negociações que encerraram a primeira greve de fome realizada por frei Luiz Flávio Cappio, entre setembro e outubro daquele ano, o presidente recebeu uma delegação de críticos ao projeto em seu gabinete no Palácio do Planalto.

Nos dois dias que antecederam o encontro, 14 e 15, cerca de 50 representantes de movimentos sociais, organizações não-governamentais (ONGs), intelectuais, indígenas, religiosos e juristas fizeram um esforço coletivo para subsidiar com argumentos o frei Luiz.

Eles dedicaram-se por cerca de 40 horas praticamente ininterruptas a uma oficina de trabalho. Dela saíram com dois documentos. Um explicando detalhadamente porque são contra a transposição. E outro com propostas para abastecer uma agenda positiva de desenvolvimento do Semi-Árido brasileiro.

Ao final dos trabalhos, os militantes se abraçaram e rezaram. Saíram juntos em direção ao Palácio do Planalto com a convicção de ter feito tudo o que podiam em benefício do povo sertanejo.


A audiência

Frei Luiz foi para a reunião com Lula acompanhado de Ruben Siqueira e Dom Tomás Balduíno, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do sociólogo Adriano Martins, de Luciana Khoury, promotora de Justiça da Bahia, e do jornalista Henrique Cortez, coordenador do Portal EcoDebate. A audiência durou duas horas, o dobro do programado, e começou com a exposição de argumentos de Frei Luiz contra a transposição. “Não é verdade que essa obra levará água para quem tem sede. Isso, por si só, já é um impedimento ético para justificar a oposição ao projeto”, foi o destaque inicial de Cappio.

Segundo Adriano Martins, que é assessor do bispo, durante a reunião, o ex-ministro Ciro Gomes, da Integração Nacional e principal interessado na obra, entendeu que está numa situação desconfortável. “A transposição não é mais um passeio no parque. Ciro tentou fazer sua palestra, seu discurso, mas não tinha platéia. Todos lá conheciam muito bem o projeto”, analisou Martins.


Promessas

“A proposta do presidente era tudo o que desejávamos. Os documentos foram apresentados e ele se comprometeu a realmente abrir um amplo debate com a sociedade. Essas foram palavras textuais do presidente”, garantiu frei Luiz logo que deixou a audiência. Contudo, Jaques Wagner, governador da Bahia e então ministro de Relações Institucionais, falou com a imprensa cerca de dez minutos depois de Cappio. Ele, que também participou da audiência, deixou escapar que 2006 continuava sendo um ano “razoável” para iniciar as obras de transposição.

Ciro Gomes também parecia não levar muito a sério a promessa de Lula. “Nós temos pressa e eu acho que chegou a hora de encerrarmos a discussão e passarmos à execução”, afirmou para reportagem da Agência Brasil, no dia 9 daquele mês, durante seminário que discutiu a obra.

João Abner, hidrólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande Norte, se cansou de tentar debater o projeto com o governo e estava cético com relação à promessa de Lula. “O governo não tem condições de sustentar um debate porque toda a sua argumentação está baseada em mentiras”, desabafou ainda no Palácio do Planalto.

O temor do movimento contra a transposição era que o governo aproveitasse a desmobilização social, recorrente durante as festas de fim de ano, para cassar no Superior Tribunal Federal as duas liminares que impediam o prosseguimento das obras. E eles estavam certos. Erraram só o ano. No dia 18 de dezembro de 2006, um antes do recesso, o ministro Sepúlveda Pertence, do STF, cassou as liminares.


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