Entrevista frei Luiz: governo Lula foi uma decepção
“Qual não foi nossa surpresa quando no primeiro semestre do governo Lula o projeto se tornou prioridade. A decepção foi muito grande”, lamenta
29/11/2007
Luís
Brasilino,
da
redação
O ano de 2005 é lembrado como aquele em que uma greve de fome conseguiu frear um projeto do governo federal apoiado por diversas oligarquias e pelo capital internacional. Nos 11 dias de jejum, frei Luiz Flávio Cappio, bispo da Diocese de Barra (BA), atraiu a atenção do Brasil para a sua causa: impedir o início das obras de transposição do Rio São Francisco. Passados três meses do protesto, o religioso concedeu esta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.
Ele explica que não aceita mega-obra porque ela não vai beneficiar os pobres e sim grandes empresários e latifundiários. Para frei Luiz, faz-se necessário promover o desenvolvimento do Semi-Árido brasileiro por meio de políticas de convivência com o clima local. Por outro lado, a população que vive às margens do rio São Francisco vê a sua sobrevivência ameaçada pela falta de consciência do poder público e irresponsabilidade das grandes empresas que poluem as águas. Ao não interferir neste quadro, o presidente Lula frustrou a esperança de frei Luiz. Pior, trouxe decepção com a retomada do projeto de transposição, uma proposta colocada na pauta pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.
Brasil de Fato – Como começou sua história com o rio São Francisco?
Frei
Luiz Flavio Cappio – Minha ligação começou
quando vim para o sertão da Bahia, há 32 anos.
Devagarinho fui percebendo como o São Francisco é
importante para a vida do povo que depende, para a sua sobrevivência,
da vida do rio. A vida do rio foi ganhando importância na
medida em que para o povo ele passou a ser uma questão de vida
e de morte. Dessa forma, lutar pelo rio era lutar pelo povo. E fomos
percebendo que o São Francisco estava ficando cada vez mais
doente e que isso seria fatal para a população. Sendo
assim, assumimos a causa pela vida do rio e pela vida do povo.
O que o senhor pode contar da caminhada que fez da nascente até a foz do Velho Chico?
Levamos
dois anos nos preparando. O projeto era fazer um trabalho realmente
bem feito. A caminhada começou no dia 4 de outubro de 1992, na
nascente, e terminou em 4 de outubro de 1993 na foz. O cronograma já
tinha sido feito. Sabíamos onde estaríamos todos os
dias daquele ano e obedecemos à risca essa programação.
Foram atividades muito intensas nos colégios, nas igrejas,
comunidades e associações. Tivemos contato com
crianças, jovens, adultos, com o poder público, com
meios de comunicação... Foi um ano de missão
ecológica e religiosa muito intensa e que tinha por objetivo
conscientizar a população sobre a importância do
rio e a necessidade de preservá-lo.
E quais foram as suas impressões desse período?
Por
um lado, reforçamos a consciência do valor do rio para a
vida do povo. De outro, ficamos estarrecidos diante do processo de
morte em que o São Francisco se encontra.
O que aconteceu com o rio nesses 32 anos?
As
condições físicas pioraram muito. No entanto, o
nível de consciência da população melhorou
bastante. Hoje vemos que existe uma preocupação
generalizada com suas águas. A criança na escola já
estuda isso, o povo do interior sabe... enfim todos se preocupam com
o São Francisco. Infelizmente, o poder público não
acompanhou essa mentalidade. As grandes empresas também não.
Falta de consciência do poder público e sobra
irresponsabilidade das indústrias que jogam toneladas de
dejetos químicos na água, causando graves transtornos
na vida do rio. Contudo, por parte do povo isso mudou muito. Ele tem
outra concepção, tem amor pelo rio e luta por ele.
A vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002 mudou esta postura “inconsciente” do poder público?
A
grande esperança era que a chegada do Lula ao governo federal
representasse uma mudança. Tínhamos essa esperança
porque o projeto de transposição já vinha sendo
cogitado desde o mandato do Fernando Henrique. Mas qual não
foi nossa surpresa quando no primeiro semestre do governo Lula o
projeto se tornou prioridade. A decepção foi muito
grande.
E quando foi que o senhor optou pela greve de fome?
Quando vimos que toda a
nossa contribuição não foi levada em conta. Não
apenas nossa contribuição mas também a sociedade
como um todo foi ignorada. Quem sabe, um grito de desespero poderia
sensibilizar as autoridades. Foi isso que levou ao jejum e a oração.
Dar um grito em defesa do rio porque os argumentos da razão
não tinham sido suficientes.
Como o senhor enxerga, hoje, aqueles dias de greve de fome?
Foi
muito doloroso mas muito bonito. Conseguimos unir todos aqueles que
têm amor ao rio e ao seu povo. E todos que são
contrários a transposição e que almejam o bem e
o desenvolvimento do Nordeste brasileiro. Portanto, apesar da dor, o
protesto teve um lado muito profícuo e fértil pois
gerou toda essa luta que agora estamos travando. Luta que não
é apenas minha, é de todos que amam o Nordeste.
Por que a transposição?
Esse
projeto é absurdo. Somos totalmente contrários a
transposição porque a água não será
para os pequenos. Além disso, o rio não tem condições
de fornecer essa água. Se fosse para os pequenos, para
dessedentação do povo e animal, poderíamos até
pensar duas vezes. Mas o destino das águas são as
grandes empresas, é o capital e o hidronegócio. Por
isso, não podemos aceitar de maneira alguma.
O que deveria ser feito em oposição à transposição?
Fundamentalmente,
a proposta é levar água para o povo. O povo e os
animais devem estar em primeiro lugar no caminho das águas.
Mas só água não é suficiente, é
preciso terra. Uma reforma agrária. Só a terra não
é suficiente, são necessários meios de produção.
Os meios de produção exigem educação.
Para que se tenha educação, é preciso saúde.
Sendo assim, apresentamos um projeto abrangente, contemplando todas
as dimensões humanas. Ele é muito rico já que
abrange o ser humano como um todo. A água é fundamental
mas é apenas um dos elementos. Ela é necessária
mas ao lado de outras medidas igualmente importantes e que realmente
gerem um projeto de desenvolvimento.
Para que o senhor convocou um seminário nos dias que antecederam sua audiência, do dia 15 de dezembro de 2005, com o presidente Lula?
Não
quisemos fazer da visita ao Lula apenas um encontro social ou formal.
A gente quis ter uma reunião de trabalho e apresentar algo de
concreto para o presidente. Tinha que ser algo com sustentabilidade,
com força, que tivesse massa e consistência. Por isso,
achamos por bem reunir aproximadamente 50 autoridades do São
Francisco e do Semi-Árido para opinar e dar sua contribuição.
E alcançamos este objetivos. Os documentos que elaboramos
estão muito densos e ao mesmo tempo são simples. Tanto
é que eles satisfazem os especialistas ao mesmo tempo em que
são compreensíveis para os leigos. Por
isso, estamos felizes com o trabalho realizado e acredito que os
documentos e as informações apresentadas tenham sido
muito elucidativos para o presidente Lula. Acho que ele não
sabe dessas coisas. Ele só sabe o que lhe dizem. E nós
fomos lá para explicar uma visão totalmente contrária
daquela que ele sempre escuta. Dessa forma, percebemos que a conversa
gerou muita curiosidade no presidente Lula. Tanto é que a
nossa entrevista durou duas horas e meia, o que não é
comum. Percebemos o interesse dele em saber mais. Embora o presidente
estivesse do outro lado, ele queria aprender a nossa concepção
uma vez que apresentamos dados com os quais acredito que ele não
está familiarizado – não lhe dizem. Portanto, faz-se
necessário que alguém lhe diga, “não, Lula, é
assim, assim e assim...”, para que ele saiba o outro lado da
questão.
Dessa audiência também participou o então ministro Ciro Gomes (Integração Nacional), o principal interessado na transposição. Qual sua opinião sobre ele?
Depois
que eu expus os nossos documentos, o Ciro interveio querendo defender
a transposição. Ele falou bastante e quando terminou eu
disse: “Olha presidente Lula, com todo respeito ao ministro, nós
não viemos aqui para discutir a transposição.
Não é esse o objetivo da nossa vinda. Estamos aqui para
discutir alternativas de convivência com o Semi-Árido.
Nesse estágio do debate, nós descartamos de ante-mão
a transposição. Não viemos aqui para discuti-la.
Os dados que Ciro Gomes apresenta todos nós conhecemos, aliás,
estamos cansados de conhecer. Não queremos perder tempo com
isso. A intenção é ir direto ao objetivo do
nosso encontro que é estudar as possibilidades de convivência
com o Semi-Árido, independentemente da transposição”.
Com
isso, o Lula prometeu realizar um amplo debate. A palavra o
presidente te animou?
Para
eles (do governo), esse nosso encontro encerraria o debate. Porém,
para nós foi a inauguração. Escrevi uma carta
para todos aqueles que participaram do seminário em Brasília,
onde explico as três conquistas da reunião. Primeiro,
ela representou o início dos debates. Segundo, o projeto de
transposição foi paralisado. E terceiro, devemos
formular uma agenda de convocação dos vários
setores da sociedade brasileira para discutir o assunto.
No entanto, o professor João Abner, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, acha muito difícil haver esse debate. Para ele, o governo não tem como discutir a transposição pois toda a sua argumentação em defesa do projeto está baseada em mentiras. O senhor concorda?
A
posição deles é essa mesmo. Mas nós vamos
com a nossa. E a gente vai se reunir, discutir e conversar. Não
quero deixar morrer a esperança. Quero alimentar a chama que
fumega. E quero usar de todos os meios possíveis para mostrar
a verdade dos fatos. Agora, que eles estão firmes no
pensamento deles, isso estão. E nós estamos firmes no
nosso. De todo modo, eu acredito que vão honrar as propostas
que fizeram porque, afinal de contas, foram eles mesmos que as
apresentaram. Se não atenderem ao que propuseram, a gente verá
o que fazer.
QUEM É
Frei Luiz Flávio Cappio nasceu em 1946 no dia de São Francisco de Assis, 4 de outubro. Paulista de Guaratinguetá, ele foi ordenado frade franciscano em 1971 e trabalhou por três anos na periferia de São Paulo (SP) pela Pastoral Operária. Há mais de três décadas, frei foi para o sertão nordestino apenas com a roupa do corpo. No dia de seu aniversário de 48 anos, iniciou uma peregrinação de 6 mil quilômetros da nascente até a foz do Rio São Francisco, onde chegou exatamente no dia 4 de outubro de 1993. A experiência está retratada no livro “O Rio São Francisco – Uma Caminhada entre Vida e Morte”. Tornou-se bispo da Diocese de Barra (BA) em 1997, escolhido por não ter outro que se dispusesse a viver na região.












