Romaria de apoio a frei Luiz reúne 6 mil pessoas
“Estou esperando uma manifestação do governo”, enfatizou o religioso que entra em seu 14º dia de greve de fome; jejum durou 11 dias em 2005
10/12/2007
da redação
Uma romaria de seis mil pessoas manifestou, neste domingo (9), apoio a frei Luiz Flávio Cappio em seu protesto contra a transposição do rio São Francisco. O ato ecumênico em defesa do Velho Chico, realizado em Sobradinho (BA), reuniu comunidades tradicionais, trabalhadores ligados a organizações sociais e movimentos populares, além de pessoas ligadas à Igreja e representantes de partidos políticos.
Nesta segunda-feira (10), o religioso entra em seu 14º dia de greve de fome. O primeiro jejum de frei Cappio, em 2005, durou 11 dias e foi interrompido após um acordo negociado com o presidente Lula, que prometeu abrir um diálogo nacional sobre políticas alternativas para o Semi-Árido e o rio São Francisco. O religioso retomou a greve de fome porque o acordo não foi cumprido e que o governo decidiu começar as obras do megaprojeto com o Exército (veja reportagem).
Frei Luiz voltou a dizer que espera um fim positivo para sua manifestação. “O protesto não tem relação apenas com a minha vida, mas com a dos milhares de nordestinos que têm o rio como meio de vida”, afirmou o religioso à imprensa. “Estou esperando uma manifestação do governo”, enfatizou.
A estratégia do Planalto, no entanto, tem sido evitar o diálogo e trabalhar para silenciar o protesto de frei Luiz (leia artigo). Segundo a Folha de S. Paulo, auxiliares do presidente Lula estão preocupados com a repercussão do protesto e procuraram a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para pedir ajuda a convencer o religioso a interromper a greve de fome. Uma das sugestões era a de que o próprio presidente Lula fizesse um contato direto com o frei após a votação da emenda que prorroga a CPMF até 2011, no Senado.
Fé na união
Durante a romaria, frei Cappio permaneceu a maior parte do tempo sentado dentro da sacristia, conversando com as pessoas que vinham prestar solidariedade. “Fisicamente posso me sentir bastante combalido, mas meu espírito está forte”, afirmou, acrescentando: “Eu não coloco fé nos homens, a fé que nos move é a união que temos para continuar nossa luta”.
Representantes de organizações sociais expressaram apoio à luta do religioso. “A atitude do frei Cappio vem no sentido da revitalização da Bacia do São Francisco. Não existe revitalização com a transposição”, afirmou Tomáz Matta Machado, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF). Os participantes da Romaria vaiaram o presidente estadual do PT, Marcelino Galo, que em discurso propôs atuar como interlocutor com o Planalto.
Os manifestantes seguiram, ao final do dia, para as margens da represa da hidrelétrica de Sobradinho. Camponeses, pescadores e outros levaram sementes e água. Frei Luiz também participou do ato e, de modo coletivo, fez orações para benzer água, sementes, rio e a todos os presentes. Em seguida, todos jogaram um pouco de água para o rio, como simbologia de dar um gole d’água ao São Francisco.
Exército
A celebração de encerramento foi acompanhada por militares da infantaria do Exército. Segundo a Folha de S. Paulo, soldados bloquearam a pista sobre a barragem de Sobradinho e impediram a passagem da romaria.
Um dos pedidos do frei Luiz para dar fim ao jejum, iniciado dia 27 de novembro, é a retirada imediata do Exército da área da tomada de águas dos eixos Norte e Leste, em Petrolândia e Cabrobó, Pernambuco. Segundo a Articulação São Francisco Vivo, grupos de apoio ao bispo chegaram de todo o interior da Bahia e de outros oito Estados (Alagoas, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe e Tocantins), além do Distrito Federal.
Faltam bons religiosos!
É deste tipo de religioso que a população brasileira, menos favorecida, está precisando. Que seja voz aos que não são ouvidos, por serem pobres.Fico triste que são pouqiíssimos religiosos que se engajam em causas sociais, em prol da diminuição ou alívio do sofrimento dos brasileiros pequeninos financeiramente. Onde estão os outros bispos nosdestinos? e os pastores protestantes que se dizem: evangélicos? Onde está o bispo Marcelo Crivella, que por sinal é político? Não se diz comovido com a poipulação sertaneja nordestina? Está calado por que?
Que o bondoso D.Cáppio não precise doar sua vida pela maldade, insensibilidade, prepotência e falsidade do Lula!
Bons religiosos
O gesto de D. Cappio chama a atenção e até comove, e é para ambas essas coisas que é realizado. Mas ele está defendendo uma causa que prejudica milhões de sertanejos e ajuda a manter o status quo da miséria e da dependência do povo em relação aos coronéis da região. Os outros bispos estão a favor da transposição, porque sabem que vai melhorar a situação material e social de uma imensa parcela sacrificada. D. Cappio está dando ouvidos a gente mal intencionada. A transposição não afeta a saúde do rio S. Francisco, como fica provado no Estudo de Impacto Ambiental do projeto. A transposição pode ser executada simultaneamente com a revitalização do São Francisco, nas áreas de Minas e Sudoeste da Bahia. A revitalização depende de atitudes dos governos e prefeituras do Minas e Bahia, e até mesmo da prefeitura da cidade de Barra, onde D. Cappio é bispo. Ele não disse uma vírgula sequer contra os fazendeiros que derrubam a mata para plantar soja ou capim para boi e que são os responsáveis reais pelo desastre ecológico que há muitas e muitas décadas vem desertificando o norte de Minas e sudoeste da Bahia. Ele só tem a idéia fixa de conferenciar com Lula, assinar uma espécie de tratado de paz entre ele, D. Cappio, e a República do Brasil. Se houver mesmo a conferência, que tal chamar os bispos favoráveis à transposição? E por que não incluir os nordestinos que serão beneficiados com a transposição? E se transposição é coisa feia, o que vamos fazer com as transposições que garantem água a São Paulo, Rio, BH, Salvador, etc...? Esse desembargador sergipano será que pode também deixar paulistas, cariocas, etc, entregues a poços de fundo de quintal?
carta ao ministro da integração nacional
Exmo. Sr. Geddel Quadros Vieira Lima, Ministro da Integração Nacional.
Escrevo esta mensagem com a finalidade de auxiliá-lo em questões terminológicas relativas ao artigo publicado por Vossa Senhoria no Jornal Folha de São Paulo, neste dia 10 de Dezembro de 2007. Recebi com certa preocupação a maneira como o conceito de “democracia” foi trabalhado em relação à problemática da greve de fome do bispo Cappio em Sobradinho. É bem verdade que símbolos podem ser usados como meios para fins indesejáveis. Mas em hipótese alguma pode-se afirmar com tanta unilateralidade que os símbolos foram por vezes usados “para fraudar, enganar, manipular, distorcer e fragilizar a democracia e as instituições”. Uma afirmação assim considerada é indutivista e ingênua, pois não considera sua totalidade, suas constâncias e nem mesmo a peculiaridade dos que elaboram a historiografia e sua realidade. Aqui valem alguns questionamentos: quem escreveu a história? Sob que ótica? Certos símbolos ferem a democracia do ponto de vista de quem? De que classe ou parcela da população? Creio que o conceito de democracia por vós apresentado é um tanto forjado. Democracia, em termos gerais, significa “forma de governo na qual o poder emana do povo e em nome dele é constituído; soberania popular; igualdade”. É lamentável quando aqueles que foram colocados no poder pelo povo, para servir ao povo e segundo a vontade deste povo, se distanciam do povo. Passam a privilegiar interesses de grupos reduzidos, distanciando-se da vontade popular. Prezado ministro, isto sim é o que significa tornar-se um ícone “para fraudar, enganar, manipular, distorcer e fragilizar a democracia e as instituições”. Todo cidadão é por sua própria natureza um político. Político não são apenas aqueles que estão em esferas representativas do poder (do povo). Estes, aliás, devem tomar o constante cuidado para que jamais se afastem da vontade do povo e é sempre necessário ser sensíveis a isto, ouvindo suas manifestações e dando a elas o devido valor. É inaceitável que Vossa Senhoria e os demais representantes do povo tenham classificado a manifestação do bispo como “terrorismo simbólico” e “chantagem”. Lembro que os “símbolos” que enfraquecem e destroem a democracia e as instituições não são oriundos apenas das camadas populares, mas podem estar presentes também entre os representantes do povo. Faço votos de que Vossa Senhoria jamais esteja entre estes, crendo no bom senso que o prezado ministro possui indubitavelmente. Não estou aqui questionando se a forma de protesto escolhida pelo bispo é a mais adequada ou não. Apenas questiono a ambigüidade atribuída ao conceito “democracia”. O que o bispo está fazendo, qualquer cidadão tem o direito e dever de fazer, mesmo que seja em outras modalidades de protesto. Ele é bispo, mas antes disso é cidadão. Sua manifestação não pode ser classificada de ilegítima. Igualmente não é válido o argumento apresentado por Vossa Senhoria de que uma democracia não deve dobrar-se à “certeza de um único indivíduo, por mais impactante que seja o simbolismo que ele pretenda associar”. Esta afirmação é tão irreal, pois basta Vossa Senhoria avançar mais algumas páginas no Jornal Folha de São Paulo deste mesmo dia 10 de dezembro e ver que o Exército barrou uma romaria de apoio ao bispo que está em greve de fome. O que se diz do povo ribeirinho? Eles foram consultados pra conferir se é do desejo deles ou não a transposição do rio? Vossa Senhoria tem certeza de que a manifestação de Dom Cappio é a “certeza de um único indivíduo”? Parece que os fatos comprovam exatamente o contrário. Além do mais o que o senhor chama de ícones não entorpece a democracia. Quando os “ícones” manifestam a vontade do povo, o mínimo que os organismos públicos de governo devem fazer é submeter-se aos mesmos sim. Aliás, eles surgem do meio do povo exatamente quando o governo se afasta dos anseios do povo. Os ícones, na verdade, são um sintoma. É como uma febre, que denuncia alguma anormalidade no corpo. Será que os nossos ícones populares não são como uma febre que denuncia alguma doença no corpo da sociedade? Pense bem nisto, ao invés de rejeitar estas vozes e desconsiderar seus argumentos ou razões. Tenha certeza de que a atitude do bispo não é imposição de “uma vontade individual à vontade de um governo legitimamente constituído”. Será que este governo legitimamente constituído não esqueceu a vontade coletiva, pois não a ouve, e orienta-se apenas em favor de pequenos grupos ou interesses que divergem dos interesses populares? Aqui a situação é bem inversa. Lembro ainda que a fé cristã não é uma fé alheia ao compromisso político. Há pessoas que afirmam que o Estado é laico, mas se esquecem de levar em conta que as pessoas que formam este mesmo Estado possuem fé e a professam, em sua maior parte, em instituições religiosas, não importando qual seja sua religião. O Estado não pode deixar isto passar por despercebido. Toda pessoa de fé é também cidadã. O bispo está em uso de plenos direitos de cidadão. Mas seria bom que Vossa Senhoria, que se diz Católico, estudasse melhor e aprofundasse seu conhecimento sobre a pessoa de Jesus Cristo. Deixe um pouco de lado suas convicções particulares ou subjetivas, e busque o Cristo objetivamente. Neste momento uma boa pergunta é esta: por que Jesus Cristo morreu? Se o Bispo Cappio morrer, pergunte: por que Cappio morreu? Será que ele, como discípulo de Jesus Cristo, não está seguindo os passos de seu mestre? Ou será que Vossa Senhoria seria capaz de afirmar também que Jesus Cristo teria atentado contra a própria vida e usado sua condição de Filho de Deus para “colocá-la a serviço de uma militância política baseada num fundamentalismo que só entende a rendição incondicional como resposta”? Jesus não morreu, foi assassinado por permanecer fiel à sua missão. E desta trama contra sua vida participaram os líderes políticos de sua época. Será que ainda dá pra dizer que ele atentou contra a própria vida, ou deu sua vida para a vida dos seus? E um discípulo, como Cappio, que deve continuar a obra do seu Mestre, deve ser infiel e abandonar sua missão? Leia os Evangelhos, por favor. Entenda que o Bispo Cappio não está atentando contra a própria vida, mas está defendendo a vida num sentido maior, pois o amor que mora em seu coração é maior. É bem verdade, como Vossa Senhoria afirmou, que “a Igreja, a santa Igreja”, não é fundamentalista. Não é mesmo. Mas com certeza ela é radial em suas opções. E sua raiz está no amor de Deus, criador e doador da vida. Não só a vida humana, mas toda forma de vida existente sobre a face da terra. É neste sentido que o bispo pensa na vida e a quer defender. Talvez “seu coração tenha razões que a própria razão desconheça”. Concordo plenamente com Vossa Senhoria que muitos acabam se aproveitando da situação. Lamentamos, juntos, isso tudo. Mas não é novidade. Quantos também não se aproveitaram e ainda se aproveitam de Jesus e da fé pra sua ascensão até mesmo política, exibindo fotos ao lado de líderes religiosos? Não podemos nos assustar com isso, mas sempre buscar a sinceridade do coração humano e a verdade de suas intenções. Acredito muito que a morte de Cappio não é desejada. Eu não a desejo, creio que Vossa Senhoria não a deseja e não me restam dúvidas de que o próprio Bispo Cappio não a deseja. Meu único desejo é que o bispo viva, que o seu povo ribeirinho viva e que a sua voz seja ouvida. Que as leis sejam respeitadas. As que precisam, sejam transformadas. E precisamos de leis. De boas leis. Que a ética e a moral, sem moralismos baratos, sejam concretas. Mas que acima de tudo reine a lei do amor. O desejo é que esta questão seja resolvida, o quanto antes e definitivamente. Não creio que Cappio esteja desrespeitando a Igreja, mas que pense muito e com atenção na Palavra da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Esta não o condenou, mas dirigiu-lhe algumas orientações. Devemos sempre ser obedientes à Igreja, e sei que ele também está sendo e sempre será. Sei que precisamos de vozes proféticas, como a do bispo Cappio, mas o queremos com vida e queremos que seu povo viva. Por isso, além de pedir que ele preserve sua vida, peço também ao Estado que preserve o São Francisco. Peço a Deus que olhe por todos. Que olhe por vossa Senhoria e oriente sempre o coração do querido bispo Cappio, conservando-o como fiel discípulo e missionário de Jesus Cristo. Atenciosamente, Padre Marcos Radaelli.
Se o Bispo Morrer
Se o Frei Luis morrer nossos governantea irão saber com quantas páuas fazem uma jangada.

















O RN também está na luta contra a transposição do Velho Chico
O Rio Grande do Norte também esteve presente.