Propaganda enganosa e escassez de alimentos são armas da oposição
Crise provocada: industriais estocam leite para impedir acesso da população e desgastar Chávez
Claudia Jardim,
de Caracas (Venezuela)
Uma jovem entra em uma padaria e pede um café-com-leite. A balconista diz que não tem leite, está em falta. A menina se queixa, bate a mão no balcão e diz que o país vai de mal a pior. Neste momento, entra um homem e diz: “Camarada, estamos em estado de exceção. Vou te levar presa”.
Esse é o diálogo de uma propaganda do partido Um Novo Tempo contra à reforma constitucional em referência ao polêmico artigo 337 que trata do estado de exceção. A propaganda “A padaria” teve sua difusão proibida nesta segundafeira pelo Conselho Nacional Eleitoral por deturpar o conteúdo proposto na reforma. Outras três propagandas do “não” e uma propaganda a favor do “sim” também foram punidas.
A propaganda se refere a um texto que não foi aprovado no Congresso. Antes de ser sancionado, o artigo 337 previa a suspensão do direito ao devido processo legal em casos de estado de exceção. Após semanas de polêmicas e críticas, inclusive da base chavista, os o texto foi modificado.
A guerra de propagandas eleitorais, aliada a casos isolados de violência, e o desabastecimento de alimentos têm marcado o tom da campanha para o referendo que deverá aprovar ou rechaçar em 2 de dezembro a reforma constitucional proposta pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
Escassez de alimentos
Mas a propaganda da padaria não é de todo mentirosa. Há um mês, leite, açúcar e ovos se tornaram produtos de luxo nos supermercados. Quando o socialismo está em debate, as prateleiras se esvaziam como em um passe de mágica. Para o setor industrial, a crise de abastecimento no país deriva da política de ajuste dos preços da cesta básica determinada pelo governo, o que tornaria “a mercadoria” pouco rentável. O governo argumenta que o desabastecimento tem origem em dois fatores: o aumento da demanda e a sabotagem do setor industrial, com o objetivo de desgastar Chávez.
No início de novembro, 125 toneladas de leite de um depósito da transnacional suíça Nestlé foram encontradas estocados em um galpão no interior do país. Outras 40 toneladas de açúcar refinado foram encontradas em um estacionamento de um edifício no bairro de classe média El Paraíso, em Caracas.
Comprar um litro de leite se tornou um exercício de paciência. Tanto nos bairros de classe média e alta, quanto nas periferias, são horas na fila. A trabalhadora informal Tibisay Hernandez, que levou cinco horas na fila de um Mercal (mercado subsidiado pelo governo) para comprar um quilo de leite em pó. “De um dia para o outro desapareceu o leite. Como se explica isso?”, questiona.
De acordo com a Confederação de Industrias os produtores de leite consideram o mercado pouco competitivo e abandonaram a produção devido ao congelamento dos preços. Tibisay Hernandez acredita que o problema é de natureza política e responsabiliza tanto o governo quanto a oposição pela escassez. “Os empresários escondem e o governo não atua para solucionar o problema. Quem sofre é o povo”, reclama.















