Contra o movimento organizado, a repressão
Prisão de Flavio Sosa Villacicencio, conselheiro da APPO, mostra que governo federal opta por uma política de terrorismo de Estado
Traição. Foi assim como repercutiu a prisão de mais um dos conselheiros estatais da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), Flavio Sosa Villavicencio, quem nos últimos tempos tornou-se uma das vozes conhecidas da APPO entre a opinião pública. Villavicencio foi preso junto com o seu irmão, Horacio, e mais Ignacio García Sosa e Marcelino Coache, todos representantes do movimento. Os dois últimos inclusive foram levados sem que a polícia tivesse ordem de detenção contra eles. Sobre Sosa, no entanto, até o momento pesam cinco acusações, de um total de 44 contra os 260 conselheiros da assembléia oaxaquenha.
A ação da polícia recebeu o aplauso dos dois partidos de direita, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e o Partido de Ação Nacional (PAN). Tudo aconteceu no dia 4 de dezembro, no fim da tarde, e pegou todos de surpresa, depois de Sosa ter participado de uma entrevista coletiva. Isto porque estava marcada para o dia seguinte uma reunião de diálogo entre a APPO e a Secretaria de Governação, que na realidade nao ofereceu soluções para as demandas deste tecido de organizações sociais. O novo secretário, Francisco Ramirez Acuña, é conhecido justamente pela repressão aos movimentos. E o governo de Felipe Calderón opta logo no seu início pela política de “mano dura”, e ainda enterra o que havia dito sobre dialogar com todos os setores sociais, durante a sua posse, no dia 1º.
A política de repressão do governo Calderón segue a linha deixada pelo seu antecessor, Vicente Fox, e tem contornos diferentes daquela organizada por outros governos na história recente mexicana. A opinião é do editor do jornal La Jornada, Luiz Hernández Navarro, entrevistado pelo Brasil de Fato, para quem o país já não está vivendo a conhecida “guerra de baixa intensidade”, aplicada, por exemplo, com táticas de efeito moral contra as organizações populares, no sudeste do país. Agora o que está em jogo é promover o medo e o terror para desmantelar o movimento. A reportagem do Brasil de Fato veio ao México para acompanhar a experiência organizativa da APPO, mas acabou topando com um cenário de repressão e de um movimento cujos conselheiros estão detidos, escondidos ou baixo ameaça.
A perseguição aos líderes parte de uma compreensão por parte do poder de que, reprimindo os que seriam os representantes populares, estaria assim cortando a cabeça do movimento. Mas, na realidade, o desafio atual da APPO é mostrar aquilo que opinam os que vivenciaram os mais de seis meses da comuna: as bases do movimento dirigem a si próprias, algo ainda não absorvido pela classe política mexicana. “O governo de Fox nunca decifrou uma nova conflitiva social, uma nova subjetividade, nunca entendeu o que tem diante de si, por isso Calderón inicia com a “mano dura”, afirma Navarro.
Tal fato evoca o que ocorreu em fevereiro de 1995, durante o governo de Ernesto Zedillo (do PRI). Foi em meio a um processo de negociação com a dirigência do exército zapatista que Zedillo simplesmente armou a arapuca e ordenou a apreensão dos líderes do movimento. Agora é o mesmo Zedillo um dos organizadores da política de Felipe Calderón contra os movimentos sociais, como aponta Navarro. Outra comparação corrente entre os mexicanos é feita com a perseguição do Estado aos estudantes no final dos anos 1960.
Rogelio Vargas pertence à comissão de imprensa da APPO. Ele estava presente no plantão da APPO no dia seguinte à detenção de Sosa. Nas suas palavras, a Comuna de Oaxaca contabilizou até agora uma baixa de 300 presos, 20 assassinatos (certamente por grupos paramilitares atuando na região) e mais 50 desaparecidos. “Flavio é o primeiro preso da APPO do período Calderón”, comenta. E descreve: “Há bandos de paramilitares detendo as pessoas casa por casa, torturando, fazendo uma repressão direta, contra o estado de direito”, diz o porta-voz.
Quem é Flavio Sosa?
Nos últimos tempos, o oaxaquenho Flavio Sosa Villavicencio ficou conhecido pelas entrevistas que concedeu aos meios de comunicação, nas quais traduziu a ideologia da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca. Sosa - segundo informação dos jornais mexicanos à esquerda e à direita – é militante do PRD (Partido da Revolução Democrática), um dos fundadores do partido, pelo qual já chegou a ser deputado.
Nas eleições de 2000, renunciou ao seu cargo no PRD e resolveu ingressar nas fileiras do então candidato e futuro presidente Vicente Fox, do (PAN). Em 2004, junto com o Movimento Unificador de Lucha Triqui (Mult), formou o partido político local Unidad Popular, que lançou o candidato e ex-senador perredista Héctor Sánchez López, adversário de Ulises Ruiz na disputa pelo governo de Oaxaca.
Depois de se desligar da Unidade Popular, Villavicencio voltou a solicitar sua admissão no PRD en 2005 e foi designado conselheiro nacional. Em junho de 2006, com outras organizações civis, sociais, camponesas e sindicatos, integrou a APPO. Além de seu irmão Horacio, seu irmão Erick e o primo Jorge Sosa Campos estão presos.
Polícia vigia o plantão da APPO no centro da Cidade do México
No dia 4 de dezembro, à noite, havia no ar a ameaça de que as tropas oficiais fechassem a única rua de saída do plantão da APPO e prendessem os outros membros do movimento que estavam acampados por ali. Ativistas com quem a reportagem do Brasil de Fato esteve em contato na capital logo armaram uma estratégia para retirar os militantes em meio ao cerco policial que vasculhava o centro da cidade, ainda que os policiais estivessem dispersos pelas ruas e não formassem um bloco.
O carro onde estávamos foi parado pelo menos duas vezes. As ruas do centro da cidade estavam com pilhas de lixo por toda a parte. A cidade, gigantesca, naquela hora ficou pequena. Com dois companheiros já retirados do plantão e dentro do carro, a questão era: onde havia um lugar seguro para levá-los?
Primeiro relato de Oaxaca
Hoje, dia 6 de dezembro, finalmente chego até a cidade Oaxaca de Juaréz. Melhor dizendo, a cidade da Comuna de Oaxaca, como deverá ser lembrada por muito tempo. Chego com uma boa dose de receio, acompanhado de um jornalista estadunidense. Contamos com o fato de que temos o visto oficial de jornalista, neste momento no qual os ativistas dos meios independentes, rádios livres e coletivos sao agredidos pela polícia. Se é que nestas horas existe alguma regra. No momento dos confrontos, todos dizem, a polícia simplesmente avança sobre todos.
Vividos nove dias na Cidade do México, a indiferença da sociedade civil em relação ao estado de sítio em Oaxaca é mais sufocante do que a fumaça que paira no ar da capital. Além do que, com a prisão recente dos dirigentes da APPO e a remoção dos presos de Oaxaca para um cárcere mais de mil quilômetros distante, a repressão pode estar estendendo os braços para fora da cidade rebelada.
Chegamos de madrugada, tudo ainda um tanto escuro, mas o suficiente para perceber a grande quantidade de táxis, cafés e hotéis típicos de uma cidade colonial e turística. O taxista tenta nos animar, os dois supostos turistas: "Já deram um jeito nas pessoas más, agora está tudo tranqüilo”, comenta.
Logo que saímos para tomar um café, topamos com um silêncio incômodo nas ruas por parte das pessoas e dos policiais que só nos olham se for discretamente. A fileira de casas tem as paredes borradas, na tentativa de apagar o que havia sido escrito. A rua Alcalá foi uma das principais arenas das batalhas entre a APPO e a Polícia Federal Preventiva. Numa das pixações, restou apenas um “por que”. A praça, no Zócalo, onde antes havia um acampamento dos professores, está ocupada por cabanas da Polícia Federal Preventiva (PFP).
Pela rua Alcalá chegamos até a Igreja de Santo Domingo de Guzmán. As calçadas estão esburacadas, quase como dentes expostos, pois forneceram pedras para os carrinhos de supermercado que levavam a munição para as barricadas. Faz sol, o céu está demasiadamente azul e a polícia toma conta do centro da cidade. Qualquer turista pode chegar por aqui sem nem imaginar o que aconteceu e ainda dar uma olhada no jardim de flores plantada há pouco pelos priístas, no Zócalo.
Meu amigo estadunidense me explica que o pretexto da PFP para perseguir as pessoas devido à queima de prédios públicos é mais uma conversa. Pois, justamente na rua Alcalá, os cerca de 141 manifestantes foram encurralados, presos e torturados pela polícia. Apenas mais tarde houve a queima de prédios públicos, por aqueles que escaparam e pelos inflitrados nas barricadas.
Visito uma organização de direitos humanos cujo nome é melhor não revelar; das poucas que atuam neste momento em que os direitos individuais foram caçados. Contam-me que a aparente normalidade do centro da cidade nada diz da perseguição promovida nas “colônias”, algo como a periferia ao redor de Oaxaca. Ali vivem os povos indígenas que tomaram parte na Comuna com pedras, organização popular e tortilhas.
“As pessoas das colônias estão assustadas”, me diz um jovem da organização, seguramente espanhol. “Vizinhos denunciam vizinhos de terem participado das barricadas”, completa.
O cerco está armado e ele é também invisível como o medo. Não consigo tirar fotos, tampouco conversar com as pessoas. Talvez a oitava megamarcha seja o termômetro para verificarmos se o terrorismo policial surtiu efeito entre as bases do movimento. Mas como romper este cerco tão real e tão silencioso?












