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Contra o movimento organizado, a repressão

by jpereira last modified 2006-12-12 12:24

Prisão de Flavio Sosa Villacicencio, conselheiro da APPO, mostra que governo federal opta por uma política de terrorismo de Estado

Prisão de Flavio Sosa Villacicencio, conselheiro da APPO, mostra que governo federal opta por uma política de terrorismo de Estado


Traição. Foi assim como repercutiu a prisão de mais um dos conselheiros estatais da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), Flavio Sosa Villavicencio, quem nos últimos tempos tornou-se uma das vozes conhecidas da APPO entre a opinião pública. Villavicencio foi preso junto com o seu irmão, Horacio, e mais Ignacio García Sosa e Marcelino Coache, todos representantes do movimento. Os dois últimos inclusive foram levados sem que a polícia tivesse ordem de detenção contra eles. Sobre Sosa, no entanto, até o momento pesam cinco acusações, de um total de 44 contra os 260 conselheiros da assembléia oaxaquenha.

A ação da polícia recebeu o aplauso dos dois partidos de direita, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e o Partido de Ação Nacional (PAN). Tudo aconteceu no dia 4 de dezembro, no fim da tarde, e pegou todos de surpresa, depois de Sosa ter participado de uma entrevista coletiva. Isto porque estava marcada para o dia seguinte uma reunião de diálogo entre a APPO e a Secretaria de Governação, que na realidade nao ofereceu soluções para as demandas deste tecido de organizações sociais. O novo secretário, Francisco Ramirez Acuña, é conhecido justamente pela repressão aos movimentos. E o governo de Felipe Calderón opta logo no seu início pela política de “mano dura”, e ainda enterra o que havia dito sobre dialogar com todos os setores sociais, durante a sua posse, no dia 1º.
 
A política de repressão do governo Calderón segue a linha deixada pelo seu antecessor, Vicente Fox, e tem contornos diferentes daquela organizada por outros governos na história recente mexicana. A opinião é do editor do jornal La Jornada, Luiz Hernández Navarro, entrevistado pelo Brasil de Fato, para quem o país já não está vivendo a conhecida “guerra de baixa intensidade”, aplicada, por exemplo, com táticas de efeito moral contra as organizações populares, no sudeste do país. Agora o que está em jogo é promover o medo e o terror para desmantelar o movimento. A reportagem do Brasil de Fato veio ao México para acompanhar a experiência organizativa da APPO, mas acabou topando com um cenário de repressão e de um movimento cujos conselheiros estão  detidos, escondidos ou baixo ameaça.

A perseguição aos líderes parte de uma compreensão por parte do poder de que, reprimindo os que seriam os representantes populares, estaria assim cortando a cabeça do movimento. Mas, na realidade, o desafio atual da APPO é mostrar aquilo que opinam os que vivenciaram os mais de seis meses da comuna: as bases do movimento dirigem a si próprias, algo ainda não absorvido pela classe política mexicana. “O governo de Fox nunca decifrou uma nova conflitiva social, uma nova subjetividade, nunca entendeu o que tem diante de si, por isso Calderón inicia com a “mano dura”, afirma Navarro.

Tal fato evoca o que ocorreu em fevereiro de 1995, durante o governo de Ernesto Zedillo (do PRI). Foi em meio a um processo de negociação com a dirigência do exército zapatista que Zedillo simplesmente armou a arapuca e ordenou a apreensão dos líderes do movimento. Agora é o mesmo Zedillo um dos organizadores da política de Felipe Calderón contra os movimentos sociais, como aponta Navarro. Outra comparação corrente entre os mexicanos é feita com a perseguição do Estado aos estudantes no final dos anos 1960.

Rogelio Vargas pertence à comissão de imprensa da APPO. Ele estava presente no plantão da APPO no dia seguinte à detenção de Sosa. Nas suas palavras, a Comuna de Oaxaca contabilizou até agora uma baixa de 300 presos, 20 assassinatos (certamente por grupos paramilitares atuando na região) e mais 50 desaparecidos. “Flavio é o primeiro preso da APPO do período Calderón”, comenta. E descreve: “Há bandos de paramilitares detendo as pessoas casa por casa, torturando, fazendo uma repressão direta, contra o estado de direito”, diz o porta-voz.

Quem é Flavio Sosa?

Nos últimos tempos, o oaxaquenho Flavio Sosa Villavicencio ficou conhecido pelas entrevistas que concedeu aos meios de comunicação, nas quais traduziu a ideologia da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca. Sosa - segundo informação dos jornais mexicanos à esquerda e à direita – é militante do PRD (Partido da Revolução Democrática), um dos fundadores do partido, pelo qual já chegou a ser deputado.

Nas eleições de 2000, renunciou ao seu cargo no PRD e resolveu ingressar nas fileiras do então candidato e futuro presidente Vicente Fox, do  (PAN). Em 2004, junto com o Movimento Unificador de Lucha Triqui (Mult), formou o partido político local Unidad Popular, que lançou o candidato e ex-senador perredista Héctor Sánchez López, adversário de Ulises Ruiz na disputa pelo governo de Oaxaca.

Depois de se desligar da Unidade Popular, Villavicencio voltou a  solicitar sua admissão no PRD en 2005 e foi designado conselheiro nacional. Em junho de 2006, com outras organizações civis, sociais, camponesas e sindicatos, integrou a APPO. Além de seu irmão Horacio, seu irmão Erick e o primo Jorge Sosa Campos estão presos.

Polícia vigia o plantão da APPO no centro da Cidade do México
No dia 4 de dezembro, à noite, havia no ar a ameaça de que as tropas oficiais fechassem a única rua de saída do plantão da APPO e prendessem os outros membros do movimento que estavam acampados por ali. Ativistas com quem a reportagem do Brasil de Fato esteve em contato na capital logo armaram uma estratégia para retirar os militantes em meio ao cerco policial que vasculhava o centro da cidade, ainda que os policiais estivessem dispersos pelas ruas e não formassem um bloco.

O carro onde estávamos foi parado pelo menos duas vezes. As ruas do centro da cidade estavam com pilhas de lixo por toda a parte. A cidade, gigantesca, naquela hora ficou pequena. Com dois companheiros já retirados do plantão e dentro do carro, a questão era: onde havia um lugar seguro para levá-los? 

Primeiro relato de Oaxaca
Hoje, dia 6 de dezembro, finalmente chego até a cidade Oaxaca de Juaréz. Melhor dizendo, a cidade da Comuna de Oaxaca, como deverá ser lembrada por muito tempo. Chego com uma boa dose de receio, acompanhado de um jornalista estadunidense. Contamos com o fato de que temos o visto oficial de jornalista, neste momento no qual os ativistas dos meios independentes, rádios livres e coletivos sao agredidos pela polícia. Se é que nestas horas existe alguma regra. No momento dos confrontos, todos dizem, a polícia simplesmente avança sobre todos. 

Vividos nove dias na Cidade do México, a indiferença da sociedade civil em relação ao estado de sítio em Oaxaca é mais sufocante do que a fumaça que paira no ar da capital. Além do que, com a prisão recente dos dirigentes da APPO e a remoção dos presos de Oaxaca para um cárcere mais de mil quilômetros distante, a repressão pode estar estendendo os braços para fora da cidade rebelada. 

Chegamos de madrugada, tudo ainda um tanto escuro, mas o suficiente para perceber a grande quantidade de táxis, cafés e hotéis típicos de uma cidade colonial e turística. O taxista tenta nos animar, os dois supostos turistas: "Já deram um jeito nas pessoas más, agora está tudo tranqüilo”, comenta.

Logo que saímos para tomar um café, topamos com um silêncio incômodo nas ruas por parte das pessoas e dos policiais que só nos olham se for discretamente. A fileira de casas tem as paredes borradas, na tentativa de apagar o que havia sido escrito. A rua Alcalá foi uma das principais arenas das batalhas entre a APPO e a Polícia Federal Preventiva. Numa das pixações, restou apenas um “por que”. A praça, no Zócalo, onde antes havia um acampamento dos professores, está ocupada por cabanas da Polícia Federal Preventiva (PFP).

Pela rua Alcalá chegamos até a Igreja de Santo Domingo de Guzmán. As calçadas estão esburacadas, quase como dentes expostos, pois forneceram pedras para os carrinhos de supermercado que levavam a munição para as barricadas. Faz sol, o céu está demasiadamente azul e a polícia toma conta do centro da cidade. Qualquer turista pode chegar por aqui sem nem imaginar o que aconteceu e ainda dar uma olhada no jardim de flores plantada há pouco pelos priístas, no Zócalo.

Meu amigo estadunidense me explica que o pretexto da PFP para perseguir as pessoas devido à queima de prédios públicos é mais uma conversa. Pois, justamente na rua Alcalá, os cerca de 141 manifestantes foram encurralados, presos e torturados pela polícia. Apenas mais tarde houve a queima de prédios públicos, por aqueles que escaparam e pelos inflitrados nas barricadas. 

Visito uma organização de direitos humanos cujo nome é melhor não revelar; das poucas que atuam neste momento em que os direitos individuais foram caçados. Contam-me que a aparente normalidade do centro da cidade nada diz da perseguição promovida nas “colônias”, algo como a periferia ao redor de Oaxaca. Ali vivem os povos indígenas que tomaram parte na Comuna com pedras, organização popular e tortilhas.

“As pessoas das colônias estão assustadas”, me diz um jovem da organização, seguramente espanhol. “Vizinhos denunciam vizinhos de terem participado das barricadas”, completa. 

O cerco está armado e ele é também invisível como o medo. Não consigo tirar fotos, tampouco conversar com as pessoas. Talvez a oitava megamarcha seja o termômetro para verificarmos se o terrorismo policial surtiu efeito entre as bases do movimento. Mas como romper este cerco tão real e tão silencioso?


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