De como as barricadas se organizavam
"Todas as pessoas do povo se converteram num sistema de inteligência da assembléia popular"
Pedro Carrano,
Enviado especial a Oaxaca (México)
Marco Antonio é marido de uma profesora da Seção 22 do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação. Indígena mixteco, vive com a família nas colônias em volta da capital histórica de Oaxaca, embora nos últimos tempos teve que se esconder e evitar comparecer a uma convocatória da Justiça, que não oferece garantias neste momento à população.
Ele esteve presente desde o início na barricada de Rosário, erguida na madrugada que se seguiu ao ataque de paramilitares contra a Rádio Cacerola, pertencente à Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO).
A missão da barricada era defender a antena da Rádio La Ley, até então comercial e logo tomada pelo movimento junto a outras 12 radiodifusoras. A La Ley perdurou por um bom tempo, numa parte da estrada que conduz ao município de Santa Lucía del Camino. "As pessoas baixaram dos morros em abundância para apoiar", recorda Marco Antonio. Todas as saídas da estrada e caminhos estavam fechados; o único medo era que os paramilitares ou a polícia entrassem pelo rio Salado, que corre pelo local.
O risco se devia ao fato de que o presidente municipal de Santa Lucia del Camino, Manuel Martínez Feria, é compadre de Ulises Ruiz Ortiz, governador de Oaxaca. O relato de Marco Antonio aponta para as relações de poder de caráter coronelista geradas pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI). "Mas tapamos a entrada do município justamente com outdoors que faziam propaganda do PRI", relata.
Ele recorda que a organização das barricadas não tinha líderes. "As pessoas tinham isto muito presente, não podiam dizer algo em nome das barricadas, a direção não podia tomar decisões sem antes falar com as pessoas. Sabemos que os líderes se vendem, então preferimos as bases, creio que isto foi o mais marcante", coloca.
Dentro da barricada, havia uma divisão de tarefas por grupos, pessoas responsáveis por fazer o atole (bebida de leite quente), grupos responsáveis pela limpeza, etc. Traçavam estratégias nos momentos de reflexão sobre a forma de defesa, influenciados pelas experiências de outras barricadas.
A velocidade de mobilização dentro das barricadas por vezes superava e ia além do que determinava a direção constituída do movimento. Na verdade, era algo que partia do consenso popular num dado instante e circunstância da luta. Nos dois encontros que teve com o porta-voz do movimento, Florentino López Martínez, a reportagem do Brasil de Fato questionou justamente isso: como fazer para respeitar e não reprimir uma organização claramente horizontal e independente?
"A direção orienta, de maneira geral, as pessoas nas colônias executam e claro que existe uma necessidade cotidiana, concreta, que vai mais além das colocações do conselho estatal. Mas existem infiltrados e provocadores, algo que temos que considerar. De acordo com a necessidade se pode construir uma série de regras. Mas deixamos que a imaginação das pessoas nas barricadas possa fluir e materializar-se no movimento", responde Martínez.
Outro aspecto interessante na organização das barricadas e na sobrevivência do movimento foi o sistema de informações alimentado desde várias partes, bastava um telefone. "Todas as pessoas do povo se converteram num sistema de inteligência da assembléia, se converteram em vigilantes, com isto sabíamos os passos dos inimigos com antecipação. Foi uma participação na qual o povo conseguia informação, não sabíamos nem como, e entregavam à APPO", explica
Comunalidade
Marco Antonio agrega que um outro exercício de democracia posto em prática nos espaços da APPO, inspirado nos pilares da tradição indígena da comunalidade. "Nas barricadas conviviam muita gente, o que era difícil, todos podiam opinar e ser levados em conta. Não havia isto de classe social, todos tínhamos que sentar no piso, tomar café juntos", dispara. Os principais usos e costumes das comunidades são:
Guelaguetza. Comércio indígena feito com o princípio da troca e da necessidade. A guelaguetza dá nome a uma festa que revaloriza esta prática.
Tequio. De acordo com Marco Antonio: "Na hora quando eu preciso constuir uma casa ou cortar o mato do terreno, todos vêm para ajudar, mas não se cobra, pedem apenas que você prepare uma comida para todos", explica.
Assembléias Populares. A comunidade decide o será feito com os recursos que chegam para os municípios autônomos de Oaxaca. A assembléia é a máxima autoridade. Nela, as decisões são por consenso e não por maioria de pessoas.















