Dois encontros com Florentino López Martínez
Pedro Carrano,
enviado especial a Oaxaca (México)
Com apenas 23 anos, Florentino López Martínez, indígena mixteco, não pôde concluir o curso de direito na Universidad Autonoma Benito Juárez, a poucos meses de graduar-se. Ele deixou também o movimento estudantil para ser um dos conselheiros e o atual porta-voz da APPO.
Nosso encontro aconteceu no pátio de uma escola que deu guarida a uma reunião clandestina da APPO, na semana passada. Não pude ficar por muito tempo no local e a comissão de segurança me acompanhou até um ponto longe dos policiais à paisana que circundavam o lugar.
Em meio a um turbilhão de ameaças de perseguição e de tortura contra os simpatizantes e os integrantes do movimento (do qual ele mesmo andava ameaçado e foi vítima no dia 18), López enfatizou a mobilização popular para que a APPO engrene outra vez. Disse que as barricadas voltariam a ser erguidas de acordo com as circunstâncias, se as pessoas julgassem necessário.
"Não há um trâmite legal para a APPO, por isso a dinâmica da luta permanentemente muda, não há um limite, nem sequer um padrão para saber o número de pessoas que estão participando. A APPO não tem o seu desenvolvimento interno acabado e se fortalece constantemente mediante as Assembléias Populares", coloca.
Utiliza a palavra assembléia no plural. Porém existe um órgão máximo para a organização, que seria a Assembléia Estatal, integrada por 215 conselheiros ao todo. Participam com ao menos 10 representantes cada uma das 8 regiões de Oaxaca; um Estado de geografia complexa, dividido entre as áreas da costa, mixteca, istmo etc.
Independência
Por princípio, não há envolvimento com os partidos políticos, ainda que individualmente as pessoas possam ser partidárias do movimento em torno de López Obrador (candidato à Presidência pelo PRD que alega ter sofrido fraude nas eleições deste ano). "Entre os princípios aprovados, está a independência política entre a APPO e os partidos, e é muito clara esta decisão de independência política", reforça.
Pergunto, então, qual seria a relação com a Outra Campanha, impulsionada pelo Exército Zapatista de Liberaçao Nacional (EZLN), cujo pensamento já estava materializado desde a década de 90, quando os zapatistas pregavam a impossibilidade de um caminho institucional no México, sobretudo via partidos políticos. "Compartilhamos com a Outra Campanha o objetivo de uma nova constituição, uma nova constituinte, um novo pacto social social em Oaxaca, entre os trabalhadores do campo e da cidade", pensa.
Martínez não hesita em afirmar que o movimento tem um caráter amplo e que o nome APPO seria um processo de expressão da unidade. Também é despreocupado e sucinto na hora de situar qual seria a voz dos indígenas entre as tonalidades que caracterizam a diversidade do movimento: "não há um mecanismo especial para privilegiar os povos indígenas, a maioria dos professores são indígenas. APPO somos os indígenas na luta para conservar a nossa identidade", comenta.
O espaço do poder popular
A questão que me intriga e que me obriga a marcar uma segunda entrevista com o porta-voz da APPO é o tema do poder popular e como ele foi operado ao longo dos seis meses de mobilização e ações populares concretas. Embora, depois do dia 25, toda a capital oaxaquenha tenha sido recuperada pelo Estado e o próprio Martínez sofrido na pele a perseguição e a tortura aplicadas contra militantes, trabalhadoras e trabalhadores.
Ele conta que, a partir do dia 20 de junho, as secretarias e os escritórios do governo foram fechados, os governantes não podiam aparecer em nenhuma parte do Estado, "porque os povos não permitiam a aterrissagem de helicópteros", relembra Florentino. Ademais, a partir desta data foi conformada a APPO, agrupando as forças sociais que somaram-se à luta magisterial da Seção 22, uma seção rebelde do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação (SNTE - reconhecido em plano nacional pelas relações de submissão aos partidos no poder).
A partir do mês de maio, a Seção 22 promovia mais uma paralisação que a caracterizou ao longo dos 26 anos de existência. Até que, na madrugada do dia 14 de junho, os professores foram desalojados violentamente do centro da cidade (zócalo capitalino), a mando do governador Ulises Ruiz Ortiz (URO), iniciando uma luta para recuperar o zócalo. Nisto surge a APPO, um tecido de organizações que transcendeu a luta dos professores. Primeiro participaram as organizações de caráter político, pouco depois os indígenas se somaram.
"No dia 20 de junho, na faculdade de direito Benito Juárez, se deu uma estrutura única para o movimento. A partir daí se juntaram dezenas de comunidades, elegeram-se os representantes e o movimento foi crescendo de maneira impressionante. Tem espaço para as organizações sociais, políticas e autoridades municipais das comunidades autônomas, todas as pessoas em particular têm um lugar", narra Florentino.
Administrando
O controle da capital de Oaxaca se dava de modo físico pois os policiais estavam aquartelados ou atuando à paisana. De igual modo, as secretarias do governo estavam fechadas ou atuando clandestinamente. "As pessoas olhavam a APPO como a responsável para gerar ordem entre a sociedade e, a partir daí, passaram a vê-la como um espaço de poder, ainda que isto não estivesse sistematizado", explica.
A dita segurança pública era um assunto dos próprios colonos, nos bairros da periferia, articulados para, detectar os ladrões e levá-los para a assembléia. "A assembléia verificava qual o dano, que então o ladrão o pagasse ou devolvesse o objeto que roubou", comenta.
No período que passei na área Mixteca de Oaxaca, e mesmo um ano antes, em território zapatista, no estado de Chiapas, acompanhei a intenção do movimento social de estar presente no cotidiano dos trabalhadores. Na região mixteca, 70 táxis foram comprados pela Assembléia Popular em conjunto com os trabalhadores, para que os meios de transporte e o movimento se apoiassem mutuamente.
Na capital de Oaxaca, nos meses que precederam a repressão, os ônibus durante a noite eram cedidos pelos choferes para fechar e dar corpo às barricadas, desde que pudessem retirá-los pela manha e seguir rumo ao trabalho. "Ocupamos uma boa parte dos órgãos públicos, comerciantes e transportes públicos nos acudiam, todavia a ocupação total confrontava-se com o poder federal", reflete Martínez.















