Familiares exigem libertação de presos políticos
"Já não temos mais medo", exclama Yolanda Gutierrez, acampada em frente à prisão para exigir que seu filho, o estudante Cristian Marcel Cebolledo, seja solto
Pedro Carrano,
Enviado Especial a Oaxaca (México)
As duas prisões de Oaxaca que abrigam os presos políticos agarrados aleatoriamente em 25 de novembro ficam em uma região árida, nos Vales Centrais do Estado. De 20 de dezembro em diante, famílias se revezam madrugada adentro, esperando pelos presos que podem ser soltos sem aviso, normalmente às 2h ou 3h, sob o frio cortante do deserto. Diante da falta de sinais de liberação dos presos, no primeiro dia do ano montaram um plantão permanente em frente aos centros de reclusão.
O presídio no município de Miahuatlán fica a duas horas da capital histórica de Oaxaca. Nos plantões, uniram-se estudantes vindos do Distrito Federal (DF) em apoio ao estudante de economia Cristian Marcel Cebolledo Gutiérrez, que há mais de 3 meses desceu para o Sul do país para ingressar nas já extintas barricadas.
Yolanda Gutierrez, mãe de Cristian, é uma das organizadoras do plantão. O mês de dezembro foi um exercício de politização para todos ali, não muito diferente do que foi a mobilização popular ao longo dos seis meses da Comuna. As famílias criaram enlaces de comunicação entre si e com a imprensa, buscaram estratégias contra a repressão, como turnos de vigilância para filmar e tomar fotos dos carros suspeitos que circundam o acampamento, numa experiência parecida com a organização das pessoas nas barricadas, na defesa contra as ameaças de paramilitares e mercenários.
"A verdade é que nos sentimos sós, é um absurdo que tenham que vir pessoas de outras partes do mundo para ver as políticas que se aplicam aqui. Eu gostaria que tirassem o México da Comissão de Direitos Humanos da ONU", exclama Yolanda, em meio ao tímido apoio da sociedade civil mexicana. No momento, as famílias não aceitam negociar e exigem a saída imediata de todos nuestros presos, como dizem, livres das acusações que pesam sobre eles, "ilegais", na voz das famílias.
Os ativistas, à noite, formavam um coro e gritavam diante dos muros das alas masculina e feminina as palavras de ordem que embalaram as megamarchas realizadas pela APPO, sob o olhar próximo dos vigias. "Já não temos mais medo", exclama Isauro, indígena mixe, um entre vários estudantes falando idioma originário, num cenário que juntava naquela noite camponeses, indígenas de comunidades montanhosas ou das periferias da capital, professores primários, desempregados, todos de certo modo os atores que deram corpo a APPO.
Três dos irmãos de Alba Coca Gomez estão do lado de dentro dos muros de Miahuatlán. Ela é filha de um casamento entre etnias diferentes: mixteca e zapoteca. Segue a profissão do pai, é professora primária, sindicalizada na Seçao XXII do SNTE. A eclosão do movimento se deve à observação do cotidiano dos alunos nos povoados, diz. "Os alunos para quem dou aula falam com dificuldade o espanhol, seu idioma é o zapoteco, por isso os indígenas muitas vezes são enganados, principalmente pelo presidente de cada município, normalmente do PRI", comenta.
Revolta e armas guardadas
Na prisão de Tlacolula, uma hora longe da capital, os funcionários da prisão, armas em punho, desalojaram os familiares que tentavam montar o plantão como resposta pública à não liberação dos presos no final do ano. No recorrido até o reclusório, conforme a capital é deixada para trás, somam-se povoados dispersos, erguidos com casas de latão em meio ao terreno árido, ou então casas abandonadas ocupadas por carros do exército, algo que assusta comparado à opulência da pequena burguesia da capital.
As conversas com as famílias dos presos políticos são um sintoma de como está o ânimo dos oaxaquenhos. Todos concordam que as mobilizações vão ser retomadas o mais breve e as barricadas erguidas de volta. Provada a repressão que deixou a todos indefesos, alguns cogitam o uso de armas para tirar Ulises Ruiz Ortiz do poder, como diz um estudante de arquitetura cujo irmão está preso. Ele vive no município de Santa Lucía del Camino, onde foi assassinado o cinegrafista estadunidense Brad Will. "O povo tem armas, mas não as usou até o momento", comenta.
No dia 12 de dezembro, entretanto, seis grupos guerrilheiros do Sul do México lançaram um comunicado posicionando-se pela ação pacífica e inclusive remetendo aos movimentos civis da Outra Campanha (puxado pelos zapatistas) e de Andrés Manuel López Obrador, conclamando a uma união entre essas forças junto com a APPO, o que cria um paradoxo: por um lado reconhecidamente o país vive um estado de repressão, porém, os grupos que enfrentam o poder não parecem acreditar na via armada.












