O abandono do campo
Pedro Carrano,
enviado especial a Oaxaca
Silvia Ribeiro, pesquisadora do tema da invasão das sementes transgênicos, refaz o trajeto de uma história de repressão nas zonas rurais para analisar o cenário incendiado pela insurreição popular de Oaxaca, Estado que já era marcado pela repressão aos povos indígenas e ao campesinato. "A violação dos direitos humanos era algo cotidiano", comenta Ribeiro, para quem a APPO é uma resistência contra a estrutura dominada pelos "caciques", uma elite ligada ao PRI e, em Estados como Chiapas, ligada ao latifúndio.
A revolução mexicana, iniciada em 1910, possibilitou o reconhecimento da propriedade comunal, aquela organizada pelas próprias comunidades. Mais tarde, nos anos 1930, no governo de Lázaro Cardenas, o sistema de "ejidos" assegurou a permanência destas comunidades. Os camponeses podiam trabalhar a terra coletivamente ou sozinhos, só Não era permitido vendê-la. Em poucos Estados mexicanos o latifúndio subsiste. Porém, o PRI, com a sua estratégia de poder que perdurou por sete décadas seguidas, logrou controlar o crédito e o subsídio para os agricultores.
A situaçãoda população piorou com o governo de Carlos Salinas de Gotari (1988-1994) que transformou uma aparente social-democracia, em um neoliberalismo selvagem. "O campo começou a ficar abandonado", descreve Silvia.
Até 1993, Ribeiro descreve, existia a Comissão Nacional de Subsistencias Populares (Conasupo), órgão que dava garantias ao campesinato, comprando as safras por um preço justo. No entanto, a instituição perdeu espaço com a chegada de corporações como a Cargill, ADM, Grupo Maseka, entre outros. "A Conasupo era nacional e fomentava o mercado agrário interno. Já as transnacionais compram o milho em qualquer país aonde esteja mais barato", explica.
Empobrecimento
Atirados ao deus-dará do mercado, os camponeses "estão desarmando a estrutura do campo. As pessoas que produzem já não podem vender seus produtos", diz. Segundo a pesquisadora, 30% do milho consumido no país vêm dos Estados Unidos. Além disso, o crédito agrícola baixou em 80% e os camponeses estão endividados.
A economia do camponês tem base na troca de alimentos, muito mais do que na moeda. "O campesinato produz e vende quase tudo, vive da colheita para poder comprar roupas, sal, mas vende por um preço não competitivo", informa Silvia.
Além disso, o sociólogo Onesimo Hidalgo afirma que, com o Tratado de Livre Comércio, estão se exterminando os produtos tradicionais das comunidades e chegando novos monocultivos. "Esses produtos não só substituem os tradicionais, como também destroem o ecossistema das comunidades", explica.
O norte é o destino
Enquanto isso, a migração se acentua. "A construção do muro na fronteira com os Estados Unidos é uma hipocrisia pois quer, na verdade, regular a força de trabalho mexicana. Em certo momento, foi útil deixar essa mão de obra passar, agora não", analisa Silvia.
A pesquisadora enxerga que esta narrativa de desterros está diretamente ligada à situação de abandono no campo. Paralelamente, nos últimos anos, mais de mil maquiladoras, fábricas que utilizam mão-de-obra barata, foram transferidas para os países asiáticos. Com isso, estimativas apontam para 1,5 milhão de migrantes por mês no México












