O mosaico da força popular
Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), iniciada pelos professores, é encampada por indígenas e composta também pelos jovens formados pelos comunicados do Subcomandante Marcos
Pedro Carrano,
Enviado especial a Oaxaca (México)
A Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) só pode ser definida como um mosaico, um tecido social complexo e por vezes até contraditório. São diferentes organizações com um tempo político próprio que encontraram um ponto comum na demanda pela queda do governador de Oaxaca, Ulises Ruiz Ortiz (URO).
O desafio, agora, é mostrar sua capacidade de organização e reinvenção nesta hora de ataque por parte do governo de Felipe Calderón que apenas se inicia.
Para entender quais são as forças que compõem a APPO e a conjuntura na qual a Comuna se deu, conversei com analistas que acompanham os movimentos sociais mexicanos. Luiz Hernandez Navarro é editor do principal jornal de esquerda mexicano, o La Jornada, que despontou durante o guerra de Chiapas em 94 e hoje segue de perto a Comuna de Oaxaca. De acordo com a análise de Navarro, as principais receitas do Estado de Oaxaca se dividem entre o turismo e as remessas oriundas dos Estados Unidos.
Coronelismo
Antes da rebelião iniciada pelos professores, o cenário era de um governo comandado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), que só fazia crescer o “caciquismo” na região, com estruturas verticais e coronelistas de funcionamento do Estado. Tal política já havia atingido o seu ápice com o governador José Murat Casab, também do PRI, no governo que precedeu o de URO.
Só que, ao mesmo tempo, existiam organizacoes comunitárias, camponesas e políticas maduras em Oaxaca. Existiam trabalhos ligados à Teologia da Libertação e comunidades eclesiais de base, no que Navarro apelida de um tecido de organizações, algo que forma um caso único entre os estados mexicanos, uma experiência que não vai se aplicar como um modelo pronto para outras regiões do país.
Os professores encabeçaram a luta da APPO, agrupados em um sindicato corporativo como o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação. Com forte inserção nas comunidades indígenas, os professores têm a confiança das famílias. As organizações indígenas não vêem que a APPO reflete rigorosamente as suas demandas, porém apóiam o movimento. No entanto, seu tempo dentro da organização é outro e, até por isso, organizaram recentemente o Forum Indígena, debatendo a sua presença no movimento.
Navarro pensa que todo este tecido social encontrou um ponto de unidade como movimento social e político no desejo de que Ulises Ruiz caía. O editor do La Jornada compara os dias da Comuna ao que foi a guerra do gás na Bolívia (2003).
Representatividade
A pesquisadora uruguaia radicada no México, Silvia Ribeiro, reflete que os professores possuem uma capilaridade e representatividade entre as povoados. A pesquisadora comenta que outras organizações, camponesas ou indígenas, que compõem a assembléia, são oriundas de articulações independentes e dá como exemplo a Unorca, organização camponesa que compõe a Via Campesina no México e se mantém independente do governo, da qual, segundo Silvia, faz parte Flavio Sosa, um dos dirigentes mais conhecidos da APPO, preso recentemente (leia aqui).
Silvia aponta a herança da organização indígena. “É uma forma de funcionamento real, discutida por consenso. No caso de Oaxaca, o único estado do país onde a autonomia é reconhecida por lei, a organização funciona autônoma do governo. Se não fosse assim tal organização acabaria ficando nas mãos do PRI”, avalia.
Ao falar das classes sociais que compõem a APPO, Silvia acentua uma questão crucial, a presenca dos “filhos do zapatismo” na Comuna de Oaxaca, a geração jovem que cresceu e teve a sua formação política lendo os comunicados do Subcomandante Marcos. “Eram os jovens que estavam se pegando nas barricadas com a polícia, são eles os que dão a cara para bater”, comenta.
Ela reforça a sua idéia lembrando o notável número de coletivos de jovens que apareceram nas reuniões preparatórias da Outra Campanha, em Chiapas, no ano passado.
O sociólogo mexicano Onesimo Hidalgo, do Centro de Políticas Econômicas e Ação Comunitária (Ciepac), reflete sobre a importância das assembléias populares e imagina que pode influir na articulação entre as forcas sociais no país: “O importante das assembléias é a toma de decisões coletivas, não há um só líder, e sim muitos, faca o que se faca é preciso consultar, a unidade dos diversos setores também é importante. Creio que, em um futuro mediano, dará fruto na unificação com a Outra Campanha, em uma nova constituição e um eixo de luta que será um plano nacional onde todos os estados temos que nos mexer ao mesmo tempo”, pensa.












