Bolivianas marcham contra o “feminicídio”
Para marcar os 100 anos do dia Internacional da Mulher, as bolivianas elegeram a luta contra a violência como tema central
08/03/2010
Vinícius Mansur
De La Paz, Bolívia
“Não queremos rosas, queremos justiça”, bradava a passeata feminista que tomou as ruas de La Paz nesta segunda-feira (8). Segundo o “Boletim Feminista”, feito pelo Observatório Manuela – Violência, Feminícidio e Mulheres em Risco, só em 2009, 143 mulheres, incluindo crianças, foram assassinadas na Bolívia, sendo 98 “claramente tipificados como feminicídio” – ou seja, mortes evitáveis de mulheres que vão além das agressões físicas contra elas, englobando, por exemplo, a falta de atenção médica a problemas sanitários femininos.
Como reivindicação concreta da marcha que saiu do Prado (passeio na região central da cidade) e foi em direção à Corte Superior de Justiça, ao Ministério Público e ao Ministério de Justiça, as mulheres exigiam a incorporação de figuras jurídicas ao Código Penal, tais como: o feminicídio, a violência familiar, a esterilização forçada e o assédio sexual.
Um carro de uma funerária com um caixão em seu porta-malas estava simbolicamente posto a frente das cerca de 300 marchantes. Um dos cartazes pregados no carro dizia “Descansem em paz. Nós não descansaremos”. Vários outros cartazes com nomes de mulheres assassinadas pela violência masculina eram erguidos pelas feministas.
“Nenhum desses casos expostos nos cartazes foram punidos pela Justiça. Decidimos visibilizar o tema do feminícido porque a cada dia temos duas ou três mulheres assassinadas e nos preocupa que isso não deixe de ser um tema nos meios de comunicação, mas como um show. E assim as coisas ficam impunes”, afirmou Patrícia Miranda, presidente da Associação Crisálida, que congrega mulheres que viveram e vivem agressões familiares.
Segundo Kátia Uriona, secretária executiva da Coordenara da Mulher, uma rede de organizações feministas da Bolívia, o intuito da passeata é evidenciar que a violência está naturalizada. “A cada dia as mulheres morrem quase sempre vítimas de pessoas que convivem com elas e há uma impunidade absoluta por parte do sistema judicial, que não emite nenhuma sanção aos agressores. Nosso sistema permite a impunidade, o tráfico de influência, é um sistema com um forte traço patriarcal e machista, que põem em dúvida sempre as mulheres, dizendo que nós provocamos a agressão. Estamos reivindicando que o código penal reconheça o feminicídio como um delito e que haja uma pena de 30 anos para quem assassine uma mulher“, informou.
Uriona considera que o atual processo político liderado por Evo Morales “indiscutivelmente trouxe um avanço significativo”, mas é preciso ir além. “Esse processo de mudanças tem como um de seus elementos mais importantes o fato de ter incluído na Constituição Política de Estado o reconhecimento dos direitos das mulheres. Além disso, metade do gabinete ministerial são mulheres, uma mostra de avanço da democracia e das mulheres nos espaços de decisão. Mas temos que efetivamente mudar o modo como nossa sociedade se relaciona com as mulheres, a cultura, e nisso o processo de mudanças deve aprofundar”, pondera.
Além das 10 ministras que compõe o governo Morales, na atual legislatura, as mulheres correspondem a 47% do Senado e 25% da Câmara de Deputados.
A marcha foi finalizada em frente ao Ministério de Justiça, que é liderado por uma mulher, a ministra Nilda Copa. As manifestantes pediram uma audiência com a ministra, mas não foram atendidas e saíram da frente do órgão afirmando que voltariam com mais mulheres.