Cerimônia nas ruínas sagradas de Tiwanaku
Em discurso, Rigoberta Menchú reconheceu a participação de países-amigos nessa conquista – como Suécia, Noruega, Holanda e Cuba – na luta pelos direitos indígenas
Igor
Ojeda,
de
Tiwanaco e La Paz (Bolívia)
No dia 11, a 72 km de La Paz, nas ruínas sagradas de Tiwanaku, capital de uma cultura pré-inca (estima-se que teve início em torno de 2400 a.C.) e centro espiritual dos aymarás, foi realizada uma cerimônia para a celebração da Declaração da ONU. O colorido das roupas dos cerca de dois mil indígenas presentes deram o tom, assim como o forte apoio a Evo Morales, explicitado em faixas e palavras de ordem.
Durante o ato, o Conselho Municipal (equivalente, no Brasil, à Camara dos Vereadores) de Tiwanaku homenageou Rigoberta Menchú. Em seu discurso, ela lembrou que uma declaração universal de direitos dos povos indígenas foi exigida há 25 anos. “Naquela época, éramos pequenos. Desde então, muitos morreram, foram assassinados, foram humilhados. Por isso, sentimos que essa é nossa declaração”, disse.
Minuto de silêncio
Rigoberta reconheceu a participação de países amigos nessa conquista – “sempre estiveram conosco” –, como Suécia, Noruega, Holanda e Cuba. Sobretudo, destacou o papel do país anfitrião do encontro. “Estamos aqui para render homenagem à Bolívia, às suas comunidades e organizações indígenas. Principalmente, a Evo, por ser o único governante que decide de maneira concreta o destino dos povos originários.
Em seguida, um representante dos povos indígenas bolivianos pediu um minuto de silêncio em memória dos que foram “mortos, humilhados, esquartejados” durante mais de 500 anos de luta pelo território, e exigiu que a declaração da ONU seja incluída na nova Constituição do país. Muito aplaudida, uma representante dos Comanche, dos EUA, um dos quatro países contrários ao texto da ONU, afirmou que os povos originários de seu país “farão de tudo para mudar o presidente, mudar o Congresso e caminhar juntos com voces em torno da declaração dos povos indígenas”. “Regressamos para os EUA com o coração mais forte, com o compromisso de avançarmos em nossa luta”, concluiu. Seu discurso foi sucedido por uma apresentação de música e dança por um casal indígena da Nova Zelândia, outro país que votou contra a declaração das Nações Unidas.
Oferenda
Em
seguida, vestido a caráter, falou Evo Morales. “Na época
da Colônia, dominavam os reis, o clero. Nos últimos anos,
dominou a oligarquia. Com a nova Constituição, queremos
construir o poder do povo”, disse. Em alusão à
comemoração, no dia 10, dos 25 anos de democracia
contínua na Bolívia, Evo afirmou: “Não nos
deram de presente a democracia. Principalmente aos povos indígenas
e camponeses, custou luta, sangue. Mas a democracia que temos é
neoliberal, é só para a minoria”. Para concluir, o
presidente boliviano disse que o sistema capitalista, que concentra
as riquezas nas mãos de poucos, não é a solução:
“os povos indígenas e camponeses devem impulsionar outro
tipo de modelo econômico, um que defenda a vida”. A
cerimonia nas ruínas de Tiwanaku foi encerrada com uma
oferenda, na qual participaram Rigoberta Menchú e Evo Morales,
a Pachamama, a “Mãe-terra”, nome dado à terra pelos
povos indígenas que habitam os Andes.















