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Na Argentina, protesto reúne cem mil pessoas contra os ruralistas

by jpereira last modified 2008-06-19 16:46

“Deixem os argentinos trabalharem”, pede Cristina Kirchner aos produtores durante ato na Praça de Maio; ruralistas afirmam que manterão bloqueio de estradas

“Deixem os argentinos trabalharem”, pede Cristina Kirchner aos produtores durante ato na Praça de Maio; ruralistas afirmam que manterão bloqueio de estradas

19/06/2008

Ruralistas e elite intensificam
protestos na Argentina



Stella Calloni,

de Buenos Aires (Argentina)


Diante de cerca de cem mil pessoas, a presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, pediu nesta quarta-feira (18) “em nome da democracia, da Constituição e das leis”, o fim do protesto dos ruralistas, que bloqueiam as estradas do interior do país. “Deixem os argentinos produzirem e trabalharem”, afirmou.

A presidente argentina discursou durante ato público realizado na Praça de Maio, em frente à Casa do Governo em Buenos Aires. A manifestação foi convocada pelo ex-presidente Néstor Kirchner “em defesa do sistema democrático”. Setores populares e apoiadores do governo afirmam que os ruralistas, com apoio da elite econômica e política, tentam um golpe de baixa intensidade contra o governo de Cristina.

Em apoio ao governo, bancos foram fechados mais cedo, e aviões tiveram seus pousos e decolagens atrasados ou cancelados em ato de apoio ao governo argentino. A manifestação foi marcada pela pluralidade; artistas e intelectuais marcaram presença ao lado de integrantes de movimentos sociais.

O ato público foi uma resposta aos líderes de quatro entidades rurais que protestam contra o aumento de impostos sobre a exportação de grãos. Há 100 dias, os ruralistas realizaram bloqueio de estradas e suspendem o comércio e o transporte de cereais, impedindo o trânsito de caminhões. Tentam provocar o desabastecimento nas cidades argentinas e, assim, forçar o governo de Cristina a negociar.

O objetivo do governo é, incorporar para as receitas do Estado, parte dos lucros obtidos pelos ruralistas com o aumento do preço dos produtos agrícolas cotados internacionalmente como a soja. Cristina diz que pretende reverter essa receita extra para programas de redistribuição da riqueza.

Já os ruralistas reclamam que vão perder competitividade. A Argentina é o terceiro maior produtor mundial de soja – quase toda transgênica –, um produto que em 2007 arrecadou US$ 13 milhões no mercado externo. O país também é grande exportador de trigo e carne.

Em uma conferência de imprensa, Néstor Kirchner, atual chefe do Partido Justicialista (peronismo, no poder), disse que a manifestação oficialista “não é contra ninguém”, senão para defender a política agrária do governo. Diante da Praça de Maio cheia e atenta, que reuniu marchas de sindicatos, movimentos sociais e setores próximos ao governo, a presidente Cristina voltou a cobrar diálogo por parte das entidades do campo. “Não tenham medo nem dúvidas para exercer sua representação setorial, porque se são representativos, seguramente, não será necessário que fechem as estradas para não se comercializarem os grãos”, explicou.

Ruralistas x interesse nacional

A presidente criticou duramente os representantes do agronegócio e os bloqueios das estradas promovido, afirmando que a reclamação de uma “corporação” não pode prejudicar à todo o país. "Eu acreditava que estava em uma batalha pela distribuição de renda, mas, quando vi que quatro pessoas em quem ninguém votou se reuniam para deliberar quem podia ou não andar pelas estradas argentinas, me dei conta de que estava diante de uma situação diferente", afirmou Cristina, acrescentando que o protesto agropecuário "interfere na construção democrática".

A presidente, no entanto, abriu um caminho conciliador ao dizer que alguns ruralistas, “talvez estejam equivocados pela própria dinâmica setorial”, tomando decisões como os bloqueios das estradas, e lhes pediu que mudem de atitude. Cristina convocou os argentinos para “estender-lhes a mão e chamá-los à reflexão”.

Aprovação do Congresso

Atendendo à reivindicação dos ruralistas, o envio do projeto ao Congresso foi anunciado na terça-feira (17) pela presidente. Segundo analistas, Kirchner fez este anúncio para aliviar a tensão em torno do conflito agrário.

Contudo, não houve trégua. Depois de uma longa reunião, os dirigentes ruralistas - Luciano Miguens (Sociedade Rural Argentina), Eduardo Buzzi (Federação Agrária), Mario Llambías (Confederações Rurais) e Fernando Gioino (Conninagro) – disseram “valorizar” o gesto da presidência de enviar o projeto de lei ao Congresso, mas anunciaram que seguirão impedindo a venda de cereais até sexta-feira (20).


Os dirigentes do campo explicaram que tomaram esta decisão pelo incômodo que lhes causou o tom de confrontação do discurso da presidente Cristina Fernández na Praça de Maio, nesta quarta-feira (18). Continuarão com “um plano de ação” para visitar a deputados e senadores do interior e explicar a situação, para tentar influenciar em suas posições no Congresso, que como anunciou a presidente, debaterá o aumento dos impostos especiais para a soja. (Com informações de La Jornada e Página 12)




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