Ruralistas e elite intensificam protestos na Argentina
Já setores aliados do governo de Cristina Kirchner preparam manifestação para a quarta-feira (18); produtores rurais querem derrubar medida do governo que taxa exportações de grãos para ampliar programas de distribuição de renda
da redação
Os setores da direita argentina realizaram, nesta segunda-feira (16), um panelaço (cacerolazo) concentrado principalmente nos bairros ricos da capital. Ao mesmo tempo, circulam na sociedade argentina os alertas sobre o avanço de uma ação golpista, não precisamente no estilo dos antigos golpes militares. Setores contrários à iniciativa liderada pelos produtores rurais pretendem organizar uma grande marcha na quarta-feira (18) em defesa da instituição governamental.
Os protestos da segunda-feira também foram realizados em frente à residência presidencial de Olivos, bairro de classe alta. Nesta manifestação, era visível a presença de boa quantidade de ex-militares da ditadura passada. Alguns grupos que estavam na farta zona norte da cidade também se deslocaram até o Obelisco, enquanto simpatizantes do governo de Cristina Kirchner começavam a se concentrar em torno da Praça de Maio.
Embora os meios de informação massiva noticiem que o protesto se disseminou por todos os bairros de Buenos Aires, a manifestação ficou claramente localizada nas regiões onde vive a classe média portenha – como os bairros Belgrano e Recoleta. Em algumas cidades do interior, também ocorreram panelaços assim como um “tratorzaço” em Gualeguaychú, Entre Ríos. Os bloqueios de estradas foram parciais.
Embate sobre a renda
O motivo do confronto que inicialmente opôs ruralistas e o governo de Cristina Kirchner é a medida tomada pela Casa Rosada de aumentar os impostos cobrados sobre as exportações de grãos. O objetivo do governo argentino é, incorporar para as receitas do Estado, parte dos lucros extraordinários obtidos pelos ruralistas, com o aumento do preço dos produtos agrícolas cotados internacionalmente como a soja. Cristina diz que pretende reverter essa receita extra para programas de redistribuição da riqueza e se nega a rever a medida.
Já os ruralistas protestam contra o aumento de impostos e afirmam que vão perder rentabilidade. A Argentina é o terceiro maior produtor mundial de soja – quase toda transgênica –, um produto que em 2007 arrecadou US$ 13 milhões no mercado externo. O país também é grande exportador de trigo e carne.
A manifestação realizada na segunda-feira foi a quarta desde a decisão tomada pelo governo de Cristina, anunciada em 11 de março. Os ruralistas jogam com o fantasma do desabastecimento e ameaçam prosseguir com o corte de estradas por mais “100 dias se for necessário”, como declarou o presidente da Federação Agrária de Entre Ríos, Alfredo de Angeli, que no domingo (15) foi detido por várias horas junto a 18 camponeses por bloquear uma estrada. O novo locaute organizado pelos ruralistas começou no sábado (14). Caminhoneiros interromperam o fluxo de estradas e prejudicaram o fornecimento de combustíveis e alimentos para certas regiões do país.
O dirigente da Federação de Terra e Vivenda, o ex-deputado Luis D´Elía, acusou o ex-presidente Eduardo Duhalde de orquestrar um golpe e atribuiu ao político a posição de “chefe da conspiração para um golpe de Estado econômico”. Elía advertiu também que “querem desestabilizar a democracia e a gerar as condições para a destituição de Cristina”. O dirigente acusou o “o Clarín e outros grupos de comunicação, parte do aparelho do Partido Justicialista e a elite econômica” de estarem alimentando esse movimento golpista.
Reação aos panelaços dos ruralistas
O governo argentino se manifestou oficialmente pela manhã desta terça-feira (19) sobre a ação dos ruralistas. O ministro do Interior, Florencio Randazzo, pediu aos produtores que suspendam os bloqueios de estrada acusando-os de fazer “refém” a sociedade argentina por conta do desabastecimento de produtos. “Não vamos estar sujeitos a tomar decisões por um panelaço”, disse.
Para esta quarta-feira (18), setores próximos ao governo preparam uma manifestação contrária à iniciativa da direita. A Confederação Geral de Trabalhadores (CGT) informou que vai encampar uma paralisação nacional com o objetivo de “reivindicar o fim da campanha desestabilizadora levada adiante por cortes de rodovias que afetam a maioria do povo argentino, especialmente os mais necessitados”.
O dirigente da articulação partidária Frente Grande, Eduardo Sigal, fez uma convocatória advertindo que “este é um momento para fechar fileiras”. Sigal anunciou que seu partido vai se somar às mobilizações convocadas para esta quarta-feira (18) na Praça de Maio “em apoio ao governo nacional”, diante da continuidade da paralisação patronal agropecuária.
As Mães da Praça de Maio e o Partido Socialista da província de Buenos Aires também anunciaram que vão aderir à marcha para defender “a democracia e a liberdade”. Hebe Bonafini convocou a todos os cidadãos e, em particular, aos artistas como León Gieco e Mercedes Sosa. “Nem um passo atrás”, expressou Bonafini. O sindicato dos bancários decidiu realizar uma paralisação também na quarta-feira (18) para somar ao ato.
Representantes do governo da presidente Cristina Kirchner advertem sobre a gravidade do momento pelo qual passa a Argentina. Afirmam que está em curso a aplicação de um “golpe suave” com apoio estrangeiro para quebrar a integração sul-americana.
O filósofo e catedrático Rubén Dri advertiu que “o golpe já está em curso” com uma linguagem mais precisa do que outros 500 intelectuais que mencionaram, em uma carta, o “espírito destituinte” das manifestações convocadas pelos produtores de quatro entidades do campo, que sustentam um locaute de quase 100 dias.
O
acadêmico ressalta os lemas levantados pelos representantes
empresariais do campo: “Si nos quedamos acá tenemos que
estar dispuestos a lo peor”; “estamos en guerra”; “esto es
una revolución”. “Essas são as frases que alimentam
os cortes de rodovias estimulados por uma direita que sabe o que quer
e uma esquerda estúpida (referindo-se aos grupos que trabalha
com a direita mais conservadora) que crê que está
fazendo a revolução”, escreveu Dri. O filósofo
ressalta que está em marcha uma “revolução
conservadora neoliberal que quer a anulação prática
do Estado que, de uma maneira ou outra, atrapalha seus sujos e
multimilionários negócios”. Assim mesmo, Dri
considera que há uma “paralisia” perigosa do governo. (Informações de Stella Caloni, do La Jornada, e do jornal argentino Página12)
"o interior profundo"
Juan, você para maior clareza, você poderia, então, expor quais os interesses em jogo e quais as alianças que se armaram nesta oposição entre "el campo" e o governo de Cristina Fernández?
quem se alia com quem?
De que lado estão as transnacionais do campo? De que lado estão os grandes exportadores de soja? De que lado estão os médios produtores e os pequenos?
Quem se manifestou no dia 18?
Quem está confundido nesta história?













conflicto agropecuario argentino.
Tenho o prazer de receber desde ha tempo os boletins de Brasil de Fato, os quais amostram aspetos da realidade politico-social brasileira nao refletidos pela prensa grande e comercial. O dilatado conflito agro-pecuário argentino justifica sem duvida incorporar opinioes e informacoes sobre o mesmo, ainda mais quando estâo-se misturando problematicas comuns ao Mercosud e Latinoamerica, como o sâo a propriedade e a renda da terra, as exportaçôes alimentarias e o seu controlo, o mapa social agrícola, la questâo ambiental e a economía sustentável, entre outras. Mas a informaçâo que glosa o BDF, tirada no essencial do jornal portenho P12, esta longe de mostrar ao publico brasileiro o complexo quadro de partida do conflito que explodiu faz 100 dias no interior profundo do nosso país. Mais, apenas expoe a limitada vissao libresca que da realidade camponesa e provinciana tem a classe media intelectual portenha, que se autodefine progresista mas no que diz respeito da realidade económica e social concreta, nao analisa, mas categoriza, ao melhor estilo maniqueu. Para eles o campo todo é oligarquia, e todos os perigos podem dele vir. Mas na verdade nao existe hoje tal conspiraçâo "destituyente" na Argentina, muito menos da parte dos centros do poder financeiro e empresarial que possuem as chaves da economía nacional. Mais, a resoluçâo 125, desencadeante da reaccao dos pequenos e medios produtores rurais, nem sequer tem finalidade arrecadatoria ou distributiva, como tem demonstrado o estudo-denuncia apresentado à Justiça penal económica pelo diputado peronista Mario Cafiero e o constitucionalista RicardoMonnerSanz. Foi, a 125, simplesmente redigida ás pressas para sortear um erro de cálculo financeiro das exportadoras(conhecem:Cargill,Bunge, Dreyfus, Nidera, Continental, Noble e alguma brasileira, mais Aceitera Deheza, única firma argentina que produz, transporta y exporta, sozinha toda sua producçao de poroto soya,pellet e olio de soya). Nessa presentaçào , como muitas outras notas, artigos e opiniòes por Internet, existem informaçöes que podem dar aos leitores de BDF os elementos para entender a complexa realidade política económica de Argentina. Peço-vos, dentro desse sentido común de emancipaçao americanista que nos une, manter a objetividade e pluralidade da informaçao e o equilibrio da opiniâo. Obrigado, Juan.