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Ruralistas e elite intensificam protestos na Argentina

by jpereira last modified 2008-06-17 15:11

Já setores aliados do governo de Cristina Kirchner preparam manifestação para a quarta-feira (18); produtores rurais querem derrubar medida do governo que taxa exportações de grãos para ampliar programas de distribuição de renda

Já setores aliados do governo de Cristina Kirchner preparam manifestação para a quarta-feira (18); produtores rurais querem derrubar medida do governo que taxa exportações de grãos para ampliar programas de distribuição de renda

17/06/2008

da redação


Os setores da direita argentina realizaram, nesta segunda-feira (16), um panelaço (cacerolazo) concentrado principalmente nos bairros ricos da capital. Ao mesmo tempo, circulam na sociedade argentina os alertas sobre o avanço de uma ação golpista, não precisamente no estilo dos antigos golpes militares. Setores contrários à iniciativa liderada pelos produtores rurais pretendem organizar uma grande marcha na quarta-feira (18) em defesa da instituição governamental.

Os protestos da segunda-feira também foram realizados em frente à residência presidencial de Olivos, bairro de classe alta. Nesta manifestação, era visível a presença de boa quantidade de ex-militares da ditadura passada. Alguns grupos que estavam na farta zona norte da cidade também se deslocaram até o Obelisco, enquanto simpatizantes do governo de Cristina Kirchner começavam a se concentrar em torno da Praça de Maio.

Embora os meios de informação massiva noticiem que o protesto se disseminou por todos os bairros de Buenos Aires, a manifestação ficou claramente localizada nas regiões onde vive a classe média portenha – como os bairros Belgrano e Recoleta. Em algumas cidades do interior, também ocorreram panelaços assim como um “tratorzaço” em Gualeguaychú, Entre Ríos. Os bloqueios de estradas foram parciais.


Embate sobre a renda

O motivo do confronto que inicialmente opôs ruralistas e o governo de Cristina Kirchner é a medida tomada pela Casa Rosada de aumentar os impostos cobrados sobre as exportações de grãos. O objetivo do governo argentino é, incorporar para as receitas do Estado, parte dos lucros extraordinários obtidos pelos ruralistas, com o aumento do preço dos produtos agrícolas cotados internacionalmente como a soja. Cristina diz que pretende reverter essa receita extra para programas de redistribuição da riqueza e se nega a rever a medida.

Já os ruralistas protestam contra o aumento de impostos e afirmam que vão perder rentabilidade. A Argentina é o terceiro maior produtor mundial de soja – quase toda transgênica –, um produto que em 2007 arrecadou US$ 13 milhões no mercado externo. O país também é grande exportador de trigo e carne.

A manifestação realizada na segunda-feira foi a quarta desde a decisão tomada pelo governo de Cristina, anunciada em 11 de março. Os ruralistas jogam com o fantasma do desabastecimento e ameaçam prosseguir com o corte de estradas por mais “100 dias se for necessário”, como declarou o presidente da Federação Agrária de Entre Ríos, Alfredo de Angeli, que no domingo (15) foi detido por várias horas junto a 18 camponeses por bloquear uma estrada. O novo locaute organizado pelos ruralistas começou no sábado (14). Caminhoneiros interromperam o fluxo de estradas e prejudicaram o fornecimento de combustíveis e alimentos para certas regiões do país.

O dirigente da Federação de Terra e Vivenda, o ex-deputado Luis D´Elía, acusou o ex-presidente Eduardo Duhalde de orquestrar um golpe e atribuiu ao político a posição de “chefe da conspiração para um golpe de Estado econômico”. Elía advertiu também que “querem desestabilizar a democracia e a gerar as condições para a destituição de Cristina”. O dirigente acusou o “o Clarín e outros grupos de comunicação, parte do aparelho do Partido Justicialista e a elite econômica” de estarem alimentando esse movimento golpista.


Reação aos panelaços dos ruralistas

O governo argentino se manifestou oficialmente pela manhã desta terça-feira (19) sobre a ação dos ruralistas. O ministro do Interior, Florencio Randazzo, pediu aos produtores que suspendam os bloqueios de estrada acusando-os de fazer “refém” a sociedade argentina por conta do desabastecimento de produtos. “Não vamos estar sujeitos a tomar decisões por um panelaço”, disse.

Para esta quarta-feira (18), setores próximos ao governo preparam uma manifestação contrária à iniciativa da direita. A Confederação Geral de Trabalhadores (CGT) informou que vai encampar uma paralisação nacional com o objetivo de “reivindicar o fim da campanha desestabilizadora levada adiante por cortes de rodovias que afetam a maioria do povo argentino, especialmente os mais necessitados”.

O dirigente da articulação partidária Frente Grande, Eduardo Sigal, fez uma convocatória advertindo que “este é um momento para fechar fileiras”. Sigal anunciou que seu partido vai se somar às mobilizações convocadas para esta quarta-feira (18) na Praça de Maio “em apoio ao governo nacional”, diante da continuidade da paralisação patronal agropecuária.

As Mães da Praça de Maio e o Partido Socialista da província de Buenos Aires também anunciaram que vão aderir à marcha para defender “a democracia e a liberdade”. Hebe Bonafini convocou a todos os cidadãos e, em particular, aos artistas como León Gieco e Mercedes Sosa. “Nem um passo atrás”, expressou Bonafini. O sindicato dos bancários decidiu realizar uma paralisação também na quarta-feira (18) para somar ao ato.

Representantes do governo da presidente Cristina Kirchner advertem sobre a gravidade do momento pelo qual passa a Argentina. Afirmam que está em curso a aplicação de um “golpe suave” com apoio estrangeiro para quebrar a integração sul-americana.

O filósofo e catedrático Rubén Dri advertiu que “o golpe já está em curso” com uma linguagem mais precisa do que outros 500 intelectuais que mencionaram, em uma carta, o “espírito destituinte” das manifestações convocadas pelos produtores de quatro entidades do campo, que sustentam um locaute de quase 100 dias.

O acadêmico ressalta os lemas levantados pelos representantes empresariais do campo: “Si nos quedamos acá tenemos que estar dispuestos a lo peor”; “estamos en guerra”; “esto es una revolución”. “Essas são as frases que alimentam os cortes de rodovias estimulados por uma direita que sabe o que quer e uma esquerda estúpida (referindo-se aos grupos que trabalha com a direita mais conservadora) que crê que está fazendo a revolução”, escreveu Dri. O filósofo ressalta que está em marcha uma “revolução conservadora neoliberal que quer a anulação prática do Estado que, de uma maneira ou outra, atrapalha seus sujos e multimilionários negócios”. Assim mesmo, Dri considera que há uma “paralisia” perigosa do governo. (Informações de Stella Caloni, do La Jornada, e do jornal argentino Página12)


conflicto agropecuario argentino.

Posted by juan carlos sarra, Rosario,Argentina at 2008-06-20 10:52

Tenho o prazer de receber desde ha tempo os boletins de Brasil de Fato, os quais amostram aspetos da realidade politico-social brasileira nao refletidos pela prensa grande e comercial. O dilatado conflito agro-pecuário argentino justifica sem duvida incorporar opinioes e informacoes sobre o mesmo, ainda mais quando estâo-se misturando problematicas comuns ao Mercosud e Latinoamerica, como o sâo a propriedade e a renda da terra, as exportaçôes alimentarias e o seu controlo, o mapa social agrícola, la questâo ambiental e a economía sustentável, entre outras. Mas a informaçâo que glosa o BDF, tirada no essencial do jornal portenho P12, esta longe de mostrar ao publico brasileiro o complexo quadro de partida do conflito que explodiu faz 100 dias no interior profundo do nosso país. Mais, apenas expoe a limitada vissao libresca que da realidade camponesa e provinciana tem a classe media intelectual portenha, que se autodefine progresista mas no que diz respeito da realidade económica e social concreta, nao analisa, mas categoriza, ao melhor estilo maniqueu. Para eles o campo todo é oligarquia, e todos os perigos podem dele vir. Mas na verdade nao existe hoje tal conspiraçâo "destituyente" na Argentina, muito menos da parte dos centros do poder financeiro e empresarial que possuem as chaves da economía nacional. Mais, a resoluçâo 125, desencadeante da reaccao dos pequenos e medios produtores rurais, nem sequer tem finalidade arrecadatoria ou distributiva, como tem demonstrado o estudo-denuncia apresentado à Justiça penal económica pelo diputado peronista Mario Cafiero e o constitucionalista RicardoMonnerSanz. Foi, a 125, simplesmente redigida ás pressas para sortear um erro de cálculo financeiro das exportadoras(conhecem:Cargill,Bunge, Dreyfus, Nidera, Continental, Noble e alguma brasileira, mais Aceitera Deheza, única firma argentina que produz, transporta y exporta, sozinha toda sua producçao de poroto soya,pellet e olio de soya). Nessa presentaçào , como muitas outras notas, artigos e opiniòes por Internet, existem informaçöes que podem dar aos leitores de BDF os elementos para entender a complexa realidade política económica de Argentina. Peço-vos, dentro desse sentido común de emancipaçao americanista que nos une, manter a objetividade e pluralidade da informaçao e o equilibrio da opiniâo. Obrigado, Juan.

"o interior profundo"

Posted by Silvia Beatriz Adoue at 2008-06-20 19:18

Juan, você para maior clareza, você poderia, então, expor quais os interesses em jogo e quais as alianças que se armaram nesta oposição entre "el campo" e o governo de Cristina Fernández?

quem se alia com quem?

Posted by Silvia, novamente at 2008-06-20 19:22

De que lado estão as transnacionais do campo? De que lado estão os grandes exportadores de soja? De que lado estão os médios produtores e os pequenos?

Quem se manifestou no dia 18?

Quem está confundido nesta história?


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