Torturado teme a permanência de "máfia colorada" no Paraguai
O resultado eleitoral foi "um importante avanço democrático", mas "não é o início de um processo real de mudança", afirma Anuncio Martí, exilado no Brasil
07/05/2008
Mario Osava
do Rio de Janeiro (RJ)
A "organização criminal e mafiosa" em que se converteu o Partido Colorado do Paraguai durante seus 61 anos de governo seguirá sendo poderosa, em que pese a sua derrota eleitoral do mês passado, afirma o cidadão Anuncio Martí, exilado no Brasil.
Martí foi seqüestrado e torturado em janeiro de 2002 em Assunção por "um grupo policial-militar vinculado ao governo". Desde 2003 vive em uma cidade brasileira como refugiado político, situação que divide com dois de seus companheiros do Partido Pátria Livre (PPL), Juan Arrom e Víctor Colmán.
Martí comemorou o triunfo do candidato opositor Fernando Lugo, bispo católico progressista que foi eleito novo presidente do Paraguai, em 20 de abril. Porém o ativista conserva uma mistura de esperança e temores. O resultado eleitoral foi "um importante avanço democrático", mas "não é o início de um processo real de mudança", disse.
"Esperamos pelo menos que acabe a criminalização da luta social e dos movimentos populares", para que se possa iniciar a "construção de uma democracia participativa", aponta. Suas reservas sobre um governo que surge como popular, presidido pelo chamado "bispo dos pobres", derivam em parte de sua própria experiência.
No dia 17 de janeiro de 2002, Martí e Arrom foram seqüestrados no centro de Assunção e brutalmente torturados durante quase duas semanas por um grupo de 15 policiais, militares e agentes judiciais, em um local clandestino.
"Vínhamos de uma luta contra a ditadura" do general Alfredo Stroessner (1954-1989) e “baixamos a guarda" depois de sua derrocada, admitiu Martí. Logo em seguida, seu grupo de militantes fundou o Pátria Livre, inicialmente como movimento de orientação "marxista revolucionária e inspiração latinoamericanista". "Terminada a ditadura militar, não acreditávamos que se manteriam os centros de tortura. Aprendemos com a experiência, que por sorte sobrevivemos, mas muitos não sobreviveram", disse.
Martí e Arrom foram resgatados por familiares e ativistas de direitos humanos que se mobilizaram durante duas semanas e conseguiram descobrir, no dia 31 de janeiro, a casa onde se encontravam detidos, nas redondezas de Assunção. Diante do cerco de familiares e jornalistas alertados, os seqüestradores fugiram, abandonando ali os dois seqüestrados.
Ambos deixaram o cativeiro muito feridos e necessitando de tratamento hospitalar. Dois anos mais tarde, já exilados no Brasil, Arrom teve que submeter-se a uma cirurgia para corrigir seqüelas na região lombar. Os cortes nos punhos foram as marcas mais evidentes em Martí.
As torturas foram sobre tudo "golpes desferidos com ferros, socos e armas de fogo, ainda houve o afogamento com sacos plásticos e sob a água", conta Martí. A intenção era fazer "desaparecer" aos dois, mas ambos sobreviveram porque os seqüestradores "não entraram em acordo" sobre a execução, afirmou.
Não há dúvida de que esse grupo irregular atuava sob as ordens do governo, então presidido por Luis González Macchi (1999-2003), declara Martí.
Durante o terceiro dia de sua detenção ilegal, o Ministério do Interior divulgou que Martí e Arrom eram responsáveis pelo seqüestro e extorsão de uma mulher da elite paraguaia e que estavam "foragidos". Se manteve então uma simulação de operação policial para procurar-los na fronteira com o Brasil.
Arrom, principal dirigente do PPL, denunciou que dois ministros propuseram assinar uma declaração assumindo que seu movimento e outras forças opositoras preparavam um golpe de Estado, como condição para deixar-los em liberdade fora do Paraguai.
"Quiseram nos fazer de bode expiatório em uma grande cruzada contra os chamados terroristas no Paraguai e para intensificar a repressão aos movimentos populares", sustenta Martí, recordando que os acontecimentos são posteriores ao atentado de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, que serviu de pretexto para intensificar a repressão as lutas sociais em muitos lugares.
Além disso, Washington sempre sustentou que a Tríplice Fronteira, dividida entre Paraguai, Brasil e Argentina, é um centro de terrorismo internacional, acrescentou.
Em 2002 houve uma ofensiva contra o Pátria Livre, com outros três militantes detidos e torturados, entre eles Víctor Colmán, que também se refugiou no Brasil com Arrom e Martí, em 2003.
O Pátria Livre também foi acusado de ser o "braço paraguaio" da guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), por suas campanhas de solidariedade com a Revolução Cubana e seu apoio as tentativa de negociar a paz nesse país andino que vive quase meio século de guerra interna, assinalou Martí.
A partir do escândalo desatado pelo seqüestro de Arrom e Martí, renunciaram os ministros Julio Fanego, do Interior, e Silvio Ferreira, da Justiça e Trabalho, que haviam proposto o acordo a Arrom. Também foram destituídos chefes policiais e se dissolveu o Serviço Nacional de Informação.
Legisladores acusaram também ao presidente González Macchi e ao fiscal geral do Estado, Oscar Latorre como responsáveis. Mas ninguém foi condenado pela justiça.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos estabeleceu medidas cautelares de proteção para os cinco membros do PPL, incluído Martí e Arrom.
O caso foi denunciado a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que ainda não adotou a decisão.
A experiência indica que a "máfia" colorada, que "enriqueceu um grupo pequeno de famílias" paraguaias, se mantém forte na oposição, ameaçando o sonho nascido nas eleições, afirma Martí. Tudo "dependerá das organizações sociais e populares conseguirem orientar o rumo do governo" de Lugo, concluí.
O
atentado de 8 de abril, deste ano, que deixou ferido o dirigente do
Movimento Popular Tekojoja que apóia Lugo, Alfredo Ávalos,
e no qual morreu sua esposa, a brasileira Silvana Rodríguez,
indica que a violência segue marcando a política
paraguaia.
IPS
(traduzido por Cristiano Navarro)











Solidaridad con el Pueblo Paraguayo
Ha sido una gran noticia, la "derrota" del partido del Colorado y el ascenso de la izquierda en un pais donde los DDHH no existen. Un pais donde se ha luchado, que lucha y luchará por alcanzar una democracia, donde los oprimidos recuperaran su protagonismo transformador junto a la dignidad que nunca perdieron, que juzque la historia manchada de sangre de los criminales y una democracia que repartirá las grandes concentaciones de tierra para quienes realmente la trabaja. Ahora es el tiempo que se añoraba, ahora es una primera conquista. Salud para el pueblo paraguayo.
Jose Maria Recio (Córdoba)