“Cerrado é fundamental para as florestas”, diz pesquisadora
Bioma abriga a nascente das três principais bacias hidrográficas da América Latina
11/06/2008
Michelle Amaral
Da Redação
Embora tenha uma rica biodiversidade, o Cerrado não está entre os biomas brasileiros protegidos pela Constituição, caso somente da Floresta Amazônica e da Mata Atlântica. “Pouco se fala sobre a preservação do Cerrado, existe uma portaria que visa a sua inclusão nos biomas protegidos, mas está em tramitação na Constituição há 5 anos”, ressalta Jeanine Felfili, professora do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB).
A pesquisadora aponta o agronegócio como a principal causa do desmatamento nesta região. Para ela, o bioma não conseguirá resistir às pressões agrícolas sem a criação de unidades de conservação que funcionem de fato. Ela defende também a ampliação do tamanho das reservas da região. “Enquanto as da Amazônia são de 1 milhão de hectares, as reservas do Cerrado são todas pequenas, não passam da casa do milhar. Uma família de onças não consegue viver em um parque nacional”, exemplifica.
O Cerrado compreende a grande região que abrange o sul do Estado do Pará, sudeste do Amazonas, norte do Mato Grosso e pequenas faixas a leste de Rondônia e oeste de Tocantins.
Mas, de toda a sua extensão, apenas 2,6% é protegida por Unidades de Conservação. Já a Amazônia tem 12% de sua área em conservação.
A situação hoje já é grave. Segundo um estudo feito pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), metade do Cerrado está degradada. Outros institutos não-governamentais apontam até 70% de degradação. “Mesmo que o correto seja os 50%, considerando-se que a degradação do Cerrado começou nos anos 70, é considerável o avanço do desmatamento”, ressalta Jeanine.
Caixa d´água
“Para o mundo, a Amazônia é importante pelo clima e pela grande biodiversidade. Mas para que ela seja mantida, é necessário o equilíbrio nas águas. O Cerrado está em áreas altas e abriga a nascente das três principais bacias hidrográficas da América Latina: Tocantins, São Francisco e rio da Prata. Para que as florestas sejam mantidas, é necessário que o Cerrado seja preservado também”, acrescenta a professora.
Donald Sawyer, assessor do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e também professor da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que o Cerrado tem a função de caixa d'água, pois os principais rios nascem e crescem na região antes de seguirem para as bacias hidrográficas. Além disso, a sua degradação pode trazer enormes prejuízos na geração elétrica. Sawyer afirma que cerca de 95% da população brasileira depende da energia gerada pelas águas do Cerrado.
O professor alerta que “se o desmatamento interromper os fluxos de umidade atmosférica que passam da Amazônia para o Sudeste e o Sul do Brasil, será uma calamidade para o Centro-Oeste e o Sudeste”. Isso porque as nuvens da chuva que vêm do norte poderão não chegar mais com umidade suficiente para manter a agricultura e o abastecimento. “São os rios voadores que transportam a umidade atmosférica do Atlântico para levar chuva às regiões Sudeste e Centro-oeste”, completa.
Sawyer
acrescenta ainda que o desmatamento no Cerrado gera emissões
significativas de carbono. Ele explica que o solo da região é
rico em carbono e emite uma considerável quantia de carbono,
principalmente durante as secas ou em áreas desmatadas.
Segundo
ele, a expansão do agronegócio se dá
principalmente pela pecuária e pela agricultura, no cultivo de
soja, algodão, cana-de-açúcar e eucalipto. “O
desmatamento é galopante no Cerrado, que é a savana
mais rica em biodiversidade do mundo, com um potencial de utilidade
no contexto do aquecimento global, uma vez que suas espécies
são resistentes à seca e ao calor”, alerta.
Ecótonos do Pacífico ao Atlãntico
Essa renda em volta da Floresta Amazõnica, bordando os altiplanos bolivianos e adentrando o Mato Grosso, Rondõnia, sul do Amazonas e do Pará, o Araguaia e o Tocantins, sul do Maranhão, do Piauí e do Ceará, descendo o espinhaço da Serra Geral para a Bahia, nos contafortes da Chapada da Diamantina, formam uma linha sinuosa e graciosa de território-biodiverso entre os Campos de Altitude Andino, Cerrado, Floresta e Caatinga Nordestina. Um vasto território na direção oeste-leste que precisa ser demarcado e referenciado como "Transição de Biomas Planetários" e ser reconhecido como região de ecótonos livres de exploração agro-pastoril-mineral, pelos próximos 100 anos. Até que as Universidades regionais, estaduais, e nacionais possam ter um completo "dominium" do conhecimento científico e os povos tradicionais que habitam esses ecótonos possam se apropriar de todo o modo de produção, tecnologias e manejos adequados dos solos, rios, bosques, flora e fauna desse imenso Corredor Latino-Americano.
















Ocupação do Cerrado com produção e preservação
Acho importante salientar o potencial de uso sustentável da biodiversidade do Cerrado (pequi, mangaba, cagaita, buriti, araçá, babaçu, faveira, plantas medicinais diversas etc. etc. etc.). Diversas experiencias apontam para a possibilidade de ocupação sustentável do bioma, a partir de Reservas Extrativistas, Assentamentos Agroextrativistas, Terras Indígenas, Territórios Quilombolas e comunidades rurais diversas, aliando-se produção, geração de benefícios sócio-econômicos e proteção aos recursos naturais.