A crise é grave, será prolongada e irá alterar a economia mundial
O alerta é de economistas que, reunidos em seminário - organizado pelo governo do Paraná,, entre os dias 7 e 11 de dezembro, em Curitiba, concluíram que o neoliberalismo se esgotou. Sugerem medidas que devem ser colocadas em prática imediatamente, entre as quais, o fim do Consenso de Washington e a integração latino-americana, não apenas econômica, mas cultural e política
Mário Augusto Jakobskind
de Curitiba
A crise financeira, desencadeada a partir do centro do imperialismo estadunidense, e que já se reflete na economia real de todos os países - industrializados e emergentes - foi o tema do seminário Crise – Rumos e Verdades, organizado pelo governo do Paraná. O evento aconteceu entre os dias 7 e 11 de dezembro, em Curitiba (PR), e reuniu quase 40 especialistas, sendo 20 brasileiros e os demais argentinos, equatorianos, venezuelanos, ingleses, italianos, russos, mexicanos e alemães. Além um uruguaio, representante da Organização das Nações Unidas (ONU), em oito mesas de debates.
A maioria dos participantes lembrou que a atual crise era previsível em função da vasta especulação financeira que se abateu sobre a economia mundial e remete ao fim do período neoliberal dos últimos 25 anos. Foram cinco dias de intensos debates, com enfoques analíticos diversos, mas com alguns consensos, como, por exemplo, que a crise é grave, será prolongada e alterará profundamente a economia mundial.
Os economistas sugeriram algumas medidas para enfrentar a crise e que devem ser colocadas em prática imediatamente, entre as quais, a centralização e estatização do câmbio, aceleração dos investimentos públicos, revitalização dos Estados nacionais, o fim do Consenso de Washington e a integração latino-americana, não apenas econômica, mas cultural e política.
Da recessão a depressão
Além de apresentar um quadro geral da economia em diversas regiões, o seminário apontou caminhos para se enfrentar a crise recessiva e que para alguns economistas, como o professor Nildo Ouriques, diretor do Instituto Latino-Americano da Universidade Federal de Santa Catarina, pode evoluir, em pouco tempo, para uma depressão. Ouriques argumentou que a recessão é uma queda aguda do Produto Interno Bruto (PIB) por dois ou mais trimestres consecutivos, como já está acontecendo. Já a depressão, segundo ele, está relacionada a outros aspectos mais amplos, como níveis de emprego, produção industrial, rendimento real e crédito disponível.
Fim dos paraísos fiscais
O senador Aloísio Mercadante, do PT de São Paulo, que é professor de economia, defendeu o fim dos paraísos fiscais em todo o mundo. Segundo o parlamentar, são 78 paraísos fiscais espalhados pelo planeta, que escondem as sombras do sistema financeiro, impedem o planejamento fiscal e os bancos centrais de atuarem de forma coordenada para o enfrentamento dessa crise. “Essa é a melhor contribuição que podemos dar para o enfrentamento da crise no mundo”, afirmou.
Não à política de Meirelles
Para quase todos os economistas brasileiros, o governo Lula está navegando contra a corrente ao manter os juros inalterados em 13,75% por determinação do Banco Central, dirigido por Henrique Meirelles, ex-diretor do Banco de Boston, considerado por muitos como o verdadeiro condutor da política econômica brasileira.
Em contrapartida, um relatório da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), aponta que a política de juros do Banco Central ajudou o Brasil a reduzir o número de pobres e indigentes. Segundo a Cepal, o Brasil foi um dos países da região com menor inflação a partir de 2007.
Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), assinalou que a saída do presidente do Banco Central depende apenas de vontade política, que se concretizaria com a assinatura do presidente da República e publicação do ato de demissão no Diário Oficial da União.
Centralização do câmbio
O professor Carlos Lessa defendeu a centralização do câmbio como suporte para a construção de um projeto nacional para o Brasil superar a crise. Ele acredita que a superação da crise econômico-financeira mundial depende de vontade política para fazer do Brasil uma grande nação em dez anos.
Lessa
sugeriu ainda outras medidas concretas para o Brasil enfrentar a
crise, entre as quais a combinação de investimentos
públicos e privados que permita a execução de
grandes programas de infra-estrutura. Defendeu concomitantemente a
centralização do câmbio, com o Banco Central
fazendo o orçamento cambial para ser a peça-chave no
projeto nacional brasileiro, sugerindo, para facilitar essas medidas,
a união dos bancos estatais brasileiros, como o Banco do
Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em apenas um só
banco estatal, forte. (Leia mais na edição 304 do Brasil de Fato).