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As laranjas podres da Cutrale

by Admin last modified 2009-10-21 11:18

Novo “Eldorado” foi prometido para trabalhadores sem-terra, mas é invadido ilegalmente pelo agronegócio


21/10/2009


Aline Scarso

de Iaras (SP)


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Quando as 250 famílias, entre acampados e assentados, ocuparam, em 28 de setembro, a fazenda Capim pela quinta vez, não imaginavam que a ação repercutiria em nível nacional e colocaria novamente às claras a questão do conflito pela terra e a morosidade da reforma agrária no campo brasileiro.


A fazenda está instalada em 10 mil hectares de terras públicas, na mesma região em que famílias de sem-terra estão acampadas há pelo menos dois anos. A área é utilizada ilegalmente para o plantio de laranjas pela empresa Sucrocítrico Cutrale e pertence a uma extensão ainda maior de terras da União, chamada de Núcleo Monções.


O Núcleo compreende cerca de 30 mil hectares de terras localizadas entre os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, no centro-oeste do estado de São Paulo. A maior parte dessas terras é ocupada ilegalmente por empresas ligadas à pecuária extensiva e ao agronegócio de madeira, cana-de-açúcar e laranja. O mesmo local, entretanto, foi prometido pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) aos sem-terras, que se deslocaram pela mesma motivação: a abundância de terras públicas.


Em 8 de agosto de 2007, 78 famílias migraram para a regional de Iaras, acompanhadas posteriormente por outras 66 famílias. A maioria era oriunda da região do Pontal de Paranapanema, localizada a mais 320 km dali, próxima às divisas dos estados de Mato Grosso do Sul e Paraná, no extremo oeste paulista.


Pressionar o governo

Numa dessas levas, veio o dirigente regional da Frente de Massas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Légas (que teve o sobrenome omitido como forma de resguardar sua identidade). Ele explica que a área é ocupada pelos sem-terra desde 1995. A tática é pressionar o governo ao explicitar a contradição existente no fato de áreas públicas serem ocupadas por empresas privadas e acelerar, assim, a reforma agrária na região.


Além de denunciar a grilagem das terras, os sem-terras têm expectativa de viver delas um dia. No entanto, passados quase 15 anos, a maior parte dos hectares continua sob domínio de empresas privadas, a exemplo dos 1.5 mil ocupados por madeireiras. A terra – já desgastada e poluída pelos resíduos da monocultura de pinhos – será destinada às famílias apenas em 2012, quando serão cortados os pés da cultura. Onze áreas na região também estão em processo lento de desapropriação.


Já a Sucocítrico Cutrale instalou-se em terras públicas há pouco mais de quatro anos. O próprio órgão do governo reconhece a ilegalidade. De acordo com o nota divulgada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Justiça Federal deu a posse do imóvel ao Incra, em 2007. De fato, apenas 30% da área foi desapropriada. No local, existe o assentamento Zumbi dos Palmares, que abriga 18 famílias desde outubro de 2008. O restante delas estão acampadas em um antigo horto florestal da União, enquanto aguardam a desocupação das terras públicas pela Cutrale.


A saída da empresa significaria o assentamento de mais 400 famílias. Motivadas por essa expectativa, assentados e acampados partiram para a quinta ocupação da fazenda Capim no dia 28 de setembro e por lá ficaram dez dias.


A derrubada das laranjas

Nesse mesmo dia, a Polícia Militar gravou as imagens de sem-terras manejando tratores que derrubaram sete mil de pés de laranja, de acordo com as estatísticas da própria corporação. Em protesto, os trabalhadores rurais plantariam feijão no lugar de parte da monocultura. A quantidade derrubada corresponde a de 0,7% do 1 milhão dos pés de laranja na fazenda.


Com a ocupação, os sem-terras tentavam garantir uma reunião com o superintendente do Incra para tratar da situação jurídica da fazenda. No entanto, uma decisão da Justiça de Lençóis Paulista determinou que os sem-terra deixassem à área, sob pena de pagamento de multa diária de R$ 500 por pessoa. No dia 7 de outubro de 2009, as famílias voltaram de caminhão aos acampamentos e assentamentos, após ameaças de prisão e uso da força de 200 policiais.


Dois dias antes, a Rede Globo resolveu mostrar as imagens filmadas pela PM e as repetiu, constantemente, em seus jornais. O fato reascendeu o debate no Congresso para a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), formada por deputados e senadores com o objetivo de questionar se recursos públicos são supostamente utilizados de forma ilegal pelo MST. A primeira tentativa de instalação da CPMI havia sido barrada quando 44 deputadores retiraram suas assinaturas do requerimento de instalação da Comissão.


Lideranças políticas de nível nacional se manifestaram contra o ato dos acampados, caracterizando a ação como vandalismo. Esse foi o posicionamento de autoridades como o governador de São Paulo e futuro possível candidato do PSDB à presidência, José Serra, e do próprio presidente Lula. Toda a grande imprensa se posicionou contrária ao MST. O deputado federal Ronaldo Caiado (DEM/GO) chegou a declarar que o movimento seria “terrorista”.


Sem vandalismo”

Foi sem surpresa que Légas recebeu o teor das declarações. “A própria Justiça age de má-fé com os movimentos sociais, principalmente o MST. Eles são governo e devem defender o patrimônio do governo. Nós defendemos nossas terras, que estão nas mãos dessas empresas”, sentencia.


“Não estamos aqui para fazer vandalismo, como dizem. A Cutrale acha que tem mais direito sobre essas terras do que todos que estão aqui, mas nós não achamos isso. Da minha parte, eu volto lá e ocupo novamente. Não me intimida o que eles falam na imprensa”, afirmou a acampada Cristina, que participou ativamente da ocupação.


Pouco tempo depois da divulgação das imagens, os ocupantes passaram a ser acusados de destruir maquinários e outros bens da Cutrale, roubar 15 mil litros de combustíveis e furtar pertences das famílias que trabalham para a empresa. Os sem-terra negam a depredação. “Isso foi invenção da cabeça deles. Por que não nos revistaram? O que nós faríamos com combustível aqui?” indaga Cristina.


“Quando nós chegamos ao local, parte dos tratores já estava em manutenção. Tinha vários desmontados e esses nós não utilizamos. Utilizamos apenas alguns para preparar o solo para a produção”, conta Légas.


Os sem-terra não imaginaram que poderia haver manipulação dos fatos e forjamento de provas, explica Cristina. “Não imaginamos que a polícia pudesse forjar a destruição”. Apesar da acusação, a Polícia Militar não tem nenhuma imagem da depredação. A desocupação pacífica foi filmada pela imprensa. O MST, que organiza as famílias, anunciou que seria favorável à criação de uma comissão independente para as investigações.(Leia mais na edição 347 do Brasil de Fato).

Comentários - 5

Página 1

1 sergio - 22-10-2009 - 17:20:50h

MST
Olá! Foi realmente um tiro no pé no MST. O MST sabendo que uma instalação de uma CPI em curso deram essa vacilada. Sabemos que isso era só um petrecho para eles acabar com MST.

2 A Polícia Bandeirantes. - 24-10-2009 - 08:09:22h

Professor de Escola Pública
É preciso fazer pressão para que estas falsas acusações da PM paulista não fiquem por aí, o MST tem que denunciar a PM de São Paulo e colocar no pau esta instituição falida que se espelha nos assassino sociais históricos chamados, Bandeirantes.

Policiais que reproduzem os Bandeirantes que caçavam indigenas e negros, mega-latifundios de exportação, que são as capitanias hereditárias de hoje... a sociedade brasileira não mudou nada desde de suas origens históricas, tá na hora da mudança ! e tudo muda no universo, nada é estatico no cosmos, nem mesmo a sociedade!

3 Erivagno Oliveira Avelino - 24-10-2009 - 08:43:26h

Produtos químicos
O Jornal Nacional gravou uma entrevista com um funcionário da fazenda, e este afirmava que integrantes do MST teriam levado uma grande quantidade de químicos, e que aqueles químicos nas "mãos de quem não sabe usá-lo" poderia causar um estrago imenso, devido ao químico ser "muito forte", como se o MST fosse agora fazer armas de destruição em massa. Oras, e porque o mesmo jornal - e nenhum outro - questionou a forma da Cutrale usar esses mesmos químicos na produção de laranjas? Quanto de veneno estaríamos ingerindo? Se é perigoso nas mãos do MST, por ser um "químico forte", deixa de ser perigoso se for a própria Cutrale que injete esse mesmo químico "muito forte" nas laranjas?

Erivagno Oliveira Avelino
Conceição do Coité, Ba

erivagno@hotmail.com

4 joedir - 02-11-2009 - 18:48:03h

Luta pela Terra
A luta na e pela Terra precisa ser intensificada em todos os campos:juridicos, politicos, economicos e sociais com ações organizadas dos camponeses/as que sonham em produzir no pedaço de chão e contribuir para alimentar a população urbana do Brasil.

5 joao ademir - 03-11-2009 - 09:53:58h

os terroristas
Os verdadeiros terroristas e latifundiários ( ladrões de terra) deste país, estão assustados porque o MST segue exigindo reforma agrária,para tanto ocupa terras embalados no lema a ordem é ninguém passar fome, precisamos salvar nosso planeta e isto significa sobretudo salvar o Brasil das multinacionais, dois caiados das globos e dos corruptos que cuidam da justiça e de tudo aquilo que junto com o citado agridem a vida não deixando-a desabrochar.