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Bonde de Santa Teresa: crônica de uma privatização à vista

by Admin last modified 2008-07-31 11:34

Governo prepara terreno para entregar à iniciativa privada a concessão do sistema bonde


31/07/2008


Débora Franco Lerrer

Do Rio de Janeiro (RJ)


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De modo sorrateiro e passando por cima de protestos dos moradores do bairro, o governo de Sérgio Cabral Filho acaba de dar um pontapé inicial na privatização de um dos mais queridos e pitorescos programas turísticos do Rio de Janeiro: o bondinho de Santa Teresa. A empresa francesa Sistran Engenharia ganhou a licitação para preparar até o final do ano um estudo para concessão deste serviço de transportes para a iniciativa privada.


No jornal “O Globo”, o governador enfim assumiu seus propósitos. Argumentou que a privatização é necessária porque o serviço não atende bem os moradores. Já o seu secretário dos Transportes, Julio Lopes, alega que a tarifa de R$ 0,60 gera um faturamento insuficiente para a manutenção do bondinho. Ele só não explica porque só a iniciativa privada é que poderá aumentar a tarifa.


A Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (Amast), que tem sido uma pedra no sapato de todas as iniciativas predatórias que ameaçam a pacata vida do bairro, vai entrar com uma ação civil pública contra o governo Cabral. A Amast tem legitimidade, pois foi fundada, nos anos 80, justamente para garantir a permanência dos bondinhos no bairro e obteve seu tombamento como patrimônio histórico e cultural em 1988.


Alegando o custo alto de manutenção e as inúmeras pendências judiciais, Lopes argumenta que a privatização é uma saída por causa do alto custo do bondinho para os cofres do Estado e da dificuldade que este tem de administrá-lo.


Esquema PPP

Na verdade, o centenário serviço de transportes é um dos alvos do projeto de “reestruturação” de 14 empresas públicas e de economia mista do Estado do Rio de Janeiro, elaborado pelo sub-secretário de Planejamento, Francisco Caldas Andrade Pinto, com o objetivo de extinguir empresas e cargos. Em seu plano, o futuro da Central (Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística), empresa que administra o bonde e o resto da malha ferroviária que sobrou das privatizações, é ser absorvida pela Emop (Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro). Já o destino do bonde será uma “concessão PPP”, ou seja, passar a ser explorado por uma iniciativa “público-privada”.


Exigência do Banco Mundial

De fato, no contrato de empréstimo do Banco Mundial ao Estado do Rio de Janeiro - dos quais R$ 24 milhões teriam que ser usados na reforma dos bondinhos e de sua via permanente - está explícito que o financiamento prevê uma futura privatização, “reduzindo subsídios operacionais e aumentando a participação do setor privado na operação e no gerenciamento dos serviços”. Em suma, o Banco Mundial dá empréstimo para governos melhorarem uma infra-estrutura que depois dará lucros para a iniciativa privada, embora os custos do empréstimo fiquem com o Estado.


Embora não tenha sido eleito com essa plataforma, Cabral parece querer terminar o serviço de privatização que o Governo Marcelo Allencar, com popularidade despencando ladeira abaixo, deixou inacabado. Só da Central já foram demitidos 425 funcionários de janeiro a março de 2008, dos quais 32 eram funcionários antigos do bonde, alguns deles meses antes de sua aposentadoria.


Sucateamento

O fato é que só existem dois bondes funcionando em Santa Teresa porque o Estado simplesmente parou de investir em sua manutenção. Segundo uma estimativa feita a partir da última grande reforma do sistema, para recuperar os que estão parados bastaria gastar no máximo R$ 300 mil com cada um, bem menos do custo de R$ 900 mil gastos no protótipo de um bonde moderno, bancado com o dinheiro do Banco Mundial. Além de ferir os termos do tombamento, esta modernização tem se revelado um estrondoso vexame.


Embora preserve a carcaça e a fachada tradicional dos bondes, essa iniciativa teve lances ora cômicos, ora trágicos. Levados, em 2005, para a oficina da T-Trans em Três Rios, aguarda-se desde abril de 2006 o retorno dos bondes reformados. O prazo agora foi jogado para o final de 2008.


Modernidade

Mas já houve uma estréia do “bonde moderno”, em novembro de 2007, marcada por mico inesquecível. O protótipo empacou diante das autoridades presentes, causando um enorme engarrafamento no bairro. Não andou porque os engenheiros responsáveis pelo projeto não observaram a altura do “truck”, a estrutura inferior que se encaixa nos trilhos. A do protótipo era mais baixa do que a dos bondes originais. Com oito deles na sede da empresa, bastava que copiassem suas medidas.


Algum tempo depois, o bondinho começou a ser visto em algumas ruas do bairro. Dava solavancos na hora de fazer as curvas sinuosas de Santa Teresa e seu freio parecia não agüentar o tranco. Tepedino, no entanto, insistiu que a motivação da reforma era “segurança”, pois não era mais possível andar com os tais bondes antigos. Se havia algum problema era a dificuldade de se fazer testes no dia a dia do bairro. Seu outro argumento era de que não havia mais como repor as peças. Sabe-se, entretanto, que existem vários fornecedores delas na ativa. Segundo um deles, que adoraria ser o único, basta ter uma fundição. Trata-se de mecânica básica, sem mistério técnico.


Mas a trapalhada acabou assumindo um tom mais trágico. No dia 1º de junho, manobrado por um engenheiro na oficina, que perdeu seu controle, o tal protótipo causou um acidente, ferindo gravemente um funcionário, que teve fratura exposta na perna. O freio simplesmente não funcionou. Tudo indica que para o bonde andar seguramente em Santa Teresa, só com seu mecanismo tradicional adaptado, por décadas de uso, aos caprichos de suas curvas e ladeiras.


Mais lucro

A privatização do bonde tende a favorecer apenas uma minoria, pois ela significará uma maior destinação turística, pois isso dá mais lucro. É só assim que a iniciativa privada vai assumir esse serviço, o que pode significar viagens ao preço dos trens do Corcovado, R$ 35,00. Aí é claro que vai haver vários bondes com a pintura tinindo, sem maiores problemas de manutenção. Mesmo se os moradores receberem desconto, a exemplo da barca que vai para Paquetá, os turistas vão perder oportunidades preciosas de ver como se vive nesse país. Vão ficar encapsulados em mais um oásis turísticos asséptico, que só serve para tirar fotografia.


Se o projeto do governo estadual vingar, os turistas não vão mais ver a vida que povoa o bonde. Mas pior do que isso. Ao se sentir no direito alienar um patrimônio público tombado e útil para sua população, o Governo Cabral passa por cima de uma luta empreendida, desde a década de 60, por moradores e funcionários do bonde para que ele continuasse a existir. Sim, por que se fosse depender de políticos e suas receitas modernizantes, implantadas de cima para baixo, sem dar ouvidos à população, esse bonde não existiria mais, e o pitoresco passeio turístico, que este governo quer privilegiar, não existiria.