Esquerda volta a se reunir em Porto Alegre e discute os rumos do Fórum
Em Porto Alegre, as avaliações dos dez anos do evento seguem duas tendências principais. Enquanto alguns querem manter a metodologia atual, de debates e atividades que construam discursos e parcerias, outros cobram mais preocupação com ação concreta
03/02/2010
Leandro Uchoas
de Porto Alegre (RS)
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Em debate, a conjuntura mundial
Embora
em clima festivo, as primeiras intervenções do Fórum Social
Mundial (FSM) deste ano, em Porto Alegre (RS), foram, naturalmente,
de avaliação. As discussões iniciais tiveram um caráter de
questionamento do processo criado há dez anos. O que haveria de
positivo em sua metodologia e organização? O que fazer para que os
debates nele situados ganhassem corpo em medidas concretas? Dentre os
principais intelectuais e lideranças presentes, pode-se dizer que as
avaliações seguiram duas tendências principais. Há os que
consideram que o Fórum deve permanecer um espaço de debate e
construção de unidade, e que em geral são contra a formatação de
resoluções documentadas. E há os que prefeririam que houvesse
maiores indicativos de ação concreta nas lutas sociais.
Personalidades como Oded Grajew, Chico Whitaker e Candido Grzybowski estão entre os que defendem a manutenção do Fórum como um espaço aglutinador de ideias. Criadores do evento, pensam que o Fórum não tem a missão de organizar os movimentos e entidades para a ação concreta. Segundo eles, após a construção de alianças e parcerias nos espaços de discussão, os participantes teriam que sair do FSM com outras estratégias concretas de atuação, construir outros espaços. Grajew considera que as bandeiras e prioridades não podem ser impostas pelo evento, de forma a dar liberdade de participação àqueles que não concordam com um determinado direcionamento. O empresário propõe a adoção de novas culturas civilizatórias, propagando a ideia de responsabilidade individual e coletiva.
Os integrantes de movimentos sociais e sindicais manifestaram um posicionamento diferenciado, embora concordem com a necessidade de debates amplos e bem elaborados para a formação de alianças. Entretanto, consideram que o FSM precisa ter resultados concretos e resoluções mais nítidas. Segundo seu posicionamento, o Fórum teria tido o grande mérito de colocar ao mundo as contradições do neoliberalismo num momento chave – início dos anos de 2000 – e de formatar uma grande mobilização entre elementos de resistência espalhados pelo globo que já tinham seus espaços políticos em solidificação.
João Pedro Stedile, do MST, foi um dos principais críticos à incapacidade do evento de formular uma estratégia de estímulo à ascensão de massas e de se contrapor aos espaços de legitimação ao neoliberalismo. Até mesmo em Porto Alegre, onde o FSM foi criado, as forças de direita tomaram o governo das de esquerda que fizeram da cidade e do estado exemplo de administrações ousadas e democráticas. Em analogia, Stedile afirmou que o Fórum é o “vestiário”, mas que o jogo se constrói efetivamente no campo.
Alianças
Candido
Grzybowski não concorda com a tese. Ressaltando que a divergência
entre as lideranças é menos impactante que os consensos, ele
defende o modelo atual. A ação concreta dos ativistas deveria ser
feita em outros espaços, a partir das alianças criadas no local.
“Os que estão interessados nisso podem se unir e formar coalizões
no interior do Fórum, mas o Fórum enquanto tal não pode tomar. Há
o risco de que se afaste aqueles que não concordam com determinadas
decisões coletivas”, defende.
O cientista político Eric Toussaint se contrapõe a esse posicionamento. “Se um setor do Fórum não quer uma evolução rumo a transformar-se em um instrumento de mobilização, melhor constituir outro instrumento entre as organizações e indivíduos que estão convencidos de que precisamos deste instrumento. Isso não impediria seguir como parte ativa do Fórum”, defende. “Há uma debilidade muito forte do FSM para enfrentar a crise. Vimos, por exemplo, que a juventude brasileira do estado do Pará estava muito interessada, foi em massa (ao FSM de 2009, em Belém), mas o Fórum Social Mundial não é um instrumento de mobilização”.
A divergência entre as lideranças, entretanto, soma-se à aprovação quase unânime do FSM como espaço de construção de ideias. Há consenso de que o evento conseguiu se estabelecer como um contraponto bem sucedido ao Fórum Econômico Mundial, de Davos, e entrar na agenda dos acontecimentos mundiais de influência. A partir do FSM, diversas outras iniciativas surgiram, inclusive com o surgimentos de fóruns regionais e temáticos. Em geral, a avaliação é de que o Fórum representou uma injeção anual de disposição e resistência em ativistas de diversos movimentos e ONGs. “O Fórum de Davos não conseguiu prever a crise financeira, da qual já falávamos há algum tempo. O nosso Fórum deu muito certo, tanto que já estamos completando dez anos”, avaliou João Felício, da Central Única dos Trabalhadores (CUT).